O turismo sempre foi sinônimo de conhecer novos lugares, mas a forma como viajamos está mudando radicalmente. Longe dos roteiros padronizados e das fotos obrigatórias em frente a monumentos, o turismo de experiência emerge como a grande tendência da década, redefinindo o conceito de férias.
Não basta mais estar em um lugar; o viajante moderno quer sentir, participar e viver a cultura local de maneira autêntica. De aulas de culinária com chefs regionais a imersões na vida rural, passando por oficinas de artesanato ou trilhas guiadas por nativos, essa alta busca por experiências memoráveis está transformando o mercado.

Serra Gaúcha
Onde antes havia apenas paisagem, agora há participação. De imersões nas vindimas (colheita da uva), que culminam no tradicional “pisa-pisa” em Bento Gonçalves e Garibaldi, a vivências que resgatam a culinária dos imigrantes italianos, a região oferece um menu de atividades que vai muito além da degustação. Os viajantes buscam a história contada pelas mãos dos produtores.
De acordo com Ana Maria de Paris Possamai, gerente de Turismo da Cooperativa Vinícola Aurora, a empresa foi pioneira no enoturismo brasileiro ao abrir suas portas aos visitantes em 1967. “Atualmente, as experiências vão desde o tour tradicional e gratuito até degustações harmonizadas, minicursos, vivências especiais em salas exclusivas e atividades premium”, conta. Ela detalha que, na unidade de Pinto Bandeira, por exemplo, o visitante encontra experiências únicas, como o wine walk, o piquenique entre os vinhedos e degustações especiais sob agendamento.
Ela destaca também que além do tour tradicional, a Aurora oferece o Minicurso de Degustação. “A experiência inclui uma apresentação sobre a história da cooperativa e uma explicação dos processos de elaboração dos vinhos, sucos e espumantes, seguida da degustação conduzida por um sommelier”, comenta.
Ana ressalta que outra novidade é o Salão Millésime, um espaço inaugurado recentemente para atividades especiais voltadas a grupos, confrarias e degustações exclusivas. Segundo ela, a vinícola também promove experiências de imersão, como a degustação harmonizada de queijos e vinhos e a degustação de espumantes D.O. Altos de Pinto Bandeira, as harmonizações com chocolate e degustações das linhas premium e super premium no Vale dos Vinhedos. Em Pinto Bandeira, o destaque é o Wine Walk, o Piquenique nos Jardins, degustações entre os parreirais e o Garden Station, espaço ao ar livre para consumo de vinhos e espumantes.
Maiquel Vignatti, gerente de marketing da Cooperativa Vinícola Garibaldi, conta que a empresa disponibiliza quatro roteiros: “Uma História para Degustar”, que conta a trajetória da cooperativa e a influência das quatro estações no cultivo das videiras; “Taça & Prosa”, uma degustação comentada por especialistas; “Desperte seus Sentidos”, no qual os visitantes são vendados a fim de ampliar as sensações ao provar os produtos; e “Taça & Trufa”, uma harmonização de vinhos e espumantes com chocolate, menciona.
Já a Casa Valduga destaca o início da Vindima 2026, onde serão oferecidos pacotes especiais para quem decidir viver esse momento. “O pacote de hospedagem da Vindima está marcado para o início de 2026, e o cliente pode escolher entre as datas de 23 a 25 de janeiro e 30 de janeiro a 1º de fevereiro”, explica. A Pousada Boutique inclui seis opções de acomodações, inspiradas em diferentes rótulos de vinhos e espumantes da marca, e o pacote reúne atividades que promovem imersão na cultura e na história da imigração na região.
Entre as programações estão a colheita das uvas, a visita guiada às caves de vinhos e espumantes e a tradicional pisa das uvas. “Durante a estadia, os visitantes serão recebidos com um welcome drink e poderão aproveitar momentos de contemplação e bem-estar, com música ao vivo e gastronomia inspirada nas tradições italianas”, destaca.

Crescimento pela busca
De acordo com Ana Maria, após o período de enchentes registrado no ano passado, em 2025 houve uma retomada dos fluxos de visitação, com níveis semelhantes aos de 2023.
Com a mesma percepção, Vignatti conta que a cooperativa identificou um crescimento do turismo de experiência, sendo mais qualificado que o turismo de massa. “Apesar de recebermos um volume um pouco menor de visitantes, cada vez há mais busca por vivências com maior valor agregado, como novos rótulos, diferentes formas de degustação, novos passeios e ambientes, além da integração entre gastronomia, cultura e educação. Tudo isso mostra que o turista procura experiências mais completas, e é nessa direção que também evoluímos”, conta.

Perfis de consumidores
Ana destaca que a Aurora trabalha com um portfólio diversificado de atrativos para atender a diferentes perfis. “Há opções para famílias, como tours tradicionais e harmonizações mais leves, e experiências aprofundadas para apreciadores avançados, como degustações de linhas premium e vivências focadas em terroir. É uma proposta que dialoga com a nossa história pioneira”, expõe.
Para o gerente de marketing da Garibaldi, o público predominante segue sendo o de visitantes entre 45 e 65 anos. “É um perfil que já possui certa familiaridade com o universo do vinho e busca aprofundamento, vivências diferenciadas e experiências mais completas em vinícolas”, comenta.
Mas Vignatti ressalta que se observa um crescimento significativo entre o público de 25 e 44 anos. “Esse grupo é motivado principalmente por interesse em educação sobre a bebida, temas relacionados à sustentabilidade nas empresas e experiências gastronômicas, fatores que também orientam nossas propostas para o próximo ano”, destaca.
A origem dos visitantes, segundo ele, é majoritariamente nacional, sendo bastante regional. “Cresceu muito a presença de turistas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de um contingente importante vindo de São Paulo. Recebemos estrangeiros, embora em menor número, com predominância de visitantes do Uruguai”, aponta.
O perfil do turista de vinho mudou drasticamente, e hoje ele chega à Serra Gaúcha muito mais informado e com expectativas bem definidas. Vignatti aponta que os visitantes não são mais leigos. “A jornada de decisão começa sempre na internet, seja por redes sociais, plataformas especializadas ou até indicações de agências de turismo, mesmo quando ele organiza a viagem por conta própria. Nesse processo, ele pesquisa referências do destino, entende a cultura local, identifica os estilos de vinhos que pretende degustar e observa também aspectos como gastronomia e outros atributos que a marca e o local oferecem. Dessa forma, ele chega muito mais preparado, com expectativas formadas e interesse claro no que pretende vivenciar. A jornada inicia digitalmente e se completa com a experiência presencial, que passa a ter ainda mais significado pela preparação prévia”, frisa.