Sete mulheres se encontraram em uma academia em 2021 com um objetivo em comum: treinar para a longa jornada de mais de 200 km do Caminho de Caravaggio, entre Canela e Farroupilha, no Rio Grande do Sul. O que começou como um grupo de caminhada rapidamente se transformou no inseparável time das “Pinelgrinas”, composto por: Benardete Betinelli (Bena), Cassiane Rossini (Cassi), Claudia Pegoraro, Gabriela Lucchese (Gabi), Jussara Mattia (Juca), Sinara Maragno Kunz (Tuca) e pela Maria Gabriela, a nossa amiga (Gabi Nozin), que faleceu recentemente (em agosto passado), mas que continua sempre presente nas conversas e lembranças. Quem juntou o grupo foi a Cassiane Rossini. “Era a proprietária da academia onde a maioria das Pinelgrinas malhavam e quem conhecia as demais. Fui a última a chegar, através de um convite da Gabi pelo Instagram, e encaixou direitinho com as demais”, conta Claudia.
Como surgiu o nome
De acordo com Claudia, a nomenclatura, “As Pinelgrinas”, foi uma brincadeira com as palavras “Peregrinas” + “Pinel”, que vem de Philippe Pinel. “Considerado o pai da psiquiatria, que acreditava na cura da loucura”, conta.
O que significa
Para cada membra do grupo, a peregrinação transcende o simples ato de caminhar, assumindo significados profundamente pessoais que começam muito antes da partida. Para Gabriela (Gabi), a jornada é um processo que se inicia bem antes da trilha. “Como em qualquer viagem, uma peregrinação começa muito antes do primeiro passo… desde a escolha da data, compra de passagens, reserva de hospedagens, escolha do calçado adequado, treinamento em academia e caminhadas, muitas caminhadas… são sempre vários meses de preparação, muita expectativa e muitos encontros até realmente começar um caminho, e isso já é viver uma peregrinação. E quando realmente chega o dia de partir, o momento da primeira etapa, aí é uma alegria imensa, é um passo de cada vez, curtir a paisagem, o contato com outros peregrinos, as muitas histórias de pessoas dos mais variados lugares e culturas”, menciona.
Sinara (Tuca), por sua vez, destaca a transformação interna e a conexão profunda que a experiência proporciona, tanto física quanto emocional. “O início da peregrinação sempre carrega a expectativa de estarmos preparadas física e emocionalmente para enfrentar a jornada que vem pela frente. Momentos de reflexão, conexão e de estarmos abertas para a transformação que a caminhada nos proporciona. Com certeza retornaremos diferentes, com uma paz interior que não conseguimos explicar. Coração transbordando de alegria por termos uma experiência única e que com certeza estará pra sempre conosco”, enfatiza.

Organização do roteiro
A autonomia na organização das viagens é uma marca registrada das Pinelgrinas. Claudia conta que ela e Gabi assumiram a liderança do planejamento dos percursos. “Nós mesmas organizamos tudo, compra de passagens, programação do trajeto, reservas de hospedagem. Antes de sermos peregrinas, já éramos viajantes, e a Claudia e a Gabi adoram planejar viagens”, explica.
Essa experiência prévia como viajantes foi crucial para os grandes desafios. O Caminho de Caravaggio, a primeira jornada do grupo, exigiu apenas quatro meses de preparação. No entanto, realizar o sonho do Caminho de Santiago foi uma empreitada muito maior. “Ele demandou quase um ano de planejamento, inclusive financeiro, de férias, etc., para que pudéssemos realizar esse sonho todas juntas”, aponta.

Ritual
Antes de iniciarem as peregrinações, o grupo mantém um ritual que mistura fé e uma profunda homenagem à amiga ausente. “Costumamos rezar o Santo Anjo e pedir proteção à Nossa Senhora de Caravaggio. E, no final, sempre que possível, um brinde com Nozin”, destaca.
Locais de peregrinação
As “Pinelgrinas” já acumulam quilômetros de fé e amizade tanto em solo gaúcho quanto na Europa, além de inúmeras caminhadas pelo interior da Serra Gaúcha para manter o preparo físico. A primeira grande experiência do grupo, o Caminho de Caravaggio, as levou por cinco cidades da região: “Nesta rota passamos por Canela, Gramado, Nova Petrópolis, Caxias do Sul e Farroupilha”, conta Claudia.
Já no exterior, a jornada de Santiago de Compostela teve início em Portugal, no Porto, e seguiu por cidades como Barcelos, Ponte de Lima e Valença do Minho, antes de cruzarem a fronteira espanhola, passando por Tuí, Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis e Padrón, até o destino final. Apesar da beleza de cada trajeto, o grupo reconhece que cada caminho tem seu valor inestimável. “Todas são lindas, com suas peculiaridades. Difícil dizer qual foi a melhor… Caravaggio foi a nossa ‘primeira vez’, que nos mostrou que éramos capazes, e Compostela é mística, um sonho para qualquer peregrino, então todas são especiais de alguma forma”, afirma.
