Depois de atravessar a América do Sul e percorrer todos os estados brasileiros, Carina Furlanetto e João Paulo Mileski partem agora para o maior desafio da vida na estrada: sair de Bento Gonçalves rumo ao Alasca

O desejo de conhecer o mundo nunca foi um projeto distante ou abstrato para Carina Furlanetto e João Paulo Mileski. Ele nasceu de uma inquietação antiga, construída ao longo da vida pessoal e profissional de ambos, muito antes de se tornar uma decisão concreta. Jornalistas por formação, os dois sempre tiveram na curiosidade uma espécie de motor interno, algo que os impulsionava a observar, questionar e buscar compreender realidades distintas. “Acho que, como jornalistas, essa curiosidade de conhecer os lugares já fazia parte da gente. Esse desejo de conhecer o mundo ajudou, inclusive, a escolher a profissão”, afirma João.
O encontro entre os dois aconteceu justamente no ambiente de trabalho, quando atuavam como repórteres em veículos concorrentes. Foi ali que perceberam que compartilhavam não apenas a profissão, mas também uma visão semelhante sobre o mundo. “Quando a gente se conheceu trabalhando como repórter, juntou um pouco esse interesse em comum. Viagem sempre foi um interesse em comum”, recorda Carina. A afinidade cresceu a partir desse ponto, transformando-se, aos poucos, em um projeto de vida compartilhado.
Durante anos, a ideia de viajar ficou restrita ao imaginário. Como muitos, o casal idealizava um modelo tradicional: longos períodos na estrada, conforto, um veículo grande e totalmente equipado. “Fantasiamos por muito tempo com aquele modelo convencional de viagem, de ter um motorhome e tudo mais”, lembra João. No entanto, o passar do tempo trouxe uma reflexão decisiva: esperar pelas condições ideais poderia significar nunca sair. “Percebemos que talvez, quando tivesse condições financeiras para ter um motorhome de verdade, esse ímpeto de cair na estrada já não fosse o mesmo”, diz.
Foi assim que uma decisão simples, quase banal, mudou completamente o rumo da história. Um olhar para a garagem, um carro comum — um Renault Sandero — e uma pergunta direta: por que não agora? “Um belo dia a gente olhou para a garagem, viu o Sandero e pensou: por que não?”, relata João. Sem grandes planos mirabolantes, nasceu ali a primeira grande viagem.

O início da estrada e a travessia da América do Sul

A previsão é que o retorno ao Brasil ocorra em meados de 2028. Créditos: Crônicas na Bagagem


A primeira grande expedição levou Carina e João a atravessar a América do Sul ao longo de 421 dias. Foram aproximadamente 50 mil quilômetros percorridos, descendo até o extremo sul do continente e retornando ao Brasil pela Venezuela. À primeira vista, o Sandero parecia pequeno demais para uma viagem tão longa, mas a realidade da estrada mostrou outra coisa. “Olhando de fora, parece um veículo pequeno. Para uma viagem longa ele é pequeno, mas a gente descobriu na estrada que cabe absolutamente tudo o que a gente precisa”, afirma João.
Naquele primeiro momento, o carro não passou por grandes adaptações. Havia apenas uma bateria extra, instalada para recarregar equipamentos eletrônicos, e uma panela elétrica que permitia preparar refeições simples. A proposta inicial era combinar hospedagens colaborativas, por meio de plataformas como o Couchsurfing, com noites dormidas dentro do próprio veículo. “Quando não conseguia ficar na casa das pessoas, a gente dormia no carro mesmo, reclinava os bancos e dava um jeito”, conta Carina.
A viagem pela América do Sul foi marcada por descobertas constantes, não apenas geográficas, mas humanas. O casal teve contato com culturas diferentes, modos de vida distintos e uma diversidade que, muitas vezes, não aparece nos noticiários. Ao mesmo tempo, precisou lidar com imprevistos típicos de uma jornada longa: mudanças climáticas, estradas precárias e, em alguns momentos, questões políticas que interferiram diretamente no trajeto. “Teve fechamento de fronteira, protestos, situações em que a gente precisou esperar dias até poder seguir”, relembra João.

A pausa forçada e a retomada no Brasil
O retorno ao Brasil coincidiu com a chegada da pandemia de Covid-19, que impôs uma pausa abrupta ao estilo de vida itinerante do casal. Por um ano, Carina e João ficaram fora da estrada, reorganizando planos e repensando o futuro. Quando decidiram retomar a viagem, optaram por um novo desafio: conhecer todos os estados brasileiros.
A segunda grande expedição durou dois anos e meio e percorreu cerca de 84 mil quilômetros apenas dentro do Brasil. “Só no Brasil, a gente rodou muito mais do que na América do Sul inteira”, destaca João. O número, por si só, dá a dimensão do país e do desafio enfrentado. Durante esse período, o casal passou por todos os estados, sem repetir destinos, embora reconheçam que ainda assim muita coisa ficou de fora. “Acho que a vida inteira não seria suficiente para conhecer todo o Brasil”, afirma Carina.
Foi também nesse momento que surgiu a necessidade de adaptar o carro de forma mais estruturada. Com a pandemia, a hospedagem na casa de desconhecidos deixou de ser uma opção segura, e viver exclusivamente no carro passou a ser regra. Amigos do casal ajudaram na adaptação: os bancos traseiros foram retirados, baús foram instalados para armazenar roupas, alimentos e equipamentos, e um colchão terapêutico modular passou a ocupar o espaço interno. “É melhor do que o que a gente tem em casa”, brinca Carina.
Além disso, o veículo ganhou um bagageiro de teto, ampliando a capacidade de carga. Mesmo assim, o casal reforça que a lógica da viagem sempre foi levar apenas o essencial. “Cabe tudo o que a gente precisa, não necessariamente tudo o que a gente gostaria de levar”, explica Carina. Com o tempo, aprenderam a reduzir ainda mais o que carregavam. “Na viagem, às vezes, a gente vai se desfazendo de coisas. A gente percebe que tinha até mais do que precisava”, completa.

