Entre superproduções bíblicas, espetáculos autorais e monólogos que resgatam a cultura local, atores e atrizes do município mostram que a arte produzida na Serra Gaúcha pode ecoar muito além de suas fronteiras

Do palco escolar em Bento Gonçalves para grandes produções televisivas e cinematográficas nacionais. Essa é a trajetória de Matheus Toniazzi, ator que hoje acumula papéis em séries bíblicas da Record, cinema e teatro. “Viver o Gedalias foi uma honra e um grande desafio em minha carreira como ator. Foi meu primeiro personagem fixo em uma obra, em uma série, fazendo parte do elenco oficial da trama do início ao fim. Essa conquista não tem preço”, relembra.

Gedalias, explica Toniazzi, foi um dos papéis mais intensos de sua carreira: “Ele era totalmente o meu oposto, pavio curto, radical, afrontoso. Defendia até a morte dos seguidores de Jesus. Como ator eu precisava defendê-lo, mas como ser humano aquilo me embrulhava o estômago. Muitas vezes a cena terminava e eu chorava. O Ge (modo carinhoso que chamo meu personagem) é um homem sem papas na língua, que vai contra tudo e todos que resolverem infringir as leis que acredita. Um líder religioso com sangue nos olhos e que adora colocar ‘fogo no parquinho’. Quando me deparei com situações em que o Gedalias concordava com açoites, apedrejamento e até mesmo a morte dos seguidores da ‘seita’ (pessoas que acreditavam e seguiam a palavra do nazareno, Jesus), mexeu demais com o meu coração”, revela.

Toniazzi interpreta Gedalias na produção bíblica

Antes de Gedalias, o bento-gonçalvense já havia interpretado Gabbar, em Reis. A cena de morte do personagem marcou pela intensidade. “Gravar uma cena de morte, no caso do Gabbar, um assassinato, é sempre muito delicado. O Rezom esmagava a cabeça do meu personagem em uma mesa, com várias pancadas brutais. A produção perguntou se eu queria um dublê para fazer a cena, porém, eu disse não. Eu mesmo quis vivenciar tudo isso. Aí tiveram vários ensaios com dublês profissionais, que me orientaram como fazer a cena com maestria e segurança. Além disso, uma equipe impecável de efeitos especiais estava presente no set, pois, tinha toda a parte da maquiagem de efeitos em meu rosto e também, de como fazer o sangue escorrer pela mesa”, afirma.

O bento-gonçalvense já havia interpretado Gabbar, em Reis

Segundo Toniazzi, há todo um preparo físico para as diversas gravações. “A série é gravada em outra época, em outro tempo e muitas vezes as cenas são gravadas em externas, na cidade cenográfica ou então em outras locações. Paulo, O Apóstolo foi gravada no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, estados diferentes e com climas peculiares. Então imaginem gravar no calor de mais de 40 graus do RJ, embaixo de um sol escaldante e com roupas da época. O figurino do Gedalias, por exemplo, tinha quatro camadas de roupas, e os tecidos eram fiéis aos da época. Era preciso muita concentração, calma, protetor solar, beber muita água e isotônico para hidratar. Já a galera que foi pro Sul, pense no frio, tinham cenas em que Paulo batizava os fiéis nas águas de rios e cachoeiras em Cambará do Sul. Os figurinos eram leves, uma simples túnica, então, já dá para imaginar um pouquinho de como era para o elenco gravar essas cenas. Terminavam as gravações e os atores e atrizes precisavam se aquecer com roupas quentes e cobertores”, conta.

Toniazzi também viveu o personagem Diego no longa “Stand Up – O Filme”. O ator conta como foi a imersão nesse universo. “Minha primeira vez em uma obra de humor. Por mais que o filme fosse de comédia, tinha um núcleo que era de um universo sobrenatural, e eu fazia parte dele. Diego era assistente de um mestre de Vodoo, o Pai Flávio. Gravamos em um prédio antigo, abandonado, no centro de São Paulo. O cenário era algo surreal. Todo enigmático, sombrío e lúdico. A caracterização totalmente diferente para não cair no clichê e também não brincar ou ofender qualquer entidade. Tivemos várias leituras para entender essas figuras e a partir daí criarmos a nossa própria identidade. O Diego era um cara misterioso, divertido, com tiques e um figurino que lembrava um integrante de banda de rock”, afirma.

