Reconstruída após as cheias, cidade se orgulha da saúde e da educação, mas luta para gerar empregos e segurar a juventude
Santa Tereza é um município do Rio Grande do Sul, fundado em 20 de março de 1992, quando se emancipou de Bento Gonçalves. Sua colonização remonta a 1885, com imigrantes italianos e depois poloneses, que se estabeleceram às margens do rio Taquari e do arroio Marrecão. O nome foi dado em homenagem a Tereza, esposa do engenheiro-colonizador Joaquim Rodrigues Antunes. O município tem área de aproximadamente 73,67 km² e, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, de 2022, cerca de 1.500 habitantes.
Nos últimos anos, Santa Tereza foi gravemente afetada por fortes enchentes, especialmente entre 2023 e 2024, incluindo uma cheia histórica no rio Taquari, considerada uma das piores dos últimos 150 anos. Recentemente, o município recebeu repasse federal de R$5,4 milhões para ações de recuperação.
No município, moradores e empreendedores revelam uma cidade marcada por bons índices em saúde, educação e infraestrutura, mas que enfrenta desafios na geração de empregos, na segurança e na reconstrução após as enchentes. As falas mostram um sentimento de orgulho pelo município, mesclado a cobranças por melhorias que possam garantir qualidade de vida também para as próximas gerações.





Saúde e Educação como pilares
A saúde pública é o setor mais lembrado positivamente. Débora Müller, proprietária do restaurante e moradora há seis anos, afirma não ter queixas. “Não tenho nenhuma reclamação do jeito que está, tá bom, e se melhorar, piora. Tanto saúde quanto educação, o que a prefeita pode fazer, ela faz. Ela dá a vida dela pela cidade”, afirma. Ela também destaca a agilidade nos exames, que costumam ser gratuitos ou ter custo simbólico, além do atendimento humanizado.
Para a empresária, é justamente essa qualidade que atrai os moradores. “Acho que é por isso que muita gente está vindo morar aqui, porque é uma cidade calma e não tem uma saúde e uma educação como a nossa em qualquer outro município”, avalia. Para Débora, o olhar da atual gestora também faz diferença: “A mulher tem outro olhar, outra visão”, resume.
Rosemeri Keller, sócia de uma padaria recém-inaugurada, compartilha da mesma percepção. “Quem reclama da saúde aqui está reclamando de barriga cheia. Eu era de Muçum, e lá é bem diferente. Desde que cheguei, vi que a saúde é maravilhosa, muito melhor do que em cidades vizinhas”, destaca.
A jovem Ana Clara Silva também reforça o orgulho pelos serviços públicos. Sua mãe, que convive há mais de 11 anos com um problema grave de rim, sempre recebeu suporte do município. “Sempre que ela precisou, teve medicamentos, consultas, exames. Eu também fui bem atendida e até minha filha, de um ano e nove meses, recebeu todo cuidado”, relata. Na educação, a jovem valoriza a dedicação dos professores e a proximidade das escolas com as famílias: “Além da parte pedagógica, trabalham valores para a vida, o que em cidades maiores é mais difícil de encontrar”, aponta.
Morador há quatro décadas, Euclides Beal reforça que os avanços são perceptíveis. “Agora a saúde está melhor, tem remédios. Essa área tem tudo”, resume. E mesmo após enfrentar enchentes, mantém firme o apego ao lugar: “Daqui eu não vou sair. Moro faz muito tempo, vou para onde?”, questiona.
Norberto Nunes também enaltece o setor: “A saúde está 100%. Até pelo município, é uma coisa de exagerar, tem que tirar o chapéu mesmo para ela. Tem que dar nota 100 para ela. A prefeita é uma pessoa muito boa”. Para Noeli Panizzi, de 62 anos, o cenário também é satisfatório: “Não dá para se queixar. Saúde, educação, segurança, tudo está bem”, diz.
Enchentes, perdas e reconstrução





Se por um lado os moradores elogiam os serviços básicos, por outro trazem lembranças dolorosas das enchentes. Débora relembra o impacto direto em sua vida: “Nas quatro enchentes fomos atingidos, em duas delas o bar ficou coberto. Mas a população se uniu muito, tivemos ajuda de fora e conseguimos seguir”, relata. Ela destaca que a união da comunidade foi determinante para a recuperação.
Rosemeri acompanhou o sofrimento de perto. Sua casa não foi atingida, mas o filho perdeu tudo em uma residência recém-construída. “Foi perda total. Ele não quis mais morar lá. Ficaram com medo depois de tudo o que aconteceu”, lamenta. Já Ana Clara, que mora no interior, lembra dos deslizamentos que isolaram sua família por 22 dias: “Não perdemos a casa, mas ficamos sem acesso às cidades maiores. Ainda assim, recebemos todo o suporte da prefeitura”, explica.
O impacto também atingiu moradores antigos, como Beal, cuja casa foi invadida pela água três vezes. “Claro que tivemos que sair. Depois voltamos, limpamos. Ainda estou morando ali”, conta. O mesmo apego ao território é demonstrado por Nunes, que mesmo não sendo diretamente atingido, destaca a gravidade dos episódios: “Graças a Deus não fomos atingidos, mas muita gente sofreu”, diz.
