A combinação entre poluição ambiental e calor extremo tem se consolidado como uma das principais ameaças à saúde pública global. Juntos, esses fatores estão associados à morte de mais de três milhões de pessoas todos os anos, segundo relatório publicado na revista científica The Lancet, elaborado em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo contou com a contribuição de 128 especialistas de mais de 70 instituições acadêmicas e agências das Nações Unidas, reforçando o alerta sobre os impactos das mudanças climáticas e da degradação ambiental na saúde humana.
De acordo com Tiago Panizzon, professor de Engenharia no programa de pós graduação em ciências ambientais e pesquisador do Instituto de Saneamento Ambiental na Universidade de Caxias do Sul (UCS), o calor extremo aumenta o número de mortes, pois faz com que o corpo trabalhe além do limite. “Durante ondas de calor, o corpo envia mais sangue para a pele para tentar se resfriar, mas reduz o fluxo no intestino. Isso pode enfraquecer a barreira intestinal e permitir a entrada de bactérias e toxinas”, explica.
Para o médico cardiologista do Hospital Tacchini, Giovanni Zattera Sganzerla, o calor intenso impõe um esforço adicional ao organismo ao provocar a dilatação dos vasos sanguíneos. “Esse mecanismo ocorre para dissipar o calor e exige o aumento da frequência cardíaca para manter a perfusão. Com isso, eleva a carga de trabalho do coração, reduz a pressão arterial em algumas pessoas e favorece a desidratação. Em quem já tem doença cardiovascular, essa sobrecarga pode precipitar angina, infarto, insuficiência cardíaca descompensada e arritmias”, explica.

Exposição prolongada
O professor destaca que ela provoca desidratação intensa e redução do volume sanguíneo. “Esse processo reduz a pressão arterial e o fluxo para os rins, podendo gerar insuficiência renal aguda. A desidratação e o calor constantes também podem danificar os túbulos renais e evoluir para uma forma de doença renal crônica ligada ao estresse térmico. Além disso, a perda de potássio pelo suor ou o excesso dele devido à desidratação podem causar arritmias cardíacas”, frisa.

Doenças relacionadas
De acordo com o cardiologista, as partículas provenientes da poluição conseguem ultrapassar a barreira pulmonar e atingir a corrente sanguínea, desencadeando processos inflamatórios no organismo. “Além disso, aumentam a pressão arterial e desestabilizam placas ateroscleróticas, elevando o risco de infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC)”, observa.
Panizzon explica que, ao respirar partículas finas (PM2,5), podem ser provocadas inflamações nos vasos sanguíneos e nos pulmões. “Pode gerar uma resposta inflamatória grave (SIRS), insuficiência cardíaca ou até infarto”, cita.
O professor também faz referência ao estudo de Shah et al. (2013), que aponta a relação direta entre a poluição atmosférica e o agravamento de doenças cardiovasculares. “O aumento de 1 ppm no teor de CO está associado a um aumento de 3,25% nas hospitalizações ou mortes por insuficiência cardíaca”, destaca, reforçando os impactos do monóxido de carbono na saúde da população.
Além disso, ele cita dados do estudo, que evidenciam os efeitos do material particulado fino na saúde cardiovascular. “O aumento de 10 μg/m³ no teor de material particulado fino (PM2,5) está associado a um aumento de 2,12% nas hospitalizações ou mortes por insuficiência cardíaca”, ressalta.
No sistema respiratório, o ozônio e as partículas finas, cuja ação nociva é intensificada pelas altas temperaturas, podem agravar crises de asma e outras doenças respiratórias. “O ozônio inflama as vias aéreas e enfraquece as defesas do corpo, facilitando infecções”, destaca.

Grupos de risco
Sganzerla ressalta que idosos, crianças, gestantes e pessoas com cardiopatias, doenças pulmonares, diabetes, insuficiência renal ou obesidade estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos do calor e da poluição. “Muitos utilizam medicamentos que interferem na regulação térmica ou no equilíbrio hídrico, como os diuréticos, o que aumenta o risco de descompensações”, explica.

