Para muitos adultos, a ida ao dentista é apenas uma rotina de check-up. No entanto, para milhões de crianças ao redor do mundo, a simples menção da palavra “dentista” pode desencadear uma crise de choro, ansiedade e até pânico. O medo infantil do consultório odontológico, frequentemente chamado de odontofobia pediátrica, é uma realidade comum que transcende a timidez, transformando o cuidado essencial da saúde bucal em uma batalha emocional para pais e profissionais.
Um estudo notável conduzido por pesquisadoras da Universidade de Pernambuco, em Recife, revelou a prevalência significativa de ansiedade e histórico de dor de dente em uma amostra de 2.735 crianças com menos de cinco anos. Os dados acenderam um alerta: 34,7% dessas crianças apresentavam ansiedade relacionada ao tratamento odontológico, um indicador claro de que o medo do dentista começa muito cedo.
Memórias
Segundo a odontopediatra Patrícia Pancotte, a construção do medo em relação ao consultório é um processo apoiado em vivências e narrativas. “Os bebês, nas primeiras consultas, associam muito às experiências que já tiveram e à memória recente. Eles relacionam com vacina, por conta da vestimenta, que é o que eles presenciaram até então”, explica a especialista sobre os mais jovens.
Para os pequenos em idade escolar, a dinâmica muda: “Em crianças maiores, o medo é comum por receio de sentir dor, do desconhecido, quando não sabem o que esperar ou porque muitas vezes veem os pais chegando em casa após uma extração se queixando. Também há relatos que as crianças escutam na troca entre os coleguinhas da escola. Alguém fala alguma coisa ruim e elas acabam associando que ir ao dentista é uma coisa ruim”, conta.

O atendimento odontológico do público infantil exige uma abordagem diferenciada, pois o ambiente do consultório pode ser uma fonte de desconforto e ansiedade muito maior para elas do que para os adultos. “A criança é um mundo à parte, então coisas que não incomodam os adultos incomodam as crianças muito mais facilmente”, salienta Patrícia.
Essa sensibilidade aumentada faz com que fatores como a posição muito deitada, o gosto ruim dos materiais utilizados, o cheiro no ar e, principalmente, o barulho das canetas de alta rotação causem grande incômodo, fazendo com que as crianças se sintam vulneráveis.
Comportamento dos pais
A odontopediatra sublinha que o ciclo do pavor muitas vezes é alimentado no ambiente familiar e nas tentativas bem-intencionadas, mas equivocadas, de proteção. “Muitas vezes os pais passaram por uma experiência negativa e acabam transmitindo isso para a criança, mesmo sem querer. Eles absorvem essa questão do medo e, às vezes, por quererem mediar e proteger a criança para que ela não sinta dor, acabam interferindo durante o atendimento, e isso atrapalha. Porque temos toda a técnica para conduzir a consulta, e às vezes o pai, por essa ansiedade e esse receio de que ela sinta medo, interfere de forma negativa”, enfatiza.
Profissional especializado
Diante da sensibilidade infantil e da influência familiar, a presença de um profissional especializado faz toda a diferença no primeiro contato da criança com o consultório. “O dentista contribui no começo tornando o ambiente mais lúdico, se abaixando para receber e conversar com a criança. Temos uma técnica chamada ‘mostrar, falar e fazer’, muito interessante e muito utilizada na odontopediatria. Pegamos um bichinho de pelúcia e demonstramos, passo a passo, aquilo que vamos fazer. Mesmo que ela seja pequenininha, frases curtas e palavras simples já são eficientes para que ela entenda e tenha uma previsibilidade daquilo que vai passar, sempre do mais simples para o mais complexo”, explica.
A dentista reforça que essa abordagem, que começa com procedimentos básicos, como a escovação, e avança gradativamente, é guiada pela capacidade de assimilação do pequeno paciente. “Sempre de acordo com a faixa etária da criança, para que ela consiga entender aquilo que vai acontecer”, menciona.
Além das técnicas lúdicas, o sucesso do primeiro contato com o odontopediatra depende da criação de um ambiente de acolhimento e tranquilidade. A profissional destaca que a forma de interagir e a gestão do tempo de adaptação são cruciais. “Falar com uma voz mais calma, deixar a criança se adaptar ao ambiente, não conduzi-la diretamente para a sala e já colocá-la na cadeira. Deixar que explore, sinta curiosidade e faça perguntas. Essas abordagens são importantes para termos mais sucesso nesse primeiro contato”, conta.
Embora a habilidade do profissional seja primordial, o ambiente físico do consultório desempenha um papel importante no manejo da ansiedade infantil. A dentista explica que, embora seja possível realizar uma boa consulta em qualquer cenário, um espaço preparado tem impacto positivo. “O ambiente do consultório pode fazer diferença. Não é indispensável, conseguimos fazer uma boa consulta mesmo em um ambiente simples, mas contribui positivamente quando é mais colorido, preparado para a criança, com brinquedos, desenhos, interações que a façam se sentir acolhida”, destaca.
Apesar da importância da previsibilidade no consultório, a dentista alerta para o excesso de detalhes fornecidos pelos pais antes da consulta, o que pode prejudicar a abordagem profissional. “Sempre digo que, quando os pais começam a dar muita previsibilidade do que vai acontecer e fogem do script porque não alinharam com o dentista exatamente o que será feito, isso pode confundir e atrapalhar”, esclarece.
Ameaças
Um dos maiores erros cometidos pelos responsáveis é usar o dentista como ferramenta de coerção ou punição em casa, prática que contribui negativamente para a experiência. “É importante evitar ameaçar a criança dizendo que vai levá-la ao dentista. Isso acontece muito: ‘Se não escovar os dentes, vou te levar ao dentista, ele vai fazer uma anestesia, vai arrancar teu dente’. Evitar usar o profissional como ameaça negativa para ela que não está colaborando com a escovação em casa”, orienta Patrícia.
Abordagem especial
Para casos em que o medo é extremo ou há grande dificuldade de colaboração, a odontopediatria moderna dispõe de técnicas avançadas que garantem o tratamento necessário. “Hoje em dia temos diversas técnicas e diversos tipos de sedação que estão cada vez mais presentes na odontopediatria. Graças a Deus, esses recursos permitem atender pacientes com medo extremo, em que o dentista não consegue solucionar a necessidade de forma tradicional”, explica.
O tipo de sedação varia conforme a idade, a necessidade clínica (como cáries ou tratamentos complexos) e a experiência anterior da criança. A especialista menciona o uso de óxido nitroso e a sedação endovenosa, realizada por médicos anestesistas no consultório para casos mais complexos, incluindo pacientes autistas ou com grande dificuldade de colaboração. O procedimento sedativo permite que esses casos sejam resolvidos quando o atendimento convencional não é possível.
A profissional finaliza ressaltando a importância da prevenção para evitar que o medo se instale. A indicação é clara: a primeira consulta deve ser realizada quando nascem os primeiros dentes do bebê.
Esse contato precoce visa “construir um caminho de prevenção, um caminho tranquilo, sem medo e sem dor”, além de assegurar que a família receba orientações corretas sobre alimentação e escovação. Seguir as consultas periódicas, determinadas pelo risco de cárie e pela idade, é o segredo para um caminho “mais simples, mais barato e sem dor”, culminando em uma experiência positiva para pais e filhos.