Com a chegada da primavera, os dias ficam mais longos, as temperaturas começam a se elevar e a natureza ganha novas cores com o florescimento típico da estação. Mas, junto com as mudanças no cenário, também surgem alterações que impactam diretamente a vida das pessoas. O aumento da concentração de pólen no ar e as variações climáticas podem trazer desafios para o sistema respiratório, enquanto a maior exposição ao sol e o ambiente mais colorido influenciam a saúde mental e o bem-estar. Além disso, os efeitos do clima tornam esse período marcado por contrastes, exigindo atenção redobrada tanto da população quanto dos especialistas em saúde.
De acordo com Gisele Cemin, professora e pesquisadora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a primavera se inicia em setembro e se estende até dezembro, marcando a transição do inverno para o verão. “No Brasil, especialmente na região intertropical, situada entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, as diferenças entre as estações são menos marcantes, já que as temperaturas permanecem elevadas ao longo do ano. Por isso, a principal mudança está no retorno das chuvas, que aliviam a seca e a baixa umidade típicas do inverno no Centro-Oeste. É também o período de florescimento de muitas espécies nativas, renovando a paisagem”, explica.
No Rio Grande do Sul, por estar localizado em uma região de clima temperado, a primavera traz uma elevação gradual das temperaturas, mas ainda pode registrar a presença de massas de ar frio e geadas tardias em setembro. “É um período chuvoso, com ocorrência de temporais, ventos fortes e até granizo”, acrescenta.

Serra Gaúcha
Na Serra, a chegada da primavera transforma a paisagem. “Isso se dá em função dos dias mais longos e do aumento das temperaturas, que promovem a quebra de dormência das videiras, iniciando o brotamento e o ciclo vegetativo que dará origem à próxima safra de uvas”, ressalta Gisele.
Além das uvas, outras frutíferas, como pêssego, ameixa e maçã, entram em fase de crescimento. “Espécies como ipês, principalmente o amarelo, pitangueiras e manacás também florescem, deixando ruas e praças mais coloridas. Já as laranjeiras e bergamoteiras perfumam o ar, enquanto as hortênsias começam a se abrir, preparando o espetáculo de cores que atinge o auge no início do verão, reforçando a identidade turística da região”, completa.

Espécies tóxicas
A docente lembra que, junto às frutíferas, também florescem espécies alergênicas. “Como o ligustro (espécie exótica) e outras plantas que liberam grande quantidade de pólen, aumentando os casos de rinite e alergias respiratórias na população”, observa.

Animais
Ela ressalta ainda que a primavera altera o comportamento da fauna. “É marcante o canto do sabiá-laranjeira, especialmente ao amanhecer”, destaca. Outro exemplo é o joão-de-barro, que nessa época inicia a construção dos ninhos, comportamento associado ao período reprodutivo.
Segundo Gisele, a estação também intensifica a movimentação de outros animais. “Mamíferos apresentam maior atividade e insetos polinizadores, como as abelhas, atingem seu pico de atuação, aproveitando a abundância de flores para alimentação e reprodução”, explica. Esse cenário, no entanto, favorece também o aumento de insetos e pragas urbanas. “Mosquitos, baratas e formigas passam por uma verdadeira ‘explosão reprodutiva’ nessa época do ano”, acrescenta.
A primavera, por outro lado, traz impactos positivos para o meio ambiente. “Há melhora na qualidade do ar com o aumento da cobertura vegetal e da produção de oxigênio, enquanto as chuvas favorecem a recarga de mananciais superficiais e aquíferos”, completa.

Turismo
Na Serra Gaúcha, o turismo se intensifica. “Jardins floridos, vinhedos em brotação e paisagens verdes atraem visitantes em busca de experiências ao ar livre”, observa Gisele.
Com o aumento do fluxo turístico, ela reforça a necessidade de responsabilidade ambiental. “Escolher hospedagens e atrações com práticas sustentáveis, dar preferência a vinhos, frutas e produtos coloniais da estação e recolher todos os resíduos sólidos gerados em passeios são atitudes que fortalecem a economia local e ajudam a preservar a beleza das paisagens para as próximas gerações”, sugere.