Hospitais
O cardiologista alerta que, nessa época do ano, com temperaturas mais elevadas, há aumento de atendimentos por sintomas como:

  • Desidratação;
  • Síncope;
  • Arritmias (especialmente fibrilação atrial);
  • Infarto;
  • Descompensação da insuficiência cardíaca;
  • Elevação de eventos tromboembólicos.

Maior preocupação
O professor destaca que, de acordo com estudo da Organização Internacional do Trabalho, o impacto do calor e da poluição está aumentando em todo o mundo. “Entre 2000 e 2019, cerca de cinco milhões de mortes por ano foram ligadas a temperaturas inadequadas, e quase 490 mil ocorreram por causa do calor. A proporção de mortes causadas pelo calor também cresceu nesse período”, ressalta.
Além disso, segundo ele, em 2020, mais de 2,4 bilhões de trabalhadores foram expostos ao calor extremo. “Mais de 70% da força de trabalho mundial, resultando em quase 19 mil mortes anuais”, alerta.
O especialista destaca que a Ásia concentra o maior percentual de mortes, enquanto a Europa Oriental apresenta a maior taxa de óbitos por calor em relação à população, quase cinco vezes acima da média global. Nas Américas e na Europa/Ásia Central, o aumento de lesões ocupacionais por calor desde 2000 foi um dos mais altos.

Brasil
No país, segundo estimativas baseadas em parâmetros internacionais da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2018), a poluição do ar é responsável por cerca de 51 mil mortes por ano. “Número muito superior às 32.121 mortes no trânsito registradas no mesmo ano, de acordo com o DataSUS (Ministério da Saúde, 2019)”, alerta.
Ao ampliar a análise para os impactos econômicos e sociais da poluição do ar, Panizzon cita dados de estudos nacionais recentes. “O Instituto Saúde e Sustentabilidade mostrou impacto semelhante em seis regiões metropolitanas brasileiras, onde vivem 23% da população do país, e concluiu que, de 2018 a 2025, serão contabilizadas cerca de 128 mil mortes precoces, representando um custo de R$ 51,5 bilhões em perda de produtividade. Haverá ainda 69 mil internações públicas a um custo de R$ 126,9 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS) (ISS, 2019a)”, enfatiza.
Além disso, estudo da Fiocruz indica que ondas de calor extremas estão associadas a aumento de 50% nas mortes de idosos com doenças crônicas. “Em 18 de novembro de 2023, após um pico extremo de calor, foram registradas 151 mortes de idosos por causas específicas, o maior número já observado”, salienta Panizzon.

Urbanização
A urbanização acelerada influencia diretamente o aumento das temperaturas nas cidades, sobretudo em áreas de alta densidade populacional. A substituição de superfícies naturais por asfalto, concreto e edificações compromete a capacidade do solo de absorver água e dissipar calor, enquanto esses materiais armazenam e irradiam a temperatura ao longo do dia. Esse fenômeno resulta no chamado efeito de ilha de calor urbana, caracterizado por temperaturas significativamente mais elevadas nos centros urbanos em comparação às áreas rurais do entorno. “A pouca vegetação e os prédios altos reduzem o vento e o resfriamento natural, criando ‘pontos quentes’. O calor também aumenta com carros, ar-condicionado e indústrias”, destaca o professor.
O processo de urbanização, quando desordenado, também está associado ao aumento da poluição atmosférica, sobretudo nas grandes regiões metropolitanas. A concentração de pessoas, veículos e atividades econômicas intensifica a emissão de poluentes, deteriora a qualidade do ar e potencializa os efeitos do calor sobre a saúde da população. “Esse cenário não é inevitável e depende das escolhas de planejamento urbano. Cidades bem planejadas, com transporte público eficiente e limpo, além de zoneamentos adequados, podem limitar significativamente esse efeito”, explica Panizzon.