Toniazzi também viveu o personagem Diego no longa “Stand Up – O Filme”

O humor exige um tempo de atuação diferente do drama. O ator revela como trabalha essa mudança entre gêneros tão distintos. “Para um cara que sempre deu vida a personagens mais dramáticos, mergulhar no mundo do humor foi bastante complicado. Eu não me acho um cara cômico, embora, eu ame fazer piadinhas com trocadilhos e as pessoas querem me matar (risos). Mas, como tudo na vida, principalmente na carreira do ator, temos diversos e inúmeros desafios, então, aceitei o convite e me permiti viver algo que era novo pra mim. Acho que o não ter medo de ser ridículo, exagerado, caricato e tal, traz um pouco desse lado de se libertar do que a sociedade ou o sistema nos impõe diariamente. Então, só fui vivendo um dia após o outro, me soltando, sem medo do que iriam falar. O ser humano se preocupa muito com a imagem, com o que os outros vão dizer. O artista não pode se preocupar com isso. Ele precisa apenas ser e viver”, explica.

Um fato curioso é que o ator teve a oportunidade de ter sido dirigido por um conterrâneo. “Fui dirigido pelo querido e talentoso Vicente Guerra, um dos diretores de Paulo, O Apóstolo. Ambos de Bento Gonçalves, estudávamos no mesmo colégio (Aparecida) e temos vários amigos em comum. Da Serra Gaúcha para o mundo”, frisa.

O começo

O bento-gonçalvense afirma que a atuação entrou em sua vida muito cedo. “Quando tinha uns sete anos de idade, pegava as roupas do meu pai e da minha mãe e ficava criando personagens na frente do espelho, em casa. Foi quando meus pais me levaram pela primeira vez a um teatro, fui assistir Pinóquio no Cine Ipiranga em Bento, da Cia Teatral Verbo Ser. Fiquei encantado, apaixonado, amor à primeira vista. Algo mexeu comigo, algo tocou meu coração. Aí pensei: ‘Não quero estar aqui, não quero estar sentado na plateia. Quero estar ali em cima, quero estar no palco’, relembra.

Com nove anos, na quarta série, ele fez sua primeira peça de Teatro, “O Ursinho Azul”, no Colégio Marista Nossa Senhora Aparecida, lugar onde estudou por muitos anos e só saiu quando completou o segundo grau. “Desse momento em diante a minha história foi traçada e minha missão começava. Tudo que envolvia arte na cidade, o guri aqui estava envolvido. Festivais de Teatro, Mostra Cultural, Grupo de Jovens, Concurso de Dança, Grêmio Estudantil, enfim, tudo que de alguma forma estava relacionado ao meio artístico, eu estava lá”, pontua.

Ele não parou mais, pois sabia o que queria seguir para o resto da vida. “Com 19 anos estava indo para a faculdade, na época fazia Unisinos, e aí tinha umas pessoas na rua entregando panfletos para participar de um teste para uma produtora de atores e atrizes em São Paulo. Pronto! Era o início da aventura mais louca, intensa, difícil, emocionante e linda que eu poderia viver. Isso foi em 2004”, destaca.

Sobre esses 21 anos que está em São Paulo, ele resume: “Medos, inseguranças, crises, conflitos, saudades, tropeços, quedas, obstáculos, dificuldades, problemas, mentiras, ilusões, lágrimas, decepções, nãos, muitos nãos por sinal, golpes, necessidades, doenças, culpas, choros, gritos, pânico e com tudo isso, a vontade de largar tudo, voltar, desistir… Mas, mesmo diante de todas essas situações, sentimentos e sensações, eu ainda estou aqui. Firme e forte. Recheado de sonhos, metas e objetivos. Não dá pra citar tudo, mas, nesses 21 anos de luta, desde que cheguei em SP, fiz várias peças de Teatro, consegui entrar na TV, fiz programas de auditório, gravei diversas publicidades e propagandas, consegui gravar séries e novelas, fiz cinema, enfim, as coisas estão acontecendo, degrau por degrau, passo a passo”, ressalta.

