Com prazo e verba limitados, ponte entre Cotiporã e Bento foi refeita nos moldes antigos como solução urgente após as enchentes, mas tornou-se rota vital para a região e escancara a necessidade de uma estrutura definitiva na serra
Poucos meses após ser reinaugurada em dezembro de 2024, a ponte entre Cotiporã e Bento Gonçalves, sobre o Rio das Antas, voltou a ficar submersa devido às cheias de junho de 2025. A estrutura, destruída durante as enchentes de maio de 2024, foi reconstruída em tempo recorde com recursos majoritariamente da Defesa Civil Nacional. No entanto, manteve as mesmas características da antiga ponte: mesma altura, extensão e localização. Com as fortes chuvas de junho, a ponte foi bloqueada três vezes.
O total dos investimentos na reconstrução é de cerca de R$ 5,5 milhões, sendo R$ 4,5 milhões oriundos da Defesa Civil Nacional, R$ 372 mil do Município de Cotiporã, R$ 372 mil do Município de Bento Gonçalves e R$ 175 mil em doações intermediadas pela ACIV de Veranópolis.
A decisão de reconstruir a ponte com as mesmas características da estrutura antiga ocorreu em função da destinação de um recurso limitado pelo governo federal, que só permitia a construção de uma estrutura baixa e no mesmo molde. Isso ocorreu apesar de declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que indicavam prioridade diferente. Em visita ao Rio Grande do Sul, em maio de 2024, Lula afirmou: “É preciso que a gente pare de correr atrás da desgraça. É preciso que a gente veja com antecedência o que pode acontecer para poder trabalhar.”
Na ocasião, o presidente também disse que o governo priorizaria recursos para obras “efetivas”, capazes de prevenir novos desastres e evitar que a população fosse “vítima duas vezes”. A ponte das Antas, no entanto, foi reconstruída segundo os critérios de “restabelecimento” da Defesa Civil, e não como uma obra definitiva.
O Secretário Executivo da Reconstrução, Maneco Hassen, foi procurado para comentar a liberação dos recursos e o enquadramento da obra, mas não respondeu até o fechamento deste texto.
Entre o ideal e o possível: por que a ponte foi refeita como antes
De acordo com a arquiteta Thais de Marco Taffarel, da Prefeitura de Cotiporã, a antiga ponte ficava debaixo d’água pelo menos cinco vezes por ano. “Desde a primeira construção, o engenheiro já dizia: se quiserem uma ponte que resista, ela vai ter que ser baixa, porque se fizer muito alta vai ficar mais frágil e terá mais chances de ser levada”, contou.
Com a destruição da estrutura em maio de 2024, a prefeitura realizou um estudo hidrológico e chegou a apresentar um projeto para erguer uma ponte acima da cota de cheia. “Seria uma ponte de mais de 600 metros, porque pra ficar acima da cheia teria que erguer mais de 20 metros de altura. Isso custa em torno de R$ 70 milhões”, explica o engenheiro Jeferson Restelli, também da prefeitura de Cotiporã.
Mas, segundo ele, o recurso federal liberado pela Defesa Civil veio com a condição de enquadramento como “restabelecimento”: “Restabelecimento é pra fazer algo rápido. Mesma altura, mesmo tamanho, mesmo local. Era o que dava pra fazer com o que veio. Reconstrução de verdade só se viesse muito mais verba, e talvez o governo não tivesse interesse num município pequeno.”
Para Thais, a obra pode ter sido vista como secundária por se tratar de uma via municipal. “Como a estrada é municipal e não uma ERS, talvez para o Estado não fosse tão interessante investir aqui, principalmente sabendo que vão fazer a ponte de Santa Bárbara.”
Impacto regional: não é só uma ponte municipal
Com a queda da ponte Santa Bárbara (ERS-431) em setembro de 2023, e com os bloqueios frequentes na BR-470 por conta de deslizamentos, a rota entre Cotiporã e Bento Gonçalves passou a ser uma das principais alternativas para ligação entre o norte da serra e centros urbanos como Bento e Caxias do Sul.
O engenheiro Jeferson explica que, mesmo sendo uma via municipal, a ponte tem cumprido um papel regional. “A gente tá servindo aqui de rota também para o pessoal de Nova Prata, Passo Fundo, Guaporé, Serafina, Dois Lajedos, São Valentim… Todo mundo vem por aqui quando a balsa tá fora ou a 470 tá bloqueada”, afirma. “A quantidade de caminhão que passa por ali agora é dez vezes maior que antes. O aumento no tráfego reforça a relevância da ponte para a região”, complementa Thais.
Vida que não espera: quem depende da ponte
Ivandro De Marco Bortoncell, que atua com distribuição de alimentos, relata os desafios enfrentados quando a ponte fica inativa: “Quando tranca com a enchente, a rotina muda por completo. Preciso refazer o roteiro, procurar alternativas… muitas ficam precárias, distantes e inseguras. Foram seis meses de sufoco. Acordava meia-noite e chegava em casa meia-noite e meia do outro dia, só pra ir de Cotiporã a Bento.”
Já o agricultor Maicon Boeri, que comercializa uvas e morangos diretamente com consumidores em Bento Gonçalves, também sente o impacto: “Quando a ponte tranca, o transtorno é enorme. Ao invés de 25 km, preciso fazer 80. E como a gente colhe e entrega direto, atrasa tudo. Tem dia que não consigo entregar todos os pedidos. Fora quando precisa sair com urgência, tipo consulta médica.”