Setor moveleiro, vinícolas e fabricantes de máquinas vivem apreensão; cidade responde por 0,5% das exportações gaúchas e soma R$46,48 milhões vendidos ao exterior em 2025 (janeiro à junho)

Bento Gonçalves, um dos polos industriais mais importantes do Rio Grande do Sul, enfrenta um dos cenários mais desafiadores dos últimos anos com a decisão dos Estados Unidos de elevar tarifas sobre produtos brasileiros. A medida atinge diretamente o segundo maior mercado comprador da cidade, a América do Norte, e ocorre justamente quando as exportações vinham em expansão, sustentando o crescimento local e estadual mesmo após a crise logística e econômica causada pelas enchentes.

Em junho de 2025, Bento Gonçalves exportou US$9,2 milhões, registrando crescimento de 10% em relação ao mesmo mês de 2024. Entre janeiro e junho, as vendas somaram R$46,48 milhões, representando 0,5% de todo o volume exportado pelo Rio Grande do Sul no período. Para uma única cidade, essa participação é expressiva, mas corre risco: mesmo em cenário normal Bento já vinha perdendo competitividade e, com o tarifaço, pode ficar completamente fora de mercados estratégicos, não são apenas as empresas exportadoras que perdem, há toda uma cadeia que também irá ser impactada, como por exemplo, de acessórios ou peças complementares. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), 13 países concentram 80% das exportações de Bento Gonçalves. A América do Sul é o principal destino, com 35% do total, seguida pela América do Norte, com 19,23%. É justamente este bloco que já apresenta retração de 20% em 2025, reflexo direto das novas tarifas e que pode ser agravado com elas.

Cenário nacional amplia a crise

O cenário nacional reforça a gravidade do momento. Dados do MDIC mostram que, em junho de 2025, o Brasil registrou aumento de 1,4% nas exportações em comparação ao mesmo mês do ano passado, puxado principalmente pela indústria de transformação, que cresceu 10,9%. Enquanto isso, os setores agropecuário (-10%) e extrativo (-6,2%) tiveram queda. A indústria de transformação foi justamente o motor da recuperação, sustentando a corrente de comércio nacional mesmo com o recuo no superávit, que caiu 6,9% no mês e 27,6% no acumulado do ano.

Esse avanço nas exportações industriais veio em um momento de forte aumento das importações (+8,3% no semestre), evidenciando a retomada da atividade econômica, mas também a vulnerabilidade do saldo comercial. A decisão dos EUA de impor novas barreiras tarifárias vem, portanto, na contramão desse impulso, com potencial para afetar duramente os polos industriais do país, entre eles, Bento Gonçalves.

De acordo com o MDIC, 13 países concentram 80% das exportações da cidade. No panorama nacional, o comércio com os Estados Unidos resultou em déficit de US$590 milhões em junho e US$1,67 bilhão no semestre, com importações crescendo 18,5%, ritmo muito acima do avanço das exportações, que subiram apenas 2,4%. Em contraste, países como a Argentina impulsionaram o desempenho externo do Brasil, com alta de 70,8% nas exportações de junho.

Setores mais atingidos em Bento Gonçalves

Mais da metade das exportações do município (55%) vêm da indústria moveleira, que movimenta uma ampla cadeia de fornecedores, de máquinas e insumos a acessórios e serviços. Os Estados Unidos, sozinhos, têm 16,93% de tudo o que Bento Gonçalves envia ao exterior.

As vinícolas também estão no grupo mais afetado, a categoria que inclui vinhos de uvas frescas, mostos, borras e tártaro em bruto registra queda de 7% no acumulado de 2025 frente a 2024, sendo que 20,52% das vendas têm como destino os Estados Unidos. O setor depende de poucos mercados: cinco países concentram 85% do valor exportado, que chega a U$1.005.138,00.

Já o setor de máquinas e equipamentos enfrenta a situação mais crítica: as exportações caíram 36% no acumulado do ano, ampliando a pressão sobre empresas que já lutavam contra custos logísticos elevados e perda de competitividade. “Se o setor moveleiro sofre, todos os elos dessa rede sentem o impacto. Isso inclui fornecedores de máquinas, acessórios e até prestadores de serviço. Não estamos falando só de balanços, mas de empregos e famílias que dependem dessa engrenagem”, aponta a empresári Marijane Paese.

Risco de perda de clientes e paralisação de operações

Para as empresas, o maior risco vai além das tarifas: é perder clientes conquistados ao longo de anos. “Empresas com cargas prontas podem ser obrigadas a esperar enquanto compradores aguardam uma solução para o impasse. Nesse tempo, esses clientes encontram outros fornecedores, e no mercado não existe exclusividade. Reconquistar essa relação pode levar anos e implicar em novas renegociações com perdas de pedidos no futuro”, alerta Marijane.

Segundo ela, a produção que deixaria de ser exportada não pode ser redirecionada integralmente ao mercado brasileiro. “Muitos pensam que essa situação pode gerar preços mais baixos no Brasil, mas não funciona assim. O mercado interno já consome no limite e não tem como absorver toda a produção excedente. O resultado prático é perda de faturamento e negócios, e não ganho para o consumidor final”, afirma.

Perigo de inflação

A chamada Lei da Reciprocidade Econômica (Lei nº 15.122/2025), sancionada em abril deste ano e regulamentada por decreto em julho, autoriza o Brasil a adotar medidas de retaliação contra países que impuserem barreiras comerciais ou subsídios considerados desleais aos produtos nacionais. O dispositivo prevê a aplicação de tarifas adicionais sobre importações, suspensão de concessões comerciais e revisão de patentes e royalties. O governo federal determinou que as ações sejam avaliadas de forma conjunta por Ministério da Fazenda, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Ministério das Relações Exteriores e Casa Civil. A lei foi citada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como instrumento para responder às tarifas anunciadas pelos Estados Unidos sobre exportações brasileiras, o que preocupa o setor, caso o Brasil decida retaliar os Estados Unidos com novas tarifas sobre produtos importados. Para a empresária, a medida pode ser desastrosa. “Muitos insumos e produtos importados dos EUA são específicos e não têm substitutos viáveis em outros países. Se houver taxação, o mercado interno pode enfrentar forte inflação, prejudicando empresas e consumidores”, alerta.

Pressão política como saída

Para mitigar os efeitos do tarifaço, Marijane defende ação política coordenada. “É preciso que empresas, entidades e sociedade se unam para apresentar números e pressionar o governo. O Rio Grande do Sul já foi severamente atingido pelas enchentes, tem uma infraestrutura e logística frágeis e agora é o segundo Estado mais impactado pelas novas taxações. Sem negociação rápida com os Estados Unidos, vamos perder competitividade e ver nossa economia regional retroceder ainda mais”, afirma.

Ela ressalta que o impacto não será passageiro: “O efeito já é sentido e deve permanecer por algum tempo. A recuperação exige planejamento e esforço para diversificar mercados e reduzir a dependência de poucos países. Entrar em novos mercados não é simples: são nichos altamente competitivos e com barreiras específicas. Por isso, é urgente retomar o diálogo comercial”, conclui.

Enquanto as negociações não avançam, Bento Gonçalves, responsável por 0,5% das exportações gaúchas e com R$46,48 milhões enviados ao exterior só no primeiro semestre de 2025, vive a incerteza de uma crise que não atinge apenas empresas, mas trabalhadores e consumidores em toda a região.