As chamadas “febres da internet” são fenómenos que surgem quase do nada, espalham-se em alta velocidade e logo dominam as redes sociais, tornando-se parte do dia a dia de milhões de pessoas por um curto período de tempo. De brinquedos colecionáveis a filtros de vídeo, músicas e memes, esses sucessos instantâneos têm em comum a força do compartilhamento e a lógica algorítmica das plataformas digitais. O que antes demorava semanas ou meses para se popularizar, hoje pode viralizar em questão de horas, impulsionado pelo engajamento de influenciadores, pela repetição em vídeos curtos e pelo apelo visual ou emocional que desperta a curiosidade. Mas, da mesma forma que surgem, esses fenômenos também caem com rapidez, abrindo espaço para a próxima tendência que ocupará a atenção coletiva da internet.
De acordo com Isadora Deamici da Silveira, psicóloga e mestre em psicologia, as febres da internet costumam nascer da combinação entre estímulos visuais marcantes, gatilhos emocionais e estratégias de mercado. “Podemos analisar isso pelos gatilhos de afiliação e reconhecimento, aliados aos nossos desejos de consumo. As pessoas querem fazer parte, pertencer a um grande grupo. Esses elementos, muitas vezes fofos ou com um certo grau de excentricidade, despertam a curiosidade e reforçam o desejo de se integrar a uma tendência”, explica.

Viralização: uma explosão de alcance
Segundo a psicóloga, esse fenômeno está diretamente ligado a fatores cognitivos e sociais. “Novidade, facilidade de reprodução, potencial de imitação e resposta emocional imediata são determinantes. Quanto mais um item desperta emoções, sejam elas de encantamento, surpresa ou até humor, maiores são as chances de viralizar”, destaca.
As redes sociais têm um papel central na disseminação das chamadas febres da internet. Mais do que simples plataformas de compartilhamento, elas funcionam como verdadeiros aceleradores de contágio social. Isadora compara esse processo a um grande centro de consumo coletivo. “Podemos pensar as redes como o novo ‘shopping center’ da coletividade, onde vemos na vitrine as tendências das quais queremos fazer parte”, afirma.
Segundo ela, os algoritmos intensificam ainda mais esse movimento, ao selecionar e impulsionar os conteúdos que recebem maior engajamento em pouco tempo. Esse mecanismo cria um efeito de “bola de neve”, capaz de transformar algo pontual em um fenômeno global. Isadora lembra ainda que, nesse cenário, muitas pessoas podem sentir-se pressionadas a aderir às tendências, motivadas pelo receio de ficarem de fora. “Temos uma síndrome chamada FOMO (Fear of Missing Out), o medo de perder algo. Esse sentimento potencializa o desejo de participação e reforça o ciclo das febres virtuais”, explica.

O ciclo do comportamento coletivo
Embora seja possível identificar padrões, prever o comportamento coletivo nas redes sociais exige cautela. Isso porque, quando se trata de comportamento humano, a adaptabilidade e a imprevisibilidade precisam sempre ser consideradas. A psicóloga explica que, de forma geral, as febres da internet costumam seguir um ciclo. “O movimento acontece em quatro etapas: curiosidade, imitação, saturação e declínio”, aponta.
Nesse processo, as pessoas inicialmente são movidas pela curiosidade, querem ser as primeiras a ter ou participar, e logo depois passam a buscar a sensação de pertencimento ao grupo. Porém, quando a tendência atinge a fase de saturação, o excesso de exposição provoca desgaste e perda de interesse. “Nesse momento, ela é substituída por outra, reiniciando o ciclo”, completa.
As febres da internet também cumprem uma função social importante, ao oferecerem um espaço de pertencimento simbólico. São tendências que se constroem a partir de elementos universais, capazes de dialogar com diferentes públicos e contextos. Esses movimentos costumam apoiar-se em aspetos como afeto, nostalgia, humor e estética. “Um personagem como o Labubu, por exemplo, ativa ao mesmo tempo o senso de ‘fofura’ e o de ‘estranhamento’”, explica. Outro ponto que potencializa esse alcance é o compartilhamento entre gerações dentro das redes. Quando pais e filhos, ou mesmo avós e netos, interagem com o mesmo conteúdo, a tendência ganha ainda mais força e abrangência, reforçando o engajamento coletivo.
Essas febres digitais nem sempre ficam restritas ao ambiente virtual. Muitas vezes, elas ultrapassam as telas e se transformam em produtos culturais ou comerciais, alcançando diferentes dimensões do cotidiano. Esse movimento impacta diretamente os hábitos sociais. “Essas tendências podem se materializar em bonecos, roupas, campanhas publicitárias, e acabam influenciando desde comportamentos de consumo e desejos até a moda e a linguagem popular”, afirma. Para ela, esse fenômeno revela a força das redes na atualidade. “A internet é, ao mesmo tempo, um espelho e um motor de mudança cultural”, completa.

