São 500 mil pessoas que falam Talian no Brasil, em 133 cidades de seis estados; outras línguas como o vêneto, o trentino e o milanês se fazem presentes na região. Confira esta matéria especial da série de reportagens em comemoração aos 150 anos de imigração italiana

Por Cassiano Battisti

Entre os parreirais e os casarios de pedra da Serra Gaúcha, um som familiar resiste ao tempo: o Talian. A língua nascida do encontro entre imigrantes do norte da Itália é hoje um símbolo cultural da identidade regional. Reconhecido como língua de referência cultural brasileira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2014, o Talian sobrevive graças ao esforço de professores, comunidades e apaixonados por esse legado linguístico e afetivo.

Segundo consta no livro/cartilha “Nos 150 anos da imigração, um esforço para salvar a língua Talian”, em 1875 partiam os primeiros navios de imigrantes oriundos de várias regiões do norte da Itália em que se falavam vários dialetos. Já no navio, essa diversidade linguística naturalmente se misturou para que se tornasse mais fácil a comunicação. Ali começou a se formar uma nova língua, ainda não denominada de Talian. Ao chegar ao Brasil, esses imigrantes tiveram contato com a língua portuguesa, apropriando-se de palavras do português que foram talianizadas. Durante 70 anos, os imigrantes falaram naturalmente sua língua materna, praticamente a única que conheciam.

A Universidade de Caxias do Sul (UCS) promove o curso Talian in Fameia desde 2024

Segundo o livro/cartilha, que foi publicado este ano, há 30 municípios no RS e quatro em SC que possuem legislação definindo o Talian como língua cooficial, sendo uma dessas cidades Bento Gonçalves.

“O Talian é uma língua”

Quem reforça essa afirmação é a professora Sabrina Bonqueves Fadanelli, coordenadora do Programa UCS Línguas Estrangeiras. “O Talian foi considerado uma língua oficial da região de imigração italiana. Ele era falado — e continua sendo — pelos descendentes dos imigrantes italianos que vieram para o sul do Brasil”, afirma.

Segundo ela, a língua nasceu da necessidade de comunicação entre os diversos grupos italianos, especialmente os da região do Vêneto. “Eles vieram de diferentes províncias, principalmente do Vêneto, e precisavam se entender aqui. Com o tempo, essa convivência formou o Talian, que tem muita semelhança com o italiano, mas também muitas diferenças gramaticais e de vocabulário, moldadas pelo cotidiano das colônias”, indica Sabrina.

Uma resistência afetiva

Apesar do risco de desaparecimento, o Talian encontra força na universidade. Sabrina é uma entusiasta do curso Talian in Fameia, lançado pela UCS em 2024. “A proposta não é só ensinar gramática. É um mergulho cultural, com músicas, contos, vocabulário do cotidiano e muita interação familiar”, explica. “Temos participantes de todas as idades. Uma avó se matriculou para fazer o curso com o neto de 11 anos. Isso mostra como a língua ainda pulsa nas famílias”, salienta.

Segundo ela, o curso atrai um público diverso, com destaque para adultos acima dos 50 anos, mas também com forte participação de jovens e crianças. “Essa conexão entre gerações é o que dá vida à língua. A aula se torna um momento de reunião familiar, um encontro semanal para celebrar a cultura”, afirma.

Os ministrantes do curso são de Caxias do Sul e Antônio Prado: Ladir Brandalise, Paulo Lazzaretti, Maria Inês Bernardi Chila e Valter F. Buffon. Além disso, participa ativamente do curso o professor de Talian e ex-secretário de Cultura de Caxias do Sul, João Tonus. As aulas de Talian da UCS ocorrem via Google Meet.

Segundo reportagem da Record TV, 500 mil pessoas falam Talian no Brasil, em 133 cidades de seis estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo.

Um idioma de muitos sotaques

O professor João Tonus, principal idealizador do curso de Talian da UCS e um dos maiores estudiosos da língua, cresceu ouvindo diferentes versões do italiano falado na Serra. “Eu aprendi em casa o Trevisan, mas meus vizinhos falavam Cremonês. No nosso grupo de teatro em Carlos Barbosa, tinha gente de Treviso, Vicenza, Pádua e a gente vivia discutindo o ‘jeito certo de dizer’”, lembra.

