Nos últimos anos, a procura por academias voltadas ao público infantil tem registrado um crescimento expressivo. Cada vez mais famílias buscam alternativas para que crianças e adolescentes pratiquem atividades físicas de forma orientada, segura e adaptada à idade. Esse movimento acompanha mudanças no estilo de vida, maior conscientização sobre a importância da atividade física precoce e o interesse dos próprios pequenos em participar de rotinas antes exclusivas dos adultos, como o treinamento. Com espaços especializados, equipamentos adequados e profissionais preparados, as academias infantis vem se consolidando como uma tendência que une saúde, diversão e desenvolvimento motor.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou recentemente um novo documento científico com o objetivo de esclarecer as principais dúvidas de pais e profissionais da saúde sobre a prática de musculação por crianças e adolescentes. Elaborada pelo Departamento Científico de Endocrinologia da entidade, a publicação reúne diretrizes atualizadas e detalhadas sobre os impactos dessa atividade em quatro áreas fundamentais: crescimento, desenvolvimento puberal, fortalecimento e mineralização dos ossos, além de aspetos relacionados à neurocognição.
De acordo com a pediatra Graciele Schermack de Oliveira, hoje o estilo de vida mudou, e isso reflete também nas crianças. “Cada vez mais sugere-se e orienta-se que as famílias busquem mais esportes para elas. Estes têm inúmeras melhorias, tanto na saúde física quanto mental das crianças e dos adolescentes”, destaca.
Benefícios
De acordo com Graciele, as atividades físicas trazem inúmeros benefícios para a saúde dos pequenos, tais como:
- Fortalecem músculos e ossos;
- Previnem a obesidade;
- Reduzem doenças crônicas no futuro;
- Ajudam na saúde mental;
- Melhoram a autoestima.
Além disso, ela ressalta que a prática esportiva contribui para o desenvolvimento de habilidades essenciais para o dia a dia. “Quando a criança participa de atividades coletivas, aprende a trabalhar em equipe, desenvolve empatia e amplia sua capacidade de disciplina. Também passa a lidar melhor com frustrações, compreendendo que tanto as vitórias quanto as derrotas fazem parte do processo de aprendizado”, acrescenta.
Quando começar
De acordo com a SBP, a idade mais adequada para iniciar a musculação é a partir dos oito anos. “A entidade orienta que as crianças pratiquem, em média, 60 minutos de atividade física por dia. E essa rotina deve ser variada: incluir brincadeiras ativas, esportes, exercícios aeróbicos e outras modalidades. Ou seja, o ideal é não limitar a prática a apenas um tipo de exercício. Quando se fala especificamente em musculação, essas recomendações seguem o mesmo princípio”, detalha a pediatra.
Além disso, no início, recomenda-se que realizem apenas exercícios com o próprio peso do corpo. “O foco inicial é trabalhar equilíbrio, postura e promover um melhor autoconhecimento corporal. Essa base é essencial antes de introduzir qualquer carga externa. Inclusive, para os adolescentes que participam de esportes competitivos, é fundamental que a musculação faça parte do acompanhamento, sempre de forma adequada e supervisionada”, explica Graciele.
Ela também sugere a inclusão de atividades recreativas na rotina. “Alguns preferem natação, então podem fazer um dia de natação, outro de pilates e duas vezes por semana na academia. O importante é que haja variedade, para que a criança experimente diferentes estímulos e mantenha o interesse”, orienta.
A pediatra afirma que a frequência ideal da musculação para crianças é de até três vezes por semana. “Por isso, o mais importante é garantir o acompanhamento de profissionais qualificados, preparados para atender esse público e orientar cada etapa do treino de forma segura e adequada”, destaca.
Bento Gonçalves
De acordo com Ariadne da Silva Farias Bica, bacharel e licenciada em Educação Física e proprietária da Motiva Kids, o espaço oferece atividades de academia infantil para crianças a partir dos quatro anos. “Nosso trabalho inicia com uma avaliação física e motora completa, observando não apenas peso e altura, mas também as habilidades motoras fundamentais, aquelas que dão à criança confiança para executar movimentos e conhecer melhor o próprio corpo”, detalha.
Segundo ela, o público que procura o serviço é bastante diverso. “Alguns buscam por questões de saúde, outros por obesidade e muitos simplesmente pelo lazer”, afirma.
Ariadne conta que a criação do projeto nasceu de uma necessidade pessoal, inspirada por sua filha. “Ela foi meu sinal de alerta. Durante o período de isolamento, recebeu os diagnósticos de TOD (Transtorno Opositivo Desafiante) e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), e o esporte passou a fazer total sentido na vida dela, trazendo melhorias na agitação, no sono, na concentração e em vários outros aspetos. Na época, eu era professora da rede estadual e percebi que meus alunos também apresentavam grandes dificuldades, era como se tivessem ‘esquecido’ habilidades básicas, como correr, saltar, pular, cair e até caminhar adequadamente. Essa falta de ‘alfabetização corporal’ fez com que meus planos saíssem do papel, e assim surgiu a Motiva Kids”, recorda.
A proprietária menciona que o espaço busca atender à necessidade de cada criança. “Nosso planejamento é semanal, com o aumento de cargas e esforços gradativos. No nosso caso, a criança utiliza muito o peso corporal e, dependendo da idade e das respostas motoras, incluímos cargas”, explica.
Ela explica que, a cada seis meses, é feita uma nova avaliação para acompanhar a evolução dos alunos. “Com base nesses resultados, elaboramos relatórios que são entregues às famílias, permitindo que acompanhem de perto o progresso e as conquistas de seus filhos”, acrescenta.
Ariadne destaca que, no treino funcional, os estímulos aplicados trazem resultados percetíveis no comportamento e na autoconfiança das crianças. Segundo ela, quando os pequenos se sentem encorajados durante as atividades, esse efeito positivo ultrapassa o ambiente da academia. “É notório como os estímulos dos treinos deixam a criança mais confiante, e isso também se reflete na escola e em casa”, afirma.
Ela explica que, ao ser motivada a desafiar-se e a enfrentar suas dificuldades no aspeto motor, a criança ganha autonomia. “Quando é incentivada a superar seus próprios limites, ela se torna livre para praticar qualquer outro esporte que desperte seu interesse”, completa.
Mais do que atividade, é diversão
Ariadne explica que a metodologia da Motiva Kids utiliza o lúdico como principal ferramenta de ensino. Segundo ela, transformar exercícios em brincadeiras é essencial para que as crianças aprendam de forma natural e se mantenham motivadas. “Em um treino de agachamento, por exemplo, podemos transformar o movimento em uma brincadeira de imitar um sapo. Nossa estratégia é ensinar o movimento e trabalhar a partir de uma brincadeira. Isso vale tanto para treinos coletivos quanto para treinos de personal”, destaca.
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