Campanha mobiliza profissionais e voluntários em Bento Gonçalves para conscientizar famílias e ampliar as chances de cura
Este mês é marcado pela campanha do Setembro Dourado, que busca conscientizar a população sobre o câncer infantojuvenil. Em Bento Gonçalves, médicos, voluntários e instituições têm se mobilizado para alertar sobre a importância do diagnóstico precoce e do acolhimento às famílias.
A médica Angela Cagol explica que a iniciativa tornou-se essencial para salvar vidas. “O setembro dourado se tornou uma ferramenta importantíssima na conscientização do diagnóstico precoce do câncer infanto juvenil. Serve de alerta não só para profissionais da área da saúde, como também para pais e cuidadores”, diz.
Sinais de alerta que exigem atenção
Segundo a especialista, identificar os sintomas ainda é um dos maiores desafios. “O diagnóstico precoce do câncer infantil é uma grande dificuldade, pois os sinais e sintomas muitas vezes são inespecíficos e podem ser confundidos com doenças comuns da infância. No entanto, existem alguns sinais de alerta que merecem atenção, especialmente quando são persistentes, recorrentes ou sem explicação aparente”, evidencia.

Entre os principais sintomas, ela destaca palidez inexplicada, cansaço e fraqueza; febre prolongada e sem causa definida; perda de peso; dores ósseas; aumento de ínguas; manchas roxas ou sangramento; dores de cabeça especialmente de manhã e/ou vômitos; estrabismo repentino; aumento do volume da barriga; puberdade precoce; convulsões.
Prevenção e diagnóstico precoce
Diferente do câncer em adultos, o infantil geralmente não está ligado a fatores ambientais. “O câncer infantil, diferentemente do câncer em adultos, geralmente não está relacionado a fatores ambientais ou de estilo de vida e, por isso, na maioria dos casos não é possível preveni-lo. Ele costuma ter origem em alterações genéticas espontâneas durante o desenvolvimento da criança, muitas vezes sem causa conhecida”, pontua.
Ainda assim, algumas medidas podem contribuir, como “evitar exposição radioativa na gestação, amamentação, ambiente saudável, calendário vacinal em dia e manter consultas pediátricas em dia”, informa.
Chances de cura e avanços médicos
O diagnóstico precoce é determinante. “O foco está na detecção anterior e no tratamento imediato, que aumentam muito as chances de cura, mais de 70% em muitos casos, chegando a 90% em alguns tipos”, frisa.
Quanto aos tratamentos, a médica cita os mais comuns contra o câncer infantil. “Incluem quimioterapia, cirurgia, radioterapia, transplante de medula óssea e, mais recentemente, terapias-alvo e imunoterapia”, salienta.

Ela reforça os avanços recentes. “Hoje temos algumas tecnologias novas que podem garantir um tratamento promissor na cura do câncer infantil. São elas: testes genéticos avançados, incluindo acesso ao SUS; uso de terapias moleculares; terapias celulares e imunoterapia avançada e tratamentos cerebrais inovadores. Esses avanços refletem um movimento global em direção a tratamentos mais eficazes, menos tóxicos e altamente personalizados para crianças com câncer”, comenta.
Apoio emocional e social
O impacto do câncer vai além do físico. “Receber um diagnóstico da doença é devastador em qualquer idade, mas tem um agravante quando se trata de crianças. É muito difícil para a família entender o por que desta doença, como ela aconteceu e quem foram os culpados. Aos poucos, entretanto, a ficha vai caindo e essas famílias passam a lutar de forma incansável para garantir a cura desta doença em seus filhos”, pondera a médica.
Por isso, o acolhimento é fundamental. “Trabalhar o emocional durante o tratamento do câncer infantil é essencial para garantir não apenas a eficácia do tratamento médico, mas também o bem-estar psicológico e social da criança e de sua família”, destaca a profissional.
O suporte psicológico também desempenha papel decisivo. “O apoio adequado reduz esses impactos e fortalece a resiliência emocional e social. Sem esse suporte, o sofrimento pode ser agravado, afetando a adesão ao tratamento e até os resultados clínicos”, salienta.
A realidade e progressos no Brasil
Apesar de avanços, ainda existem desigualdades regionais. “As taxas de sobrevida são maiores no Sul do Brasil (75%) e mais baixas no Norte (50%), o que evidencia disparidades regionais inaceitáveis. São necessários investimentos estruturais e capacitação profissional em regiões carentes para garantir acesso equitativo a diagnóstico precoce e tratamento de qualidade”, afirma.
Ela defende políticas públicas específicas. “É urgente que o câncer infantil seja tratado como uma prioridade por si só, com políticas e legislação específicas, garantindo foco, recursos e estratégias adequadas às suas peculiaridades”, reitera.
Mobilização em Bento Gonçalves
Além do trabalho médico, voluntários também atuam na causa. A psicopedagoga Susana Lodetti coordena um grupo que abraçou a campanha. “A gente não tem um nome, mas é um grupo que resolveu trabalhar em pró da conscientização do diagnóstico precoce. Comecei a convidar as pessoas por ter conhecido uma criança que passou pelo tratamento de câncer e, graças ao diagnóstico precoce, essa criança se curou hoje, é um adolescente”, ressalta.
Ela conta que a iniciativa cresceu com o apoio do Instituto do Câncer Infantil (ICI). “Ele que nos fornece os folders, os profissionais para orientar, para dar cursos, e ajudar as famílias que a gente conhece, ou que nos procuram e aí encaminhamos para o ICI”, destaca.
Ela reforça a importância de manter a mobilização. “Realmente, com um diagnóstico precoce, a chance de cura chega até 80% em todos os casos. Continuamos essa luta”, finaliza.