A chegada do 13º salário é um momento crucial que exige atenção e, acima de tudo, planejamento financeiro

A coordenadora do curso de Ciências Econômicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Jacqueline Corá, ressalta que quem se antecipa com um plano consegue evitar decisões por impulso e avaliar as melhores alternativas para utilizar o recurso de forma consciente. A especialista enfatiza que o planejamento não apenas assegura um uso mais inteligente do salário extra, mas também estabelece as bases para um novo ano com mais equilíbrio nas contas.

Jacqueline Corá, coordenadora do curso de Ciências Econômicas

Quitar dívidas e negociar juros altos
O primeiro passo no planejamento, segundo Jacqueline, deve ser o levantamento das despesas. A coordenadora explica que é fundamental conhecer o tamanho do problema para destinar uma parte do 13º à quitação desses compromissos. “Priorizar o pagamento das dívidas com os serviços básicos como aluguel, condomínio, água, luz, telefone, para não sofrer penalidades de corte de serviços”, explica.
Na sequência, Jacqueline orienta que o foco seja a negociação das pendências financeiras com juros mais elevados, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos bancários. A economista alerta que juros altos podem triplicar o valor dos débitos em um curto espaço de tempo. Sua recomendação é clara: separar as contas e procurar os credores para buscar negociações, optando por parcelamentos que sejam compatíveis com a capacidade de pagamento da família. “Atualmente vários órgãos promovem ‘feirões’ para incentivar os devedores a negociarem suas dívidas. A vantagem é que eliminam as multas e reduzem os juros, o que torna a situação muito mais fácil para ser resolvida. Há interesse de todos os envolvidos em criar condições para que as pendências possam ser quitadas e o crédito do cliente restabelecido. Evite ‘empurrar o problema com a barriga’. Fazer de conta que ele não existe não ajuda em nada na sua solução. Cuidar com as negociações para que as parcelas sejam do tamanho que a família possa arcar”, orienta.

Início de ano no orçamento
Uma vez estabelecida a prioridade dos déficits, uma parcela do 13º pode ser direcionada para os gastos típicos de fim de ano. Jacqueline sugere que as famílias planejem as celebrações natalinas de maneira consciente, definindo um valor máximo para este fim. Para os presentes, a economista recomenda a elaboração de uma lista e o estabelecimento de um limite de gasto, sendo fundamental que o valor final se mantenha dentro do estipulado. Estar consciente da condição financeira atual e seguir o planejamento é a garantia de um próximo ano muito mais tranquilo, livre de dívidas. “Além disso, importante lembrar que logo no início do ano tem os compromissos com impostos (IPTU, IPVA) e com as despesas escolares. O 13º também pode ser ‘ajudinha’ extra para essas contas e entrar o ano com muito mais tranquilidade”, lembra.


A pesquisa antecipada de preços é destacada como uma ferramenta que permite encontrar alternativas mais econômicas para os presentes de Natal. Além disso, a coordenadora incentiva a criatividade. “Podemos ser criativos e arriscar fazer presentes singelos, mas com grande valor simbólico: customizar uma camiseta, fazer um bolo natalino, geleias, potes decorados, pintar um pano de prato, enfim, tantas possibilidades que inclusive nos ajudam a relaxar e entrar no verdadeiro espírito natalino,” pontua.
Investimentos e reserva de emergência
No cenário atual de taxa Selic a 15%, Jacqueline vê uma excelente oportunidade para quem tem recursos disponíveis começar a investir com segurança. A economista indica produtos financeiros de renda fixa, que oferecem um retorno interessante com risco mínimo. A população deve buscar conhecimento sobre investimentos, lendo, fazendo cursos e conversando com especialistas. “Hoje, mesmo aplicando em um Certificado de Depósito Bancário (CDB) de liquidez imediata (que é uma das opções mais simples e disponível em qualquer banco), a rentabilidade será o dobro da obtida com a poupança. São várias as opções disponíveis para aplicar. Nesse patamar de taxa de juros, é muito bom para quem tem dinheiro sobrando e péssimo para quem tem dívidas. A medida que a pessoa começa a investir, vai aprendendo e conhecendo muito mais sobre o assunto”, aconselha.
A criação de uma reserva de emergência é outra prioridade destacada. “Sempre indico que a pessoa possa dividir seu ganho em três partes: 50% para custear seu dia-a-dia – contas básicas (gastos fixos); 30% para eventuais – lazer, roupas etc e 20% para a reserva/investimentos,” sugere.

Black Friday e as compras por impulso
Promoções e as liquidações de final de ano podem ser aliadas na economia, mas exigem cautela. Jacqueline alerta que, sem planejamento, o risco de realizar compras por impulso é alto, resultando em aquisições desnecessárias. É fundamental separar o que é necessidade do que é apenas desejo. A economista recomenda uma reflexão antes de ceder a uma oferta: “Esse item vai melhorar minha qualidade de vida? Ou simplesmente me proporcionará ‘felicidade momentânea’ e logo estará empilhado do armário?”, aconselha.


Para os itens de real necessidade, a dica é pesquisar e comparar preços, buscando descontos significativos e negociando um abatimento adicional para pagamentos à vista. A compra deve, impreterivelmente, caber no orçamento. “Se não pagar o cartão de crédito no vencimento, os benefícios obtidos com os descontos serão todos perdidos e os juros trarão um custo adicional não previsto,” adverte.
Pensando no início do ano, as famílias devem incluir os gastos escolares no planejamento. A coordenadora incentiva o consumo consciente, reaproveitando e reutilizando ao máximo materiais do ano anterior, como mochilas, estojos, uniformes e livros, antes de sair para as compras. Essa prática, além de econômica, alinha-se aos princípios de sustentabilidade ensinados nas escolas. A sugestão é fazer uma triagem do material anterior e envolver vizinhos ou primos na troca de itens que não servem mais, como uniformes e livros. “Após isso podem elencar alguns itens para a aquisição do será ‘novo’ para o ano seguinte. As crianças também gostam de levar algo novo para a escola, mas isso pode ser uma combinação da família. Essa prática é importante desde pequenos, pois os pais podem mostrar para os filhos, pelo exemplo, que o reaproveitamento é uma prática de consumo consciente e com isso, economizam para alcançar objetivos futuros comuns, como as férias da família, aquisição de um bem de maior valor etc”, aconselha.

Organização para todos
Para quem é autônomo ou empreendedor e não recebe o 13º salário, o planejamento é igualmente vital. Jacqueline observa que, dependendo do ramo, o faturamento pode aumentar no último trimestre. É crucial, no entanto, criar uma reserva para os meses em que o fluxo de trabalho é tradicionalmente menor. O conhecimento da realidade do próprio negócio é essencial para esse planejamento.
Por fim, a coordenadora reforça a máxima: “gaste sempre menos do que ganha”. A reserva financeira é um porto seguro que garante tranquilidade em tempos incertos. O lema para evitar a repetição de problemas financeiros é a mudança de comportamento. “Pense antes de consumir, resista às ofertas e promoções, avalie que nem sempre são tão interessantes,” concluí.