A indústria automobilística vive um momento de virada que está reescrevendo o manual de como nos movemos. Os carros de hoje são mais do que máquinas; são plataformas tecnológicas sofisticadas, onde a inovação é o novo motor. No coração dessa transformação, o avanço é triplo e decisivo: a eletrificação acelera a passos largos, com veículos elétricos e híbridos dominando os lançamentos e prometendo um futuro de emissões zero. Paralelamente, a Inteligência Artificial (IA) e os sofisticados Sistemas de Assistência ao Condutor (ADAS) estão tornando a experiência de dirigir mais segura e menos estressante, com recursos que vão do controle de cruzeiro adaptativo à frenagem autônoma de emergência. A terceira frente é a conectividade, transformando o interior dos veículos em cockpits digitais que integram o carro à nossa vida conectada. O resultado é uma revolução que dita o ritmo da mobilidade urbana e rodoviária, prometendo não apenas eficiência e sustentabilidade, mas uma redefinição completa da relação entre motorista e máquina.
De acordo com Vagner Grison coordenador dos cursos de Engenharia Mecânica e de Engenharia Automotiva na Universidade de Caxias do Sul (UCS), o principal ponto a ser destacado está na ampla mobilização da indústria de centros de pesquisa e de universidades estudando e desenvolvendo soluções relacionadas com a eletrificação automotiva.
Com isso, ele destaca o avanço em diversas frentes. “Baterias de nova geração (com maior autonomia e maior vida útil), tecnologias de carregamento mais rápidos, ampliação da infraestrutura para recarga, motores cada vez mais eficientes, desenvolvimento de materiais mais leves (quanto mais leve for um veículo, menos energia ele gasta). Investimentos na rede de fornecimento de energia elétrica (a diversificação das fontes de energia, como hídrica, solar, eólica, etc., além de todos os estudos para distribuir e disponibilizar a energia com maior eficiência, o que vem sendo chamado de smart grids)”, observa Grison.

Baterias
A indústria automotiva tem promovido uma mudança estratégica no coração dos veículos elétricos, migrando, em parte, das baterias de Níquel-Manganês-Cobalto (NMC) para as de Lítio-Ferro-Fosfato (LFP). Essa transição visava aumentar a segurança, reduzindo significativamente o risco de incêndios. No entanto, o avanço trouxe um dilema crucial. “Ganha-se de um lado (segurança), mas perde-se de outro”, afirma o professor, destacando que a maior adoção do lítio-ferro-fosfato impõe um impacto ambiental ampliado devido à intensificação da extração de lítio, uma mineração que levanta preocupações crescentes sobre o uso de água e a degradação de ecossistemas.
Para superar os atuais gargalos de sustentabilidade e desempenho, as pesquisas no setor seguem em ritmo acelerado em duas frentes principais. A primeira foca no desenvolvimento de baterias de estado sólido, que substituem os eletrólitos líquidos por materiais sólidos, prometendo maior densidade energética e, consequentemente, uma autonomia superior, especialmente com a incorporação de nanomateriais como o grafeno.
A segunda linha de inovação concentra-se em sistemas avançados de gerenciamento térmico. O professor explica que esses sistemas integram sensores, aparatos de refrigeração e softwares sofisticados, que podem ser auxiliados por inteligência artificial, para adaptação de parâmetros em tempo real, visando aumentar tanto a durabilidade quanto a vida útil do sistema durante os processos de carga e descarga. Tais avanços são cruciais para que a eletrificação da frota se consolide de forma eficiente e duradoura.

Brasil x outros países
A expansão da frota de veículos elétricos no Brasil coloca a infraestrutura de recarga em um patamar de debate urgente e complexo. A situação nacional, apesar dos avanços, revela um quadro de descompasso quando comparado a indicadores internacionais, mas surpreende em outros aspectos. “De acordo com a Agência de Energia Internacional (IEA), no mundo há 11 carros elétricos para cada ponto de recarga disponível. O Brasil tem cerca de 17 carros elétricos para cada ponto de recarga. Ainda que isso indique que a infraestrutura nacional seja pior do que a média mundial, o Brasil está melhor colocado do que seis países europeus (Alemanha, Islândia, Noruega, Portugal, Reino Unido e Suíça), além dos Estados Unidos, Austrália, Japão, Indonésia e Nova Zelândia”, revela. Esta avaliação do professor destaca que, na proporção de carregadores por veículo, o Brasil, embora precise melhorar, demonstra uma capilaridade inesperada em relação a mercados mais maduros.
No entanto, o otimismo gerado pela proporção de pontos de recarga é rapidamente ofuscado pelo indicador de capacidade de fornecimento de energia. O grande desafio brasileiro não é apenas a quantidade de pontos, mas a qualidade e a velocidade de recarga oferecidas. “Por outro lado, a potência disponível para carregamento de veículos elétricos coloca o Brasil na antepenúltima posição dentre os 30 países listados no rankink da IEA. Isso indica que o país precisa, investir na infraestrutura para dar conta da ampliação de veículos que requerem carregamento elétrico,” conclui o professor.
A baixa potência implica tempos de espera prolongados para os motoristas, fator que atua como um desincentivo direto à massificação dos elétricos. Especialistas alertam que, sem um investimento maciço em hardware de alta capacidade e na modernização da rede de distribuição, o Brasil corre o risco de frear sua própria transição para a mobilidade sustentável.

Rio Grande do Sul
O coordenador conta que o Estado tem 12 carros elétricos para cada ponto de recarga disponível. “Estando melhor colocado que a média nacional, 18, e muito próximo da média mundial, 11. Com base nos dados de 2024 da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), é possível observar que a Serra Gaúcha tem uma média de cinco veículos para cada ponto de recarga, o que nos coloca na 3ª posição dentre os 30 países listados no site da IEA”, pontua.

Carros híbridos
Em um cenário de transição energética, a ideia de que uma única tecnologia dominará o futuro da mobilidade está sendo desafiada pela necessidade de resiliência e adaptabilidade. A tendência aponta para um ecossistema diversificado, onde os carros híbridos desempenham um papel central, coexistindo com outras fontes de energia. “Carros híbridos são uma categoria que deverá coexistir com as demais: combustão de combustíveis fósseis (diesel e gasolina), combustão de combustíveis renováveis (etanol e biodiesel), combustão flex, elétricos, etc. A diversificação da fonte de energia para veículos é o maior trunfo pois ajuda a não sobrecarregar um sistema em específico”, defende o professor.
Segundo Grison, contam com motor a combustão e motor elétrico operando em conjunto para extrair a máxima eficiência de ambos. “Para isso, requerem um sistema de controle e integração mais complexo. Isso pode gerar custos mais elevados em manutenção.
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