Mesmo já consolidado em superproduções, Toniazzi não esquece das origens: “Sou gaúcho com muito orgulho. As minhas origens, as minhas raízes e as minhas tradições, são o que me dão força para estar conquistando lugares que eu nunca imaginei nem nos meus melhores e maiores sonhos. Valorizarmos quem a gente é e de onde é, faz toda diferença para nunca esquecermos do nosso berço, da nossa essência. Obrigado a todo o povo da minha amada Bento Gonçalves e do meu amado Rio Grande do Sul, que sempre torceu por mim”, salienta.

Agora com o término de “Paulo, O Apóstolo”, o ator está focado em dar aulas de teatro. “Sou também professor de Artes Cênicas e Diretor Artístico. Em setembro formo uma turma de estudantes de teatro e até o final do ano, mais duas. Dou aula na DMCTV, produtora de dramaturgia e audiovisual em SP. E também, pela mesma produtora, em outubro, vamos estreiar o espetáculo “O Vermelho e O Negro”, inspirado na obra de Stendhal, onde vou dirigir e atuar. Para a TV e Cinema, estou no aguardo de convites para as próximas produções, porém, já tenho um novo sonho, estar em Ben-Hur, que é a próxima superprodução da Record”, pondera.

Teatro para falar da vida real

Enquanto Toniazzi vive papéis históricos, Thais Pegoraro aposta na dramaturgia autoral para retratar a cultura e a sociedade bento-gonçalvense. Em “Una Visita Inaspettata”, a atriz interpreta Dona Rosa, uma senhora de 80 anos que vive sozinha no interior da cidade. É um espetáculo teatral inspirado na cultura italiana da região de Bento Gonçalves, retratando o cotidiano dessa mulher de uma comunidade rural. “Ela é uma personagem que, além de trazer os elementos da cultura italiana, fala da solidão, da importância da rede de apoio, da sabedoria das nonas. É um espetáculo que une humor, música, culinária e reflexão sobre o papel da pessoa idosa na sociedade”, conta Thais

A peça já circulou por quatro escolas do município. “Levamos o teatro até as crianças, junto com suco de uva e biscoito colonial, como se fossem feitos pela própria Nona. Queremos que as novas gerações experimentem o teatro de forma viva, por isso buscamos uma segunda edição”, destaca.

Seu início na arte

O começo da relação de Thais com a atuação se deu ainda na infância. “Sempre quis ser artista, encenava histórias de livros desde pequena. Fazia engenharia química, mas por fora fazia dança e praticava. Não tinha coragem de assumir enquanto profissão, mas fui cursar teatro”, relembra.

Para ela, o maior desafio foi se encontrar enquanto palhaça. “A gente volta para nossa essência, do eu criança. O desafiador foi deixar essa criança retornar e estar sempre junto de mim na atuação”, pontua.
Mas a atriz também reflete sobre os desafios de viver de arte no Brasil: “Ser artista no país hoje é um desafio, seja em qualquer área. Eu acho que a profissão de atriz é ainda mais complicada; e digo no feminino mesmo, porque para além da profissão, da atuação, é um desafio ser mulher. Há muito forte essa ideia de condenação da atriz, no sentido de que se você não é famosa, você não é profissional. E é sempre essa associação a novelas e séries. Então, se você nunca participou de uma série, de uma novela, às vezes você não é considerada. Viver de teatro no Brasil hoje é um desafio muito grande. É difícil ter estabilidade nesta profissão”, ressalta.

Thais Pegoraro se encontrou na palhaçaria

Segundo a atriz, a educação pode trazer mais reconhecimento para a profissão de artista. “Investir numa educação que incentive as pessoas à irem ao teatro, possibilitar a chegada do teatro até as pessoas. Além disso, incentivar e consumir a cultura local é importante, contratar para os eventos e patrocinar o talento da região”, afirma.