Os muitos Brasis descobertos pelo caminho

Carina e João já atravessaram a América do Sul e conheceram todos os estados brasileiros. Créditos: Crônicas na Bagagem


Viajar por todos os estados brasileiros revelou um país que Carina e João admitiam conhecer pouco, apesar da formação jornalística. “Voltamos a ser repórter por conta da nossa própria ignorância sobre o Brasil”, afirma João. Ao longo do trajeto, descobriram realidades completamente distintas, muitas vezes separadas por poucos quilômetros.
O contraste entre grandes metrópoles e pequenas cidades chamou especialmente a atenção do casal. “A gente passou pela maior cidade do país e por cidades com menos de mil habitantes”, relata Carina. Em alguns lugares, as pessoas dormiam com a porta destrancada; em outros, o medo fazia parte da rotina. “Não quer dizer que uma forma de viver seja melhor ou pior. São só formas diferentes”, reflete Carina.
Mesmo dentro do Rio Grande do Sul, estado de origem do casal, as diferenças culturais se mostraram profundas. Ao retornar pela região sul e pela Costa Doce, perceberam um estado muito diferente daquele que conheciam. “O Rio Grande do Sul tem várias faces. É muito diferente de região para região”, observa Carina.

Crônicas na Bagagem: escrever para compreender
Desde o início, Carina e João decidiram registrar a viagem por meio da escrita e da fotografia. Assim nasceu o projeto Crônicas na Bagagem, que se tornou não apenas um diário de bordo, mas também uma forma de compartilhar reflexões e experiências com o público. “A gente sempre gostou de escrever. Por isso escolheu contar a viagem em forma de textos”, explica Carina.
O primeiro livro, fruto da travessia pela América do Sul, tem um tom mais introspectivo, marcado por reflexões sobre a ruptura com a vida tradicional e a adaptação a um estilo de vida itinerante. Já o segundo, resultado da viagem pelo Brasil, assume um caráter mais próximo da reportagem. “A gente acabou contando muito mais sobre o que via, sobre as pessoas que encontrava, sobre os lugares”, diz João.
Além dos livros, o projeto se expandiu para outras frentes: venda de fotografias, produtos ligados à marca, guias digitais e conteúdos nas redes sociais. Aos poucos, a viagem deixou de ser apenas um projeto pessoal e passou a se tornar também uma fonte de renda. “A viagem acabou virando o nosso trabalho”, resume Carina.

Um estilo de vida, não férias permanentes

Na primeira viagem, pela América do Sul, o carro não era adaptado. Créditos: Eduarda Medina


Um dos equívocos mais comuns, segundo o casal, é imaginar que viver na estrada significa estar permanentemente de férias. “As pessoas imaginam como se a gente estivesse de férias o tempo todo, mas não é bem assim”, afirma João. Os custos, segundo eles, são semelhantes aos de uma vida fixa, variando principalmente conforme a quilometragem rodada e o consumo de combustível.
A base das despesas é simples: gasolina e alimentação. “Comida é mais ou menos o que a gente gastava em casa. Dá para comer arroz com ovo ou querer comer picanha todo dia”, diz Carina. A diferença está na escolha do ritmo e das prioridades. O casal costuma privilegiar atrações gratuitas e experiências fora do circuito turístico tradicional. “Às vezes, parar numa praça e observar o modo de vida das pessoas já é, para a gente, uma experiência de viagem”, explica João.

Aprendizados que ficam para além da estrada
Entre os muitos aprendizados acumulados ao longo dos anos, um dos principais foi a percepção de que é possível viver com muito menos. “A gente achava que o que levava era insuficiente, mas bastaram algumas semanas na estrada para perceber que tinha coisa demais”, conta João. Essa constatação levou a uma reflexão mais ampla sobre consumo, trabalho e qualidade de vida.
Outro aprendizado importante foi entender que não existe um único modelo correto de viver. “Existem várias formas de viver, e nenhuma é necessariamente melhor ou pior”, afirma Carina. Para o casal, tanto a vida convencional quanto a vida itinerante têm desafios e limitações. “Não é para todo mundo, assim como a vida tradicional também não é”, completa.

O próximo destino: deixar a estrada conduzir
A terceira grande viagem já está sendo desenhada e promete ser ainda mais longa: do extremo sul da América do Sul até o Alasca. A previsão é chegar ao destino em 2027 e retornar ao Brasil em 2028, mas o casal evita se prender a datas rígidas. “Uma viagem longa como essa é difícil de ter estimativa de prazos”, afirma João.
Mais do que alcançar um ponto específico no mapa, Carina e João reforçam que o objetivo é viver o percurso. “Mais do que um destino, a gente quer viver cada passo do caminho”, resume Carina. É essa filosofia que continua guiando o casal, agora novamente com o carro preparado, as bandeiras no teto e a certeza de que, independentemente do destino final, a estrada ainda tem muito a ensinar.