Imagine que seu filho ganhasse uma viagem com tudo pago para Marte. Você deixaria que ele fosse, mesmo sem saber nada sobre aquele planeta? Parece absurdo, mas é exatamente o que fazemos todos os dias quando entregamos um celular ou um tablet nas mãos de uma criança sem qualquer orientação.
A comparação pode parecer extrema, mas a internet — este novo “planeta” onde nossos filhos transitam — tem suas próprias regras, seus próprios habitantes e perigos. E o pior: tudo está a um clique de distância. Vou problematizar um pouco mais: você permitiria que seu filho usasse cocaína? Claro que não, né. Mas muitos pais entregam livre acesso a conteúdos tão tóxicos quanto, sem se dar conta. E o pior: filhos viciados em jogos on-line e redes sociais, que liberam tanta dopamina quanto o uso de entorpecentes ilícitos. Já pensou nessa comparação?
Educar é como ensinar a andar de bicicleta: exige presença, paciência e vigilância. É preciso correr ao lado, segurar o guidão por um tempo, soltar aos poucos. No mundo digital não é diferente. É preciso conversar, orientar, estabelecer limites. É necessário dizer “não”, ainda que doa. Amar também é frustrar.
93% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 16 anos estão nas plataformas digitais — isso representa cerca de 24 milhões de jovens. Com quem eles estão falando? O que estão vendo? Quem os influencia? Estamos perdendo espaço para os algoritmos, para os “influencers” e para os fóruns anônimos que respondem aquilo que nós, adultos, evitamos conversar.
O que deveria ser ferramenta virou território. Um lugar onde muitos se perdem sem nem saber. A ausência dos pais não é só física. Falta tempo, paciência, disposição. Falta escuta. Falta presença real — aquela que não divide atenção com a tela do próprio celular. Largamos nossos filhos nesse “planeta Marte” e ainda os deixamos pilotar sozinhos.
Vivemos uma epidemia de saúde mental. A OMS alerta: 75% dos transtornos psicológicos começam na infância. O SUS já registra aumento de 2500% nos atendimentos em saúde mental nos últimos anos. A geração Z, entre 13 e 28 anos, é hoje a mais ansiosa da história. O suicídio entre jovens de 15 a 25 anos é alarmante. As crianças estão gritando e, às vezes, é em silêncio.
Automutilação, exposição a conteúdo pornográfico, jogos violentos, aliciamento, desafios perigosos: tudo isso acontece dentro do quarto, com a porta fechada, enquanto os pais acham que “está tudo bem”. Mas não está.
Estar presente não é vigiar como um carcereiro, mas também não é largar. É caminhar junto, orientar, conversar sobre o que foi bom e ruim no dia. É tirar o celular do quarto à noite, é filtrar o conteúdo, é ensinar a esperar, a questionar. É ser porto seguro. É ser exemplo.
Não se trata de demonizar a tecnologia. Ela veio pra ficar. Mas precisamos de equilíbrio. Nem autoritarismo, nem permissividade. Precisamos sair do discurso e entrar no diálogo. Ensinar a refletir. Estar presente de verdade. Educar dá trabalho, mas largar o celular à mercê não é a solução.
Porque nenhuma inteligência artificial vai substituir o amor, o afeto e o olhar atento de quem cuida. Cuidar de si mesmo também é um ato de sobrevivência — e, para os filhos, um exemplo que vale mais do que qualquer discurso.
Cuide. Proteja. Esteja lá. Antes que um clique silencioso fale mais alto do que sua voz. Se você morreria por um filho, por que não começa a viver por ele?