O mês de outubro também é marcado pelo Outubro Verde, campanha voltada à conscientização, prevenção e combate à sífilis, uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) que ainda representa um importante desafio para a saúde pública. A iniciativa busca alertar a população sobre a importância do diagnóstico precoce, do tratamento adequado e da adoção de práticas seguras para prevenir o contágio.
De acordo com Lessandra Michelin, médica infectologista, professora infectologia e pediatria UCS/RS, líder médica de vacinas GSK, os marcos de conscientização são importantes. “O Outubro Verde é um desses momentos para aumentar a conscientização e promover ações para a prevenção das ISTs. A população precisa saber o risco que corre e qual a melhor forma de tratar e prevenir”, observa.

Estágios da sífilis
A sífilis é uma IST causada pela bactéria Treponema pallidum e se manifesta em diferentes estágios, cada um com características específicas e níveis distintos de gravidade. A doença evolui de forma lenta e silenciosa, podendo permanecer sem sintomas por longos períodos, o que torna o diagnóstico precoce essencial para evitar complicações sérias e a transmissão para outras pessoas.
Segundo Lessandra, a doença apresenta diferentes estágios, sendo eles:

  • Sífilis primária: ferida, geralmente única, no local de entrada da bactéria (vulva, vagina, pênis, colo uterino, ânus, boca ou em outro local da pele), que aparece entre 10 e 90 dias após o contágio. Normalmente não dói, não coça, não arde e não tem pus, podendo estar acompanhada de ínguas (caroços) na virilha.
  • Sífilis secundária: os sinais e sintomas aparecem entre 6 semanas e 6 meses após o aparecimento e cicatrização da ferida inicial. Pode ocorrer manchas no corpo, que geralmente não coçam, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés. Pode ocorrer febre, mal-estar, dor de cabeça e ínguas pelo corpo.
    Sífilis latente: fase assintomática (não apresenta sinais e/ou sintomas). É dividida em sífilis latente recente (até um ano de infecção) e sífilis latente tardia (mais de um ano de infecção). O diagnóstico é feito em exames de rotina (ao acaso).
  • Sífilis terciária: pode surgir de 2 a 40 anos depois do início da infecção. Costuma apresentar sintomas como lesões de pele, ósseas, cardíacas ou neurológicas, sendo muito grave e podendo necessitar de hospitalização.

Diferenciar de outras ISTs
A sífilis é uma das ISTs mais antigas e, ao mesmo tempo, uma das que mais se confundem com outras infecções devido à variedade de sintomas que apresenta ao longo dos seus estágios. Sobre isso, a biotecnóloga explica: “Para detectar sífilis e outras ISTs há necessidade de um bom exame clínico e alguns testes laboratoriais para confirmar. Cada doença tem um teste específico”.

Tratamento
O tratamento da sífilis é simples, eficaz e gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “O medicamento utilizado é o antibiótico penicilina benzatina (Benzetacil) e a dosagem varia conforme o estágio do paciente. Essa opção é segura e eficiente também para gestantes. Alguns pacientes podem fazer internados Penicilina ou Ceftriaxona dependendo do caso”, esclarece Lessandra.

Lessandra Michelin, médica infectologista

Transmissão
A principal transmissão da doença é por via sexual. “Ela ocorre no contato com as lesões, que são indolores e podem passar despercebidas. O uso de preservativo, tanto o masculino quanto o feminino, protege contra a sífilis, o HIV e outras ISTs”, explica a especialista.
Pode acontecer também a sífilis congênita, ou seja, de mãe para bebê. “Gestantes e parceiros sexuais devem fazer o teste rápido, disponível no SUS”, orienta a especialista.

Redução de transmissão
Lessandra afirma que muitos desafios são enfrentados para conseguir reduzir a taxa de transmissão de sífilis, a saber:

  • A ausência de programas consistentes de educação sexual nas escolas dificulta o acesso dos jovens a informações sobre prevenção, uso de preservativos e cuidados com a saúde sexual;
  • Barreiras geográficas, sociais e econômicas dificultam o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento, especialmente em regiões mais afastadas ou vulneráveis;
  • O medo de julgamento impede muitas pessoas de buscar ajuda médica ou realizar testes de ISTs;
  • Grupos como LGBTQIA+ e profissionais do sexo enfrentam discriminação que dificulta o acesso a serviços adequados.
    A especialista explica que a prevenção correta envolve mais do que usar camisinha: inclui testagem regular, diálogo aberto com parceiros, vacinação (como contra o HPV e hepatite B) e acesso à informação confiável. É um ato de cuidado consigo mesmo e com os outros.

Bento Gonçalves
De acordo com Adriana Mª Cirolini, enfermeira e coordenadora do Serviço de Atendimento Especializado e Centro de Testagem e Aconselhamento (SAE/CTA), todas as unidades de saúde do município oferecem testes rápidos. “É importante ir até sua unidade mais próxima da sua casa e informar-se”, orienta.
Adriana conta que, em Bento Gonçalves, conforme dados da vigilância epidemiológica, o número de casos de sífilis em adultos, gestantes e congênita, notificados no período de 2023 a setembro de 2025, soma 907 casos. “As gestantes com sífilis somam 153 casos, correspondendo a 16,86% das notificações, neste mesmo período”, explica.
Para a coordenadora, a preocupação está também nos casos de sífilis congênita, pois a transmissão da doença da mãe para o bebê requer hospitalização de 10 dias. “Neste mesmo período, foram notificados 78 casos”, informa.
A coordenadora ainda destaca a importância de informar corretamente a população do município. “Pois, mesmo com as ações de prevenção e promoção à saúde, os números mantêm-se lineares desde 2018”, afirma, preocupada.
Adriana destaca a importância do diálogo entre o profissional de saúde e o paciente durante o atendimento. “Esse momento é uma oportunidade essencial para o esclarecimento de dúvidas e para a orientação sobre as formas de transmissão das ISTs”, esclarece.
Além disso, a coordenadora dá ênfase à promoção, pelo município, de ações educativas e à oferta de testes rápidos em atividades extramuros, como na Via Del Vino e em outros espaços públicos, conforme a demanda e a organização de eventos voltados à saúde. Essas iniciativas ampliam o acesso da população aos serviços, aproximando a comunidade das práticas de prevenção.
Nos serviços de saúde, também é constante a entrega de materiais informativos, que auxiliam na disseminação de conhecimento sobre as ISTs e incentivam o autocuidado. A distribuição desses conteúdos reforça o compromisso das equipes em garantir informação de qualidade e em estimular a adoção de hábitos de prevenção.
A enfermeira explica que o acompanhamento durante o pré-natal é fundamental para o diagnóstico e o tratamento precoce da sífilis, garantindo a saúde da gestante e do bebê. “O diagnóstico de sífilis em gestante é feito no próprio local de realização do pré-natal. É importante lembrar que o(a) parceiro(a) é convocado(a) para realizar os exames e também recebe tratamento. Como já dito, o profissional de saúde tem a oportunidade de orientar e esclarecer dúvidas sobre a sífilis e, com o tratamento adequado do casal, evitar a sífilis congênita”, finaliza.