Poluentes atmosféricos mais preocupantes
O pesquisador cita alguns dos poluentes mais prejudiciais à saúde:

  • Material particulado (PM2,5 e PM10): Proveniente de veículos, indústrias, queimadas e incêndios florestais. Secas favorecem a dispersão da fumaça e aumentam os níveis desses poluentes. O PM2,5 pode causar inflamação grave, aumentar o risco de infarto e insuficiência cardíaca e, a longo prazo, levar ao câncer de pulmão;
  • Dióxido de enxofre (SO): Gerado principalmente por processos industriais. Agrava problemas respiratórios, como asma e bronquite, e causa irritação das vias aéreas;
  • Óxidos de nitrogênio (NOx): Provenientes da queima de combustíveis em veículos e processos industriais. O calor e a luz solar aumentam a poluição, pois os NOx reagem com outros gases e formam ozônio (O₃). Além disso, irritam o sistema respiratório e, em altas concentrações, podem causar inchaço nos pulmões;
  • Ozônio (O₃): Formado no ar quando gases de carros e indústrias reagem com luz solar e calor. Dias quentes aumentam sua concentração. Irrita olhos e vias respiratórias, piora doenças pré-existentes e reduz as defesas do sistema respiratório.

Principais sinais de alerta
O médico destaca alguns indícios de que uma pessoa pode estar sofrendo com o excesso de poluição e calor: “Falta de ar, dor ou pressão no peito, palpitações persistentes, tontura, desmaio, inchaço nas pernas, fadiga extrema, confusão mental e redução da diurese são sinais importantes e exigem avaliação”.
Ele explica que pacientes com doenças cardíacas crônicas devem adotar cuidados especiais em dias de calor extremo ou alta poluição: “Hidratar-se regularmente, mesmo sem sede; evitar exposição ao sol nos horários mais quentes; manter ambientes ventilados ou climatizados; não suspender nem ajustar medicações sem orientação médica; monitorar pressão arterial, peso e sintomas; e evitar esforço físico ao ar livre em dias muito quentes ou poluídos”, orienta Sganzerla.

Recomendações gerais
O cardiologista orienta que, diante de períodos de calor intenso e piora da qualidade do ar, algumas medidas simples podem reduzir os riscos à saúde: “Beber água, usar roupas leves e claras, buscar sombra, evitar álcool em excesso, priorizar atividades físicas em horários mais frescos (manhã cedo ou à noite) e acompanhar índices de qualidade do ar antes de sair”, orienta.

Medidas emergenciais
O professor frisa que as cidades podem adotar medidas para proteger a população:

  • Informação ao público: Divulgar mensagens claras sobre como se manter fresco, reconhecer sintomas de doenças causadas pelo calor e onde buscar ajuda, com atenção especial às populações vulneráveis;
  • Locais de resfriamento e acesso à água: Abrir espaços públicos climatizados (como bibliotecas, centros comunitários e museus) e instalar pontos de distribuição de água potável, inclusive para moradores de rua;
  • Apoio dos serviços de saúde: Reforçar equipes, ambulâncias e atendimento de emergência; disponibilizar linhas telefônicas de orientação médica; realizar visitas domiciliares a pessoas vulneráveis, como idosos e doentes crônicos;
  • Proteção aos trabalhadores e serviços essenciais: Ajustar horários de trabalho ao ar livre para evitar o período mais quente (11h às 15h), garantir pausas na sombra e hidratação, e assegurar que serviços essenciais, como água e energia, continuem funcionando.

Perspectivas para os próximos anos
Panizzon destaca que estudos indicam que as ondas de calor serão cada vez mais frequentes e intensas. “O planeta vai continuar aquecendo. A influência humana já elevou as temperaturas, e elas seguirão subindo pelo menos até meados do século em todos os cenários de emissões, mesmo nos mais otimistas”, observa.