A proibição do glitter feito de polipropileno micronizado impõe uma mudança imediata nas práticas de fabricação e decoração de alimentos
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em uma decisão de caráter preventivo, determina que plásticos, incluindo o polipropileno (PP) micronizado, não estão autorizados para uso intencional como componentes em produtos alimentares. A medida visa proteger a saúde pública, retirando de circulação o que se configura como um risco à segurança do consumidor.
A nutricionista Julia Severgnini reforça a seriedade do comunicado. Segundo ela, a justificativa regulatória é clara: “Esses materiais não são ingredientes alimentares autorizados e apresentam risco”, diz. A proibição, explica ela, baseia-se no princípio de proteger o consumidor, já que um insumo que não é ingrediente alimentar autorizado não deve ser aplicado diretamente sobre alimentos.
Os riscos do brilho não comestível

O cerne da preocupação reside nas partículas plásticas. A nutricionista explica que as evidências científicas, ainda que com incertezas na extrapolação direta para humanos, apontam para a possibilidade de que o material cause irritação local, estresse oxidativo e alterações imunológicas. Além disso, as partículas plásticas atuam como vetores de substâncias químicas, como aditivos e contaminantes adsorvidos (moléculas ou substâncias que aderiram à superfície de um sólido através do processo de adsorção). “Estudos recentes em modelos animais e celulares já demonstram sinais de toxicidade”, explica.
A detecção de microplásticos não é apenas uma teoria; eles já foram encontrados em fezes e no sangue de humanos em algumas pesquisas, e até mesmo em placentas, o que mostra exposição e passagem para o corpo, observa Julia.
A incerteza, porém, é maior no que tange aos efeitos crônicos e à acumulação em órgãos, devido à grande variação nos métodos de detecção e ao caráter ter experimental dos estudos, ainda realizados em animais ou celulas. “Ainda faltam estudos prospectivos em humanos que mostrem acumulação em órgãos e associação causal com doenças em níveis de exposição humana típicos. Em resumo: evidências de exposição existem; sinais de acumulação e de consequências de longo prazo em humanos são sugestivas, mas ainda com elevado grau de incerteza metodológica”, pondera Julia, que ressalta ainda que as consequências de longo prazo ainda são sugestivas e apresenta um elevado grau de incerteza metodológica.
Grupos vulneráveis
A restrição imposta pela Anvisa ganha maior relevância ao se considerar a vulnerabilidade de certos grupos populacionais. A nutricionista elenca quem está sob maior risco:
•Crianças: “apresentam maior vulnerabilidade devido ao menor peso corporal, fases de desenvolvimento e maior ingestão relativa de alimentos e possíveis efeitos no desenvolvimento”, alerta.
•Gestantes e fetos: há estudos que detectaram microplásticos em placentas e apontam associações com desfechos adversos (ex.: alterações de peso ao nascer, idade gestacional), embora a evidência ainda seja inicial e com limitações metodológicas”, afirma a especialista.
•Pessoas com doenças digestivas ou imunológicas: “a inflamação intestinal pré-existente, a permeabilidade aumentada ou a imunossupressão podem, teoricamente, aumentar a sensibilidade aos efeitos inflamatórios das partículas ou modular as respostas imunológicas. A evidência direta em humanos é limitada, mas o perfil biológico sugere maior risco nesses grupos”, esclarece Julia.
O Mercado e a fiscalização
A nutricionista considera “provável que o comunicado da Anvisa gere maior fiscalização e revisão de insumos decorativos alimentares, rotulagem e certificação de ‘comestível’”. Para Julia o caminho é trocar o glitter por produtos mais confiáveis como folha de arroz/wafer paper (papel de arroz comestível), papel de impressão comestível, imagens em fondant, cobertura e corantes alimentares aprovados.
Práticas recomendadas

•Fornecedores Confiáveis: Trabalhar com parceiros que forneçam ficha técnica e certificado de que o produto é destinado a uso alimentício.
•Rotulagem e Armazenamento: Manter rótulos claros sobre o que é comestível e o que não é, e armazenar separadamente materiais alimentares e não alimentares.
•Treinamento da Equipe: Todos os colaboradores devem saber identificar insumos não comestíveis e as consequências de seu uso indevido.
•Boas Práticas de Fabricação (BPF/GMP): Adoção de controle de matéria-prima, rastreabilidade, e manutenção de recibos e notas fiscais para demonstrar conformidade em fiscalizações.
•Comunicação ao Cliente: Informar claramente, no pedido ou na etiqueta, se a decoração é comestível ou apenas decorativa e removível.
A profissional destaca que essas medidas de segurança são aplicáveis tanto em grandes centros quanto em pequenas cidades. Para o consumidor, a orientação é clara: a regra de ouro é pedir sempre produtos e decorações rotuladas como “comestíveis”, evitando qualquer brilho ou pó não identificado. “Algumas marcas vendem glitters que são especificamente formulados e rotulados como comestíveis, mas é crucial verificar ingredientes e certificações para não confundir com glitters cosméticos ou para artesanato”, finaliza.