Impactos na saúde
Segundo o médico pneumologista Alexandre Pressi, a primavera também traz problemas respiratórios. “Devido à polinização das flores, algumas doenças respiratórias, principalmente rinite alérgica e asma, costumam piorar nos pacientes sensíveis”, afirma.
O médico explica que tanto asma quanto rinite são multifatoriais. “Nem todos os pacientes têm essa sensibilização ao pólen; alguns podem reagir apenas a ácaros, poeira ou gramíneas”, observa.
Nos dias de vento, os sintomas tendem a se agravar. “O vento atinge as flores, deixa o pólen em suspensão no ar e, ao ser inalado, desencadeia o processo inflamatório alérgico”, explica Pressi. Já a chuva tende a aliviar o desconforto ao precipitar o pólen no solo.
Os sintomas mais comuns são espirros, coceira no nariz e nos olhos, coriza transparente e congestão nasal. “São sintomas clássicos de pessoas alérgicas, mas nem todos precisam estar presentes para o diagnóstico”, esclarece Pressi.

Diferenças em relação às infecções respiratórias
Pressi ressalta que sintomas como febre, calafrios, dor de cabeça, dor no corpo e dor de garganta indicam quadros infecciosos, e não alérgicos. No caso da sinusite, a secreção nasal costuma ser amarelada ou esverdeada, podendo vir pela frente ou escorrer pela garganta. “A sinusite também costuma provocar sensação de peso facial, que piora ao abaixar a cabeça”, completa.
Já o acometimento das vias inferiores pode indicar doenças como asma, bronquite, traqueíte ou pneumonia. A asma, segundo o médico, pode se manifestar por tosse seca, chiado no peito e falta de ar, principalmente durante esforço físico. A traqueíte costuma alterar a voz, deixando-a mais rouca, e provocar tosse seca. A bronquite se caracteriza pela produção de muco, que pode ser branco e pegajoso ou, em casos bacterianos, amarelado ou esverdeado. A pneumonia, por sua vez, atinge os alvéolos pulmonares e pode causar febre, dor em pontada e falta de ar.
O especialista destaca que pessoas sem histórico de alergias também podem desenvolver sensibilidade ao pólen em algum momento da vida, resultando em rinite temporária. “Tudo depende da intensidade da exposição”, afirma. Já a asma, por ser um quadro mais genético, dificilmente se manifesta apenas pela inalação do pólen, se a pessoa não apresentou sintomas na infância.

Tratamentos e rotina saudável
O médico explica que, nesta época do ano, pode ser necessário ajustar as doses dos medicamentos. O tratamento da rinite alérgica é feito, principalmente, com spray nasal à base de corticoide, considerado seguro para uso contínuo. “Em alguns casos, pode ser necessário duplicar a dose para controlar os sintomas”, afirma. O mesmo vale para a asma, quando há aumento no uso de medicações de resgate.
Além da medicação, hábitos saudáveis são fundamentais. “Uma alimentação balanceada, rica em frutas, vegetais, carboidratos e proteínas fortalece o sistema imunológico e ajuda a prevenir doenças”, orienta o médico.
A prática de atividades físicas regulares também é essencial. “O exercício modifica o metabolismo do corpo e do cérebro, estimula a produção de endorfinas e fortalece o sistema imunológico”, complementa.
Outro ponto de atenção é o sono. “Um descanso adequado, em ambiente tranquilo, escuro e silencioso, com duração mínima de seis horas, de preferência entre sete e oito é fundamental para a regulação hormonal e para reduzir o risco de doenças respiratórias”, destaca o médico pneumologista.

Saúde mental
A psicóloga Cristiane Puerari lembra que a primavera também impacta a saúde mental. “A estação das flores traz dias mais longos, iluminados, cores vibrantes e energias renovadas, o que influencia diretamente o humor e o bem-estar das pessoas”, explica.
A maior exposição ao sol e as atividades ao ar livre estão associadas ao aumento da produção de serotonina, ligada ao prazer e à disposição, e de melatonina, responsável pela qualidade do sono. Segundo a especialista, esses fatores contribuem para a redução de sintomas depressivos. “A prática regular de atividades físicas em ambientes naturais também ajuda a diminuir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, melhorando significativamente o humor”, acrescenta.
Entre os desafios, Cristiane destaca o aumento de alergias, que podem gerar fadiga, irritabilidade, distúrbios do sono e até sinais de depressão leve. Os grupos mais afetados são idosos, crianças, pessoas com ansiedade ou depressão e pacientes alérgicos ou asmáticos.
A psicóloga alerta ainda para os impactos das redes sociais na autoimagem. “Cenários floridos, roupas leves e mensagens de renovação se multiplicam nas postagens, incentivando comparações e pressionando as pessoas a se adequarem a determinados padrões de beleza”, afirma.
Para atravessar a estação com equilíbrio, ela recomenda valorizar o contato com a natureza, praticar atividades ao ar livre de forma consciente e usar as redes sociais como fonte de inspiração, e não de comparação.