Desafios enfrentados
Mesmo com todo o planejamento, os longos caminhos não estão isentos de dificuldades. O grupo já enfrentou os “perrengues” comuns de grandes jornadas, mas garante que a superação está na mente. Elas citam desde problemas físicos a pequenos imprevistos. “Já tivemos lesões em integrantes do grupo, pés machucados e outros pequenos perrengues, mas podemos garantir que, se você estiver bem preparado, não apenas fisicamente, mas, principalmente, psicologicamente, no final tudo dá certo”, conta.
A maior lição, no entanto, é a importância do preparo mental, uma dimensão que, segundo o grupo, é frequentemente subestimada pelos peregrinos iniciantes. “As pessoas têm uma grande preocupação com as suas condições físicas, com equipamentos, etc., e muitas vezes nem imaginam que é 50% preparo físico/equipamentos e 50% preparo psicológico! Com bom humor e um espumante gelado a gente supera qualquer desafio”, afirma.
Situações inusitadas
Se os desafios exigem preparo mental, o bom humor é o ingrediente secreto que garante a leveza e a união inabalável do grupo. As “Pinelgrinas” garantem que as situações inusitadas são diárias: “Nós definitivamente sabemos rir de nós mesmas. Quando a gente está junto, pode contar que vai ter história engraçada, tudo vira piada e motivo pra muita risada”, brincam.
A lista de perrengues divertidos inclui desde quilos de frutas colhidas, caminhos errados e as vezes em que se perderam, até as famosas “cantorias desafinadas” que renderam ao grupo o apelido interno de “rádio espanta-fauna”.
Mas é a combinação de apoio mútuo, a prevenção contra as temidas bolhas com “os pés costurados cheios de linhas” e as “quantidades de vinho ingeridas” que asseguram que o estresse passe longe da convivência. “É isso que torna a nossa convivência leve, pois não é todo mundo que consegue conviver com pessoas diferentes por tanto tempo sem rolar um stress… e esse podemos garantir que passa longe”, salienta.
Transformação individual
Se a jornada começou na busca por um objetivo físico, ao longo do tempo, as peregrinações se tornaram um catalisador de transformações pessoais e da superação de limites antes inimagináveis. Claudia, que inicialmente enfrentava dificuldades em longas caminhadas devido a problemas nos pés, viu seus sonhos se materializarem graças ao treinamento com o grupo. “Calos, bolhas, e achava que era incapaz de fazer os trekkings que eu sonhava fazer… Mas, depois que começamos a treinar juntas, aprendemos, com o passar do tempo, a nos conhecer melhor, a entender como funciona nosso corpo, nossos pés, a ganhar resistência e, desde então, já fiz inúmeras outras caminhadas longas, inclusive até o campo base do Everest, que era o meu grande sonho”, comemora.
Para Gabriela, a caminhada ensinou uma filosofia aplicável à vida diária. “Fazer o Caminho de Caravaggio com as ‘Pinels’ me mostrou que era possível sim caminhar 200 Km e ensinou que a gente, assim como na vida, não precisa carregar pesos desnecessários, a desapegar e, acima de tudo, um passo de cada vez”, afirma.
Próximas rotas
O grande sonho atual é percorrer o trecho italiano da Via Francígena, mas o grupo avalia desafios mais próximos. “Também pensamos em fazer o Caminho da Fé, até o Santuário de Aparecida, ou o Circuito do Vale Europeu em Santa Catarina”, revela o grupo, mostrando que a busca por novas trilhas e experiências seguem.
O legado
Ao final de cada jornada, as “Pinelgrinas” acumulam não apenas quilômetros, mas lições de vida que desejam compartilhar com aqueles que ainda sonham em peregrinar. A mensagem final é um convite à ação, à fé e à valorização do presente.
Benardete (Bena) enfatiza a importância da crença e do preparo, lembrando que a vida em si é uma peregrinação. “Se você deseja peregrinar, primeiro acredite que pode realizar esse sonho. Foque no que é importante, se dedique treinando, é fundamental estar preparado, física e mentalmente… Seja qual for a sua idade… a nossa vida é única e estar nesse mundo é uma peregrinação, onde não temos controle de muitas coisas… Viva, peregrine, seja feliz. No final das contas, o que se leva dessa vida são os momentos vividos, o resto fica. Bom Caminho”, instiga.
Para Gabriela, o momento da partida é inegociável: “O caminho chama! Muitas pessoas simplesmente colocam uma mochila nas costas, um par de tênis nos pés e vão. Outras, como nós, planejam com meses de antecedência. Para nós, o Caminho de Santiago chegou no momento certo, e nos uniu ainda mais, principalmente após a perda da Maria Gabriela. Então a gente sabia que tinha que fazer o Caminho, por nós e por ela”, enfatiza.
Claudia sugere que o começo pode ser no próprio quintal: “O mais difícil é dar o primeiro passo. Parar de ‘só’ sonhar e começar a colocar os sonhos em prática. Você não precisa começar a caminhar na Espanha, a gente mora numa região de cenários privilegiados, temos a sorte de ter a Linha Alcântara, o Vale Aurora, a Linha Eulália, o Vale dos Vinhedos, tudo isso no nosso quintal. É só colocar um tênis nos pés, pegar uma garrafa de água e sair a caminhar. Quando você perceber, vai estar fazendo o Caminho de Caravaggio, uma peregrinação espetacular que fica aqui, do lado de casa!”, finaliza.