O sabor doce é inegavelmente atraente, mas por trás da satisfação imediata de um bombom ou de um refrigerante açucarado, esconde-se uma complexa ameaça à saúde, sobretudo na infância. Em um mundo onde o açúcar está onipresente, desde o café da manhã até o lanche da tarde, especialistas e pais se confrontam com um dilema crucial: como proteger as crianças dos impactos negativos da ingestão excessiva, cujo consumo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e diversas entidades médicas recomendam evitar nos primeiros anos de vida.
Segundo o Ministério da Saúde, as crianças menores de dois anos não devem consumir açúcar, seja ele branco, mascavo, cristal, demerara, açúcar de coco, xarope de milho, mel, melado ou rapadura.
De acordo com Marieli Tretto, nutricionista materno-infantil, o açúcar causa picos rápidos de glicose no sangue, gerando alterações de energia, humor e comportamento. “Em crianças, isso se traduz em maior irritabilidade, hiperatividade momentânea, seguida de queda brusca de energia. Adicionalmente, o excesso favorece a inflamação, piora da imunidade, alterações intestinais e aumenta o apetite por alimentos ultraprocessados, impactando diretamente a qualidade da alimentação diária”, salienta.
Quantidade segura
Ela explica que a OMS recomenda que crianças consumam menos de 10% das calorias diárias em açúcar livre, idealmente menos de 5%. “Na prática, isso significa que o uso deveria ser mínimo, e bebês e crianças pequenas não devem receber açúcar adicionado antes dos dois anos”, observa.
A nutricionista reforça que a fase inicial da vida (até os dois anos) é um período crucial para o estabelecimento dos hábitos alimentares duradouros que acompanharão a criança por toda a vida. “Por isso, eles não devem receber nenhum açúcar adicionado, nem em pequenas quantidades”, enfatiza.
Essa restrição total visa proteger a sensibilidade gustativa em pleno desenvolvimento. “É uma fase decisiva para a formação do paladar e dos hábitos alimentares”, menciona. A introdução precoce do sabor doce pode gerar uma preferência alimentar exacerbada que, por sua vez, dificulta a aceitação de sabores mais complexos e essenciais, como os encontrados em vegetais e legumes, comprometendo severamente a qualidade nutricional da dieta futura.
Efeitos do açúcar no comportamento
Marieli afirma que logo após o consumo, muitas crianças demonstram euforia, agitação ou aumento de energia. “Cerca de 30 a 60 minutos depois, é comum ocorrer a ‘queda’, levando a irritabilidade, choro fácil, baixa energia e até dificuldade de concentração. Esse ciclo repetido prejudica a autorregulação e aumenta o desejo por mais”, destaca.
Consequências do excesso
Segundo a nutricionista, o consumo excessivo desde cedo aumenta o risco de:
- Obesidade infantil e adulta;
- Resistência à insulina e diabetes;
- Alterações lipídicas;
- Hipertensão;
- Problemas dentários;
- Baixa qualidade alimentar crônica.
Os impactos da ingestão excessiva de açúcar na infância ultrapassam os meros efeitos metabólicos, estendendo-se profundamente à psicologia da alimentação e à relação da criança com o alimento, favorecendo o desenvolvimento de seletividade alimentar e uma perigosa dependência do sabor doce. “A infância é a fase em que o paladar é moldado. Quanto mais açúcar a criança recebe, maior a tendência a preferir alimentos muito doces e rejeitar sabores naturais”, observa.
A nutricionista lista sinais de que a criança pode estar consumindo o produto acima do esperado, tais como: - Forte preferência por doces;
- Irritabilidade frequente;
- Alterações no sono;
- Fome constante, mesmo após refeições;
- Dificuldade em aceitar alimentos naturais;
- Cáries;
- Alterações gastrointestinais.
Em crianças maiores, também se observa queda de rendimento escolar e dificuldade de concentração.
Os “açúcares escondidos”
O desafio para os pais e cuidadores vai muito além de simplesmente cortar doces e refrigerantes, pois a substância se encontra mimetizado em uma vasta gama de produtos que, muitas vezes, são percebidos erroneamente como saudáveis ou inofensivos. O verdadeiro perigo reside nos chamados “açúcares escondidos”, aqueles adicionados pela indústria para melhorar o sabor, a textura ou a conservação, e que não são imediatamente identificados.
A nutricionista lista alguns exemplos: - Iogurtes infantis;
- Achocolatados;
- Cereais matinais;
- Biscoitos “para crianças”;
- Bebidas lácteas;
- Geleias e bebidas de caixinha;
- Bolinhos prontos;
- Suplementos e vitaminas infantis.
Ela afirma que muitos desses doces se vendem como “saudáveis”, mas têm alto teor de aditivos.
Sugestões de substituição
A chave para o sucesso começa na substituição dos produtos industrializados por opções naturalmente doces. “Priorizar alimentos naturais com sabor adocicado (banana, manga, maçã, batata-doce)”, recomenda.
Essas frutas e vegetais oferecem dulçor acompanhado de fibras e nutrientes essenciais. Complementar essa estratégia com a culinária caseira é fundamental. A especialista recomenda: “Usar preparações caseiras com frutas para adoçar, sem açúcar adicionado” para garantir o controle total sobre os ingredientes.
Além da dieta, o comportamento e o ambiente em casa são decisivos. A nutricionista destaca a importância de desvincular o doce do comportamento: “Evitar ofertar como recompensa”, para que o alimento não seja associado a valor emocional ou agrado.
A educação alimentar deve ser leve e envolvente: “Realizar educação alimentar por meio de brincadeiras e culinária com as crianças”. Por fim, a responsabilidade dos pais se estende ao ambiente: “Cuidar do ambiente alimentar: o que está disponível na casa, a criança consome. Seja o exemplo”. A disponibilidade de alimentos é o maior preditor do consumo.
A profissional reitera a necessidade de manter a moderação e a vigilância constante, mesmo após os dois anos de idade. “Manter doces para momentos pontuais, não como rotina, e ler rótulos atentamente para identificar açúcar oculto” são medidas que garantem que a exceção não se torne regra.
A influência do exemplo
Marieli destaca também que as crianças aprendem na observação, principalmente a dos mais velhos. “Se os adultos consomem doces diariamente, utilizam açúcar para regular humor ou tratam o doce como ‘escapada’, a criança tende a reproduzir o mesmo comportamento”, pontua.
Ela observa também que quando a família possui uma relação equilibrada com a substância, a criança tende a desenvolver esse vínculo mais saudável. “Acredito fortemente que reduzir não significa proibir. Trata-se de proteger um paladar em formação, favorecer boas escolhas e garantir mais saúde ao longo da vida. Pequenos ajustes na rotina familiar já fazem grande diferença”, finaliza a nutricionista.