Em todos os relatos, a atuação da prefeita é mencionada como essencial para a recuperação. Débora avalia: “Se fosse outra pessoa no lugar dela, passando por tudo isso, a cidade não estaria assim. Graças a ela a cidade está de pé”, destaca. Ana Clara reforça: “Ela faz o que está ao alcance dela e já fez muita coisa. Foi um dos municípios que mais recebeu verbas e ajuda do governo”, aponta.
Segurança: elogios e cobranças
Embora a tranquilidade seja um dos atrativos de Santa Tereza, os relatos mostram que a segurança ainda é uma preocupação. Rosemeri observa a demora no policiamento noturno: “A cidade não é violenta, mas quando precisa chamar à noite, demora. Seria importante ter mais presença da polícia nesse horário”, afirma.
O morador Vencelino Zanetti, está há dez anos no município, traz um relato marcado pela insegurança. Ele conta viver próximo a um vizinho reincidente em crimes de tráfico de drogas. “Isso não te deixa tranquilo, a qualquer momento pode acontecer algo”, afirma. Segundo Zanetti, mesmo após procurar a Câmara de Vereadores e a Brigada Militar, não houve solução concreta. Apesar disso, reconhece os avanços da administração. “Na questão da infraestrutura, nota 10. A cidade está bem organizada, bem bonita, tiro o chapéu para a prefeita”, destaca. Para ele, a gestora também tem força política: “Se usar a cabeça, faz o sucessor com tranquilidade. É uma mulher impecável”, avalia.
Outros, como Nunes, destacam justamente o oposto, ressaltando a paz e a vida comunitária. “A segurança aqui, graças a Deus, está muito boa, é uma cidade calma”, resume.
Emprego e permanência dos jovens
A geração de empregos aparece como tema central nas falas. Rosemeri aponta que os jovens estão deixando o município. “A cidade está ficando com mais pessoas de idade. Os mais novos, quando não encontram trabalho, acabam indo embora. Trazer uma firma para cá seria essencial para fortalecer a economia e manter eles aqui”, avalia.
Ana Clara reforça essa percepção. “Se fosse por trabalho seria mais difícil ficar aqui. Muitas vezes precisamos nos deslocar para Bento, Caxias ou Garibaldi. A cidade tem saúde e educação muito boas, mas falta emprego para nós, jovens. Se viesse uma ou duas empresas, já faria diferença”, destaca. Mesmo assim, ela reconhece que a vida social local tem atrativos. “É uma cidade calma, não muito movimentada para bailes. Mas sempre acontecem festas e jantares, o que torna a vida aqui boa e tranquila”, afirma.
Noeli Panizzi, que viveu toda a vida em Santa Tereza, também vê a atração de empresas como prioridade. “Claro que a população é pequena e não é simples instalar indústrias aqui, mas seria importante, até para manter os jovens na cidade”, alega. Beal e Nunes concordam que o futuro da cidade depende desse investimento: “Seria bom que viesse uma empresa, uma fábrica para cá. Sei que a cidade é pequena e é difícil, mas de repente pode acontecer”, projeta Nunes.
Turismo e qualidade de vida
Outro setor lembrado pelos moradores é o turismo. Débora conta que, com o vídeo da queda da ponte, muitos visitantes chegaram à cidade para conhecer, especialmente nos fins de semana: “Quem vem de fora se apaixona pela cidade. A praça é o nosso cartão-postal, ficou muito bonita”, diz. Ana Clara também nota que a reconstrução atrai visitantes curiosos: “As pessoas ficam impressionadas, porque a cidade já está praticamente toda reconstruída. Agora o turismo está aumentando de novo”, afirma.
Além do turismo, os entrevistados ressaltam a qualidade de vida. A limpeza, a organização, os espaços públicos bem cuidados e a tranquilidade são aspectos valorizados. Nunes sintetiza o sentimento: “Santa Tereza é um bom lugar para viver. Claro que sempre tem algum problema, mas isso é normal”, destaca.
Zanetti, mesmo com preocupações pessoais quanto à segurança, também reforça a visão de uma cidade organizada e bem estruturada. Já Débora e Rosemeri lembram que, apesar das dificuldades enfrentadas pelas enchentes, a união da população e o esforço coletivo se transformaram em marcas da cidade.
Perspectivas
De forma unânime, os depoimentos mostram que os moradores reconhecem os esforços da atual administração, mas projetam para o futuro a necessidade de investimento em emprego e segurança. Enquanto saúde, educação e infraestrutura são vistas como conquistas sólidas, a permanência dos jovens e a atração de novas empresas aparecem como o próximo passo para garantir o desenvolvimento de Santa Tereza.
Para muitos, a cidade já oferece qualidade de vida superior à de municípios vizinhos, mas é preciso olhar para frente. Como resume Ana Clara: “O trabalho da prefeita foi objetivo, mas quem assumir depois precisa focar em fazer o município crescer cada vez mais”, conclui.