O número de casamentos civis voltou a crescer no Rio Grande do Sul em 2024, reforçando uma tendência de retomada nas uniões formais no Estado. Ao todo, foram registrados 36.615 casamentos, um aumento de 0,9% em relação a 2023, segundo dados da Pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado contrasta com a redução dos divórcios no mesmo período, que somaram 14.392 casos, queda de 2,4%, indicando um cenário de maior estabilidade nas relações conjugais.
Além do crescimento no número total de casamentos, os dados do IBGE também evidenciam mudanças importantes no perfil das uniões no Estado. O levantamento aponta que 449 casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram registrados em 2024, o segundo maior número da série histórica, ficando atrás apenas de 2023, quando foram contabilizados 450. O dado reforça a consolidação desse tipo de união no Rio Grande do Sul, que se mantém entre os estados com maior volume de registros no país.
Especialistas avaliam que fatores como a retomada econômica, a maior estabilidade no mercado de trabalho e a redução das restrições impostas durante os anos de pandemia contribuem para o aumento das formalizações. Após um período de incertezas e adiamentos, muitos casais voltaram a priorizar projetos de vida a longo prazo, o que se reflete diretamente nos números dos cartórios.
De acordo com a psicóloga e sexóloga Ronicléia Monteiro, esse movimento está diretamente associado a uma mudança na forma como as pessoas têm se relacionado e encarado o casamento. “A união deixou de ser uma obrigação social e passou a ser uma decisão mais consciente. No consultório, percebo que muitos casais chegam ao matrimônio após períodos maiores de convivência e reflexão. O maior acesso à informação e à terapia também tem contribuído para escolhas mais alinhadas aos valores e projetos de vida, o que impacta diretamente na redução dos divórcios”, menciona.
Maturidade emocional
A especialista também destaca que muitos casais têm chegado ao casamento com maior saúde emocional e preparo para a vida a dois. “Vejo casais que conversam previamente sobre temas que antes eram evitados, como expectativas, divisão de tarefas, finanças e sexualidade. A maturidade emocional aparece menos ligada à idade e mais à capacidade de lidar com frustrações, dialogar e assumir responsabilidades afetivas”, observa.
Para ela, o autoconhecimento tem se mostrado um dos principais fatores que influenciam essa decisão. “A terapia oferece um espaço para compreender padrões emocionais, histórias familiares e comportamentos repetitivos. Na prática clínica, percebo que pessoas com maior consciência emocional tendem a fazer escolhas mais responsáveis, permanecendo nas relações por decisão e compromisso, e não por medo, dependência ou pressão social”, explica Ronicléia.
A psicóloga avalia que a experiência em relacionamentos anteriores tem contribuído de forma significativa para a construção de vínculos mais sólidos nos casamentos atuais. “Pessoas que já viveram outros relacionamentos tendem a idealizar menos, comunicar-se melhor e compreender que o vínculo se constrói no cotidiano, com ajustes e diálogo constantes”, ressalta.
Comunicação
Ronicléia menciona que o diálogo é uma das principais diferenciações das relações duradouras. “Muitos casais têm aprendido a falar não apenas sobre problemas do dia a dia, mas sobre sentimentos, limites e expectativas. Isso reduz conflitos recorrentes e fortalece a conexão emocional”, destaca.
A psicóloga explica que a divisão das tarefas domésticas e das responsabilidades emocionais reduz sobrecargas e ressentimentos, especialmente em relação às mulheres. “Vejo muitos homens hoje mais participativos na vida familiar, o que favorece relações mais justas e colaborativas”, afirma.
Sexualidade
Ela observa que esse tema tem um papel fundamental na estabilidade conjugal. “No consultório, observo que casais que conseguem conversar abertamente sobre desejo, prazer e dificuldades criam mais intimidade emocional e sensação de parceria. O silêncio sobre a sexualidade, ao contrário, costuma gerar distanciamento e conflitos que se acumulam ao longo do tempo”, relata.
Desafios
Ela aponta que manter um relacionamento saudável ao longo dos anos tem se tornado um desafio cada vez maior diante das exigências da vida contemporânea. “Entre os principais, estão: o ritmo acelerado da vida moderna, o excesso de demandas profissionais, o cansaço emocional e a dificuldade de equilibrar individualidade e vida a dois. Além disso, a comparação constante estimulada pelas redes sociais pode gerar frustrações e afastamentos quando não há diálogo”, frisa.
Dicas
Ao abordar orientações práticas para a manutenção de relações duradouras, a especialista reforça a importância do autoconhecimento, da comunicação e do cuidado contínuo com o vínculo. “ Relações duradouras não anulam a individualidade, mas a respeitam. Manter interesses próprios, falar abertamente sobre desejos, inclusive sexuais, e buscar ajuda profissional quando necessário são atitudes que fortalecem o vínculo e favorecem relações mais saudáveis ao longo do tempo”, finaliza.