Eu queria poder criar meu filho como fui criada. Com simplicidade, cheiro de fritura no ar e gargalhadas que ecoavam da cozinha. Na época da escola, aniversário era quase um ritual de família: a mãe fritava os salgadinhos, o pai buscava o refrigerante de garrafa de vidro, e a criança – eu, no caso – ficava encarregada de enrolar os docinhos, com a língua de fora e os dedos melados de margarina. Tudo acontecia entre panelas e toalhas floridas, cercados por avós, tios e vizinhos, naquele entra e sai de casa que só quem viveu sabe o calor humano que tinha. As festas aconteciam em cozinhas apertadas, porões improvisados, garagens com cheiro de gasolina e amor. Às vezes, uma festinha na escola bastava: um bolo simples, um presente de anjinho pra colocar na cômoda do quarto, o coração acelerado na espera pelos amigos. E, claro, os refris de garrafa divididos entre risadas e correria no pátio.
Lembro até hoje da minha “grande festa” de 5 anos. Pela primeira vez, meus pais resolveram caprichar: o evento seria na casa de um amigo deles, lá no Capelesso. Eu teria uma roupa bonita! Mas, enquanto esperava a hora de brilhar, fui brincar de esconde-esconde com os filhos dele. Enfiei-me dentro de um tonel de areia da construção. Saí de lá uma obra-prima repleta de areia e fui pra festa com um conjunto laranja neon que sobrou de reserva na mochila. Todas as meninas de vestido, laço no cabelo e eu? Parecia ter saído direto de uma obra da prefeitura. E quer saber? Foi uma das festas mais felizes da minha vida.
Naquele tempo, não existia parque indoor, nem lembrancinha personalizada com tag dourada. Existia criatividade. Existia infância. E ninguém precisava fazer empréstimo pra comemorar um aniversário.
Hoje, parece que festa infantil virou casamento. Tem vestido sob medida, buffet gourmet, penteado de salão, fotógrafo profissional e até banda tocando. O que antes era uma reunião de afeto virou um espetáculo de status. Todo mundo tentando provar que sua festa é a mais “instagramável”.
Mas, no fundo, o que a gente quer mesmo é ter gente de verdade ao redor. Amigo que aparece, que abraça, que ri alto e come sem cerimônia. Queremos celebrar a vida, não o feed.
O tempo passou e, às vezes, parece que junto dele a gente perdeu um pouco da essência. Deixamos de lado o improviso, o barulho da panela de pressão, o cheiro do molho de cachorro-quente e o guardanapo colorido duro que levávamos à mesa. A pressa de registrar tudo fez a gente esquecer de viver o momento. E o que não aparece na foto é justamente o que mais importa: o cheiro do bolo assando, o sorriso torto de quem ajudou, o afeto derramado em cada detalhe que não custava nada — mas valia tudo. Talvez esteja na hora de começarmos um movimento de volta à simplicidade. De pegar na colher de pau, enrolar brigadeiro brigando com o filho pra ele parar de comer o granulado antes da hora. De mandar convites escritos à mão, de usar chapeuzinho colorido e cantar parabéns desafinado concluindo com um “com quem será?”.
Porque, no fim das contas, a vida é essa festa que acontece no improviso. E, quem sabe, no próximo ano, alguns convidados já não possam mais estar presentes. Então que seja hoje, simples, verdadeiro e cheio de amor — como os brigadeiros de latinha que um dia a gente enrolou junto da mãe.