O papel do utilizador na cultura digital
O papel do utilizador é fundamental nesse processo. Na cultura digital, ele atua como coautor e co-consumidor, participando ativamente da criação e disseminação de conteúdos. Ela explica que esse caráter participativo é uma das forças que mantém as tendências vivas. “Consumir, na internet, muitas vezes é também criar. As pessoas misturam, reinterpretam e adicionam camadas ao conteúdo original. Quanto mais conteúdo uma tendência gera, mais relevante ela se torna”, observa.
Acrescenta ainda que a possibilidade de personalização e “brincabilidade” amplia ainda mais a longevidade das febres digitais. “Quanto mais uma tendência pode ser adaptada e apresentada de formas diferentes, maior a chance de se manter ativa, adiando a fase de saturação”, completa.

Por que as febres decaem
A saturação é apontada como a principal causa do declínio das febres da internet. Quando uma tendência se torna excessivamente presente, seu impacto emocional e cognitivo diminui, e ela perde o status de novidade. A psicóloga observa que isso se aplica até mesmo aos memes. “Quando algo se torna onipresente, deixa de provocar surpresa e interesse. Ao mesmo tempo, o surgimento de novas tendências desloca a atenção do público”, explica. Ela ressalta que esse é um ciclo natural das redes sociais. “As pessoas sempre querem ser as primeiras a ter acesso, compartilhar e fazer parte de uma tendência. À medida que a novidade se esgota, o interesse diminui, e outra febre rapidamente ocupa seu lugar”, completa.
Apesar de existir um padrão geral de surgimento e declínio, elas apresentam grande variação, justamente por serem cada vez mais rápidas e imprevisíveis. A complexidade e a adaptabilidade de uma tendência influenciam sua longevidade. “Tendências mais simples tendem a ter vida curta, enquanto as mais complexas ou facilmente adaptáveis conseguem entrar no repertório cultural e ganhar novos contextos. Algumas chegam até a se transformar em subculturas mais ‘nichadas’”, observa. Mesmo assim, ela ressalta que, de modo geral, o ciclo de vida dessas tendências é curto, reforçando a natureza efêmera e dinâmica da cultura digital.

O que esperar das próximas tendências
É possível antecipar quais tendências terão maior longevidade nas redes sociais, mas com certo grau de cautela. O comportamento digital é dinâmico e muitas vezes imprevisível. Alguns fatores podem indicar maior permanência de uma tendência. “Aquelas que são mais ‘interativas’ e que se conectam a temas amplos, como identidade, humor coletivo ou resistência, tendem a durar mais”, explica. Ela acrescenta que a capacidade de reinvenção também é determinante. “A longevidade depende do quanto a tendência pode se adaptar e se reinventar com o tempo. A cultura de consumo adora o novo, mas rejeita o que já se tornou antigo”, completa.
Segundo ela, as febres da internet vão além de simples tendências passageiras, refletem necessidades humanas profundas, revelam o desejo constante de pertencimento, de novidade e de expressão pessoal. Essas tendências funcionam como um espelho do anseio por conexão, emoção e validação. “Elas mostram como o comportamento de grupo, amplificado pelos algoritmos das redes sociais, molda o que percebemos como ‘valioso’ ou ‘desejável’”, afirma. Para ela, o fenômeno vai muito além de personagens como Labubu ou o morango do amor. “No fundo, trata-se da nossa necessidade de mostrar ao mundo quem somos, o que sentimos e como queremos ser vistos. O consumo não é apenas material; ele também é simbólico e psicológico”, conclui.