A Doença Renal Crônica (DRC) em crianças, muitas vezes silenciosa em seus estágios iniciais, representa um desafio significativo para a saúde pública e para as famílias

A Nefrologista Pediátrica, Alessandra Ruzzarin Blanco

Caracterizada pela perda gradual e irreversível da função dos rins, órgãos vitais para a filtragem do sangue e eliminação de toxinas, a DRC pode passar despercebida até que a falência renal esteja avançada. A Nefrologista Pediátrica, Alessandra Ruzzarin Blanco, reforça a necessidade de um olhar atento aos sinais e sintomas precoces, que podem ser a chave para um diagnóstico e tratamento eficazes.
Alessandra explica que os rins desempenham um papel crucial que vai além da filtragem, pois também interferem no controle da anemia, no metabolismo ósseo e na regulação da pressão arterial. “Muitas vezes, o paciente só descobre o problema renal quando existe uma falência total dos rins”, alerta.
Essa característica torna o diagnóstico precoce ainda mais desafiador, especialmente em crianças e adolescentes. Sinais como infecções urinárias de repetição, dificuldade no ganho de peso e/ou crescimento, anemia persistente, inchaço, problemas ósseos e dificuldade para urinar são indicativos importantes que demandam atenção imediata dos pais. “As causas da DRC em crianças são variadas. As anomalias congênitas do rim e do trato urinário (CAKUT) são as principais delas. Estas anomalias são um grupo de alterações estruturais ou funcionais que ocorrem durante a vida intrauterina e que podem ser detectadas antes, durante ou após o nascimento através de ecografia e outros exames de imagem”, explica a médica. Além das causas congênitas, a DRC pode ter origem hereditária, com histórico familiar da doença , ou ser adquirida, evoluindo para insuficiência renal se não tratada adequadamente, como é o caso das infecções urinárias de repetição. “Outros fatores de risco incluem prematuridade, exposição a fumo e álcool durante gestação, diabetes gestacional, hipertensão arterial, obesidade e diabetes infantil”, complementa.
Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a DRC afete cerca de 10% da população, com crianças sendo menos atingidas que adultos, embora a incidência varie devido às dificuldades de diagnóstico. “A analise dos atendimentos de pessoas com diagnostico de DRC no período de 2019 a 2023, apresentam uma tendência de aumento progressivo ao longo dos anos no Brasil, em especial no Sudeste e Sul, atingindo seu auge em 2023. Essa propensão, pode estar ligada à melhoria do acesso aos serviços de saúde, maior cobertura, avanço no diagnóstico precoce e aprimoramento no registro de prontuários”, explica.

Diagnóstico
A detecção precoce da doença é possível por meio de alterações em exames de sangue e urina, como a presença de proteína e sangue urinário. O exame de creatinina sérica é o mais comum para avaliar a função renal. “Por outro lado, a prevenção da DRC pode, muitas vezes, ser iniciada através de uma simples ecografia obstétrica, que já nos dá uma ideia se existe alguma malformação do aparelho urinário”, ressalta Alessandra. Caso uma malformação seja constatada, o encaminhamento imediato a um serviço de nefrologia pediátrica é crucial. “Quanto antes essa criança for avaliada, maiores são as chances de evitar que a doença renal progrida”, afirma a especialista.

Tratamento


O tratamento da DRC varia de acordo com o estágio da doença. Nos primeiros estágios, o foco é o controle de infecções, pressão arterial e perda de proteína, geralmente com acompanhamento de um nefrologista pediátrico, medicação e orientação nutricional. Quando a função renal diminui para menos de 10% a 15% da capacidade, tornam-se necessários tratamentos substitutivos, como a diálise peritoneal, hemodiálise ou transplante renal. A diálise é um processo que substitui a função renal, filtrando toxinas e excesso de líquidos do sangue. “Felizmente, apenas uma pequena parcela de crianças e adolescentes evolui para essa condição”, complementa. “Nesse período, é fundamental educar a família e a criança sobre a doença, enfatizando fatores de risco que podem agravar a disfunção renal, como drogas nefrotóxicas, infecções recorrentes,desidratação, obesidade e tabagismo em adolescentes. Medidas que retardam a progressão da doença, como o controle da pressão arterial podem ser tomadas”, esclarece.
A DRC impõe um impacto significativo na vida das crianças. As restrições dietéticas e hídricas, tratamentos invasivos e complexos esquemas medicamentosos, além de hospitalizações, afetam o desempenho psicossocial, resultando em maior absenteísmo escolar. “Assim, percebe-se que o manejo desses pacientes pediátricos representa um desafio para a equipe de saúde, para os doentes e seus cuidadores. O melhor entendimento dessas relações constitui um passo importante na construção de uma assistência mais humanizada e eficaz com necessidade de um acompanhamento multidisciplinar”, comenta Alessandra.
O Rio Grande do Sul se destaca, ocupando o segundo lugar no país em número de transplantes renais pediátricos. Contudo, o tempo de espera pode acarretar consequências graves, como limitação do crescimento e desenvolvimento físico, psicológico e maturação sexual. “O transplante renal é considerado o tratamento mais eficaz para a DRC terminal, proporcionando melhor qualidade de vida em comparação à diálise, especialmente em crianças, ao favorecer o desenvolvimento neuropsicomotor, aumentar a sobrevida e reduzir despesas de saúde. No Brasil, a alocação de rins para transplante prioriza crianças e adolescentes em lista de espera, com base na Portaria nº 2.600 do Ministério da Saúde de outubro de 2009, do Ministério da saúde, a qual considera que os rins de doadores com idade menor de 18 anos devem ser alocados preferencialmente a crianças com a mesma faixa etária, priorizando crianças e adolescentes em lista de espera”, explica.
Após o transplante, as taxas de sobrevida do enxerto renal e do paciente em cinco anos são animadoras, aproximadamente 86,3% e 90,2%, respectivamente. “Por se tratar de um processo demorado, e, até que se concretize, a alternativa para manter a vida está no tratamento dialítico contínuo”, explica a nefrologista.

Recomendações
Alessandra alerta que diante deste cenário, a principal recomendação para os pais é manter-se vigilantes a qualquer sinal de irregularidade e escutar as queixas dos filhos, garantindo consultas regulares para evitar diagnósticos tardios. Além do reconhecer os sinais de alerta e identificação de grupos de maior risco, a implementação de medidas preventivas é fundamental para a saúde renal infantil. Monitorar e controlar a pressão arterial desde cedo, evitar o uso indiscriminado de anti-inflamatórios não hormonais (como o ibuprofeno), manter um peso saudável com alimentação equilibrada e incentivar a prática de atividades físicas são atitudes essenciais para prevenir problemas renais ao longo da vida. “O cuidado com os rins começa com atitudes simples no dia a dia. Vamos prevenir, educar e cuidar!”, incentiva a médica. Assim como em adultos, as doenças renais em crianças são frequentemente sutis, com poucos sintomas específicos. Portanto, a atenção dos pais a qualquer sintoma e a busca por um nefropediatra para avaliar possíveis alterações renais são cruciais para evitar complicações futuras. “Muitas doenças renais têm cura com o tratamento e isso faz com que a falência renal seja evitada. Uma simples ecografia obstétrica ou um exame de urina e sangue pode mudar o desfecho de uma vida inteira”, conclui a especialista.