Irineu Dal Ponte e João Tonus divulgando o curso de Talian da UCS

Para ele, o Talian é uma colcha de retalhos, formada pelos sotaques e vivências de quem o fala. “Não se sabe ao certo quantas línguas vindas da Itália formaram o Talian aqui no Brasil. Os imigrantes vieram de cerca de 15 províncias diferentes”, frisa.

As 15 províncias italianas se referem ao momento em que a Itália ainda não era unificada. Mesmo com a unificação, muitas línguas e dialetos se preservam na Itália, como Vêneto e Bergamasco. Segundo a Unesco, calcula-se que existam ainda em torno de 30 dialetos no país.

“O Talian é o principal alicerce da nossa cultura”

Em Bento Gonçalves, a professora Mirna Madalosso carrega no sotaque e na alma o amor pela língua. Desde 2017, ela conduz aulas de Talian na Casa Merlin, no Caminhos de Pedra, e lidera eventos como a Setimana del Talian. “Dar aula de Talian é maravilhoso. A gente compartilha mais do que a língua, resgatamos nossa cultura. Preservar o Talian é preservar a identidade cultural da nossa região,chamada de região da imigração italiana. A identidade cultural de Bento Gonçalves é feita basicamente pelos imigrantes italianos. Quando nossos imigrantes chegaram aqui não tinham quase nada do ponto de vista material, mas haviam trazido consigo uma enorme bagagem cultural e a mais poderosa foi sua língua. As orações, a música, os jogos, o filó, a conservação dos usos e costumes, o artesanato, isso tudo se dava em Talian. Perder essa língua é perder a nossa identidade”, afirma.

Alunos do Talian in Fameia 2024, núcleo Bento Gonçalves, do qual Mirna é aluna e monitora

Ela recorda que, mesmo com a cooficialização do Talian em Bento Gonçalves em 2016, ainda falta apoio mais efetivo. “Apesar do reconhecimento, pouco se faz para preservar a nossa verdadeira língua. A perda de línguas empobrece a humanidade”, destaca.

Mirna também relembra o período de repressão durante os anos 30 e 40. “Primeiro vieram as restrições. Depois, a repressão policial. Mas o pior foi ver nossa língua sendo motivo de deboche, como se fosse apenas coisa de gente pobre da colônia”, reitera.

Em 1941, um decreto nacionalista do Estado Novo proibiu o falar Talian, entre outros falares estrangeiros. Quem falasse seria preso. “Muitos não sabiam português, então evitavam sair de casa para não serem denunciados. Jovens e crianças foram estimulados a falar só português, com isso o processo de morte do Talian se iniciou com muita força”, frisa Tonus.

Um museu vivo

Em Bento Gonçalves, a Associação Caminhos de Pedra é considerada um “museu vivo” da imigração italiana. A aluna e entusiasta Maristela Lerin participa das aulas de Talian com Mirna desde 2017 e acompanha de perto o esforço para manter viva a língua e os costumes. “A ideia nasceu da preocupação de manter nossas raízes culturais. Tínhamos alunos de 1º ao 5º ano estudando Talian nas escolas. As aulas ocorrem todas às quartas-feiras, às 19h na Casa da Cultura e da Memória Merlin com a participação de oito alunos. Outro grupo nas terças-feiras participa online. Paralelamente temos na Escola Estadual Nossa Senhora da Salete um grupo de alunos que se reúnem aos sábados das 8h30min às 10h30min para danças juvenis sob a coordenação da professora Jussara Rasador com músicas italianas. A língua do “Talian” é apresentada através da dança”, ressalta.

Celio Luís Lerin e Maristela em viagem à Itália

Maristela enfatiza: “Se o povo souber de onde vem, saberá para onde vai. Como resultado, teremos um povo culto e educado. Precisamos que os órgãos municipais se sensibilizem através de emendas ou decretos que promovam esta língua nas escolas do município”, declara Maristela.