Para o futuro, Thais destaca dois monólogos em produção. “São dois espetáculos de cultura italiana e gaúcha, além de projetos na área da palhaçaria. O sonho é sempre poder proporcionar o melhor da gente tendo em vista o apoio que recebemos em todos os âmbitos”, finaliza.

Da infância ao palco

Já para Marina Martins, a trajetória começou cedo, ainda na infância em Porto Alegre, quando o teatro fazia parte da rotina escolar. “Com oito anos fiz meu primeiro papel em O Pequeno Príncipe. Foi mágico. Morando em Bento comecei a fazer aulas de teatro, me sentia livre, motivada e cada vez fui me envolvendo mais com as artes cênicas. Fiz curso de teatro dos 12 aos 16, trabalhei em esquetes cômicas no passeio de Maria Fumaça por sete anos e acabei entrando na faculdade de teatro, Licenciatura na UERGS. Me encontrei neste universo e nunca mais saí, vi como possibilidade de profissão e segui me especializando nisso”, afirma.

Marina conta a sua rotina de preparação para um personagem. “O trabalho de atriz exige bastante condicionamento físico, cuidado com a voz, treinamento de técnicas, ensaios constantes. Além de sempre estar participando de cursos e oficinas para aprimorar meu trabalho e estar em constante movimento e atualização. Teatro é vivo e precisa de movimento”, revela.

Marina Martins desenvolve diversos projetos

Os maiores desafios para ela são a falta de tempo livre, noites, finais de semana, feriados e férias são os momentos de maior demanda de trabalho e a estabilidade. “Dar aulas traz um cenário financeiro mais estável, já para exercer meu papel de atriz preciso me dedicar a escrita e execução de projetos culturais e buscar apoio nas leis de incentivo e fomento à cultura. Além da invisibilidade de todo processo criativo e funções que não estão em cena. Ser atriz é ser também figurinista, cenógrafa, iluminadora, sonoplasta, contrarregra, carregadora, motorista, roteirista, professora e por aí vai”, afirma.

Além disso, conforme ela, a cena teatral em Bento anda bastante enfraquecida. “A cidade carece de formação de plateia, de espaço equipado, manutenção e divulgação. É sempre desafiador e um trabalho de formiguinha conseguir um público significativo sem parcerias com órgãos do município, escolas ou grupos de melhor idade. Recentemente temos nos unido como produtores culturais e artistas em Bento para discutir assuntos pertinentes e buscar melhorar as aplicações e escritas de editais e da legislação. Teatro é coletivo e cultura também, entender que não é uma competição, mas que há espaço para todos e trabalharmos em conjunto e com apoio torna fazer cultura mais leve e bem aproveitado”, salienta.
Descobrir a linguagem da palhaçaria feminina e desenvolver a figura de sua palhaça, a Roseta Margarida foi também marcante para ela. “É um mundo de possibilidades, de permissões, de autoconhecimento e de liberdade sem limites”, garante.

Sobre os próximos projetos e sonhos, ela afirma que está buscando produzir mais, adentrar novos horizontes como o do audiovisual. “Me especializar ainda mais na palhaçaria feminina também, fazer circulações de espetáculo nacionais e, como grande sonho, internacionais. Poder viver tranquilamente do que amo e estudo tanto”, frisa.

Assim como Thais e Toniazzi, Marina também reforça a importância da valorização da cultura local e dá dicas para quem quer seguir a profissão. “Sigam seus sonhos, enfrentem as dificuldades, saibam que sempre haverá alguém dando a mão e mostrando o caminho. Tropeçar e muito faz parte, a gente ouve muito mais não do que sim, quem faz teatro incomoda, questiona, aponta e não se cala. E mesmo quem não quer ser ator ou atriz, ou mesmo trabalhar na área artística, assistir teatro e fazer aulas é uma porta aberta para a criatividade, desinibição, autoconhecimento e novos horizontes”, conclui.

Seja nas telas nacionais, nas escolas da cidade ou em espetáculos autorais, os três artistas compartilham a mesma certeza: a arte transforma e precisa ser cultivada. “Querer é fazer. Se for para desistir, desista de desistir”, finaliza Toniazzi.