Segundo ela, o dialeto milanês também se faz presente na região, mas em menor número. “Temos aqui a família “Bom” originária da Suécia e outros da Lombardia (hoje Itália). Junto com os da região do Vêneto, mantém suas raízes históricas. O Museu Sueco no município vizinho de Farroupilha apresenta suas raízes vivas. O trentino e o polonês também se fazem presentes em nosso meio”, frisa.

Outras iniciativas

A escritora Marta Sassi lançou, em 2024, o livro VIME (Strope, em Talian), uma homenagem aos saberes da terra e da família. “O Talian faz parte da minha história. Me sinto confortável com quem se dispõe a conversar. Foi por isso que pedi à professora Mirna que traduzisse a obra para o Talian. Queria garantir que as novas gerações também se aproximem dessa herança”, salienta.

A obra, segundo ela, é uma homenagem a esse legado, às famílias. A narrativa se inspira na figura de um pai agricultor, que durante a poda da videira reflete sobre a vida e seus filhos. Ele olha com atenção as strope e enxerga ali uma possibilidade de transformá-las em um objeto que seus filhos precisam, LÁPIS DE STROPE, útil e repleto de significado. “Mais do que um livro, VIME é um testemunho sensível sobre raízes, ciclos, afetos e continuidade. Um convite a olhar com mais atenção para os saberes que brotam da terra e para os gestos silenciosos que formam um legado”, destaca.

Marta Sassi valorizou o Talian em obra

O livro foi lançado na Feira do Livro do ano passado e se soma a um crescente movimento cultural: peças teatrais, lives, músicas, programas de rádio e filmes em Talian — como o premiado “Até que a Música Pare”, que estão ajudando a revitalizar a língua.

Além disso, desde 1982, o grupo teatral Miseri Coloni encena peças em Talian. “Hoje, esta iniciativa é considerada a base para uma retomada do orgulho de ser imigrante, de ser colono”, afirma Tonus, que também atua no grupo.

O futuro do Talian: entre o risco e a esperança

Mesmo com avanços, como o relançamento do Dissionàrio Talian/Português/,Português/Talian de Darcy Loss Luzzatto em 2023, e os cursos online promovidos pela Unicentro-PR e UCS, o risco da língua desaparecer ainda é real. “Existe uma tendência de morte do Talian nas novas gerações”, alerta Mirna.

Para Sabrina, o caminho para a sobrevivência é afetivo. “O Talian só vai continuar vivo se mantiver essa ligação emocional com a família, com os avós, com os descendentes de imigrantes. É uma língua de conexão do coração”, conclui.

Algumas expressões em Talian:

Bon di e Bon giorno (bom dia)

  • Bona sera (boa tarde ou quando se chega, de noite)
  • Bona note! Note, Note! (Boa noite!)
  • Ciao/ Ciai, ciai! Adio! (tchau! Adeus!)
  • Benvegnuo(a)/ benvegnudo(a) / benvegnesto(a) / benvegnudi(e) – (bem-vindo)
  • Ma varda, chi che se vede! (Mas olhe quem que se vê!)
  • Alora, come vala? / come steo? sani? (Então, como vai? Como tu estás? Tudo
    bem?)
  • Salute! stame ben! salùdeme (to mama, to pupà, to fiola, to fiol, to vissin,..)
    Saúde! Fique bem! Cumprimente (tua mãe, teu pai, tua filha, teu filho, teu vizinho,…)

Fonte: professora Mirna Madalosso

Municípios do RS e SC que o Talian é língua cooficial:

RS: Antônio Prado, Barão, Bento Gonçalves, Camargo, Casca, Caxias do Sul, Coronel Pilar, Cotiporã, Doutor Ricardo, Encantado, Fagundes Varela, Farroupilha, Flores da Cunha, Garibaldi, Guabiju, Horizontina, Ijuí, Ivorá, Marau, Nova Bassano, Nova Pádua, Nova Prata, Nova Roma do Sul, Paraí, Pinto Bandeira, Putinga, Serafina Côrrea, União da Serra, Vila Flores e Vista Alegre do Prata.

SC: Nova Erechim, Ipumirim, Capinzal e São Miguel do Oeste.

Fonte: livro/cartilha “Nos 150 anos da imigração, um esforço para salvar a língua Talian”.

Crédito foto da capa: Anthony Beux Tessari