No filme “O Brutalista”, no qual Adrien Brody foi vencedor do Oscar de melhor ator, há um momento em que a esposa do protagonista, quando perguntada sobre o que ela estava olhando, debruçada sobre os projetos de arquitetura feitos pelo seu marido, responde ao mesmo: “estou olhando para você”.
Isso parece algo banal, ou uma resposta sem conexão, mas não, se trata de algo profundo, pois, naqueles projetos, em cada linha, em cada traço, em cada ângulo, estava a personificação da pessoa que amava, ou seja, a esposa o conhecia além do espelho, do face a face, o conhecia na sua plenitude e o desenho era a expressão maior do seu EU mais íntimo, por assim dizer, a “nudez” do seu caráter.
Decifrar as pessoas, mesmo aquelas que conhecemos ou pensamos conhecer, até mesmo aquelas que amamos e com quem convivemos, requer cuidado, requer atenção e prudência, pois, num conceito diminuto da expressão humana, somos caixinhas de surpresas e tentar abri-las, fecha-las na hora errada ou tentar colocar algo que não caiba ou ainda retirar algo sem a devida parcimônia e autorização… pode causar danos.
Sim, decifrar pessoas, pode-se dizer, é uma arte, sujeita a alegrias e decepções de quem vive o mundo real. Contudo, há quem diga que tal prática, se habitual, deixará de resolver a equação da própria vida, de conhecer a si mesmo, pois estará sempre a queimar a linha tênue do pecado dos julgamentos e de seu precioso tempo.
Há algumas pessoas, porém, que pela própria função, cargo, profissão ou vocação que ocupam na sociedade, via de regra nos levam a estabelecer um ‘pré-conceito’, não no sentido pejorativo, mas, de certa forma, somos inclinados a presumir que, sem mesmo decifrá-los, no mínimo jamais, atentarão contra isso ou àquilo.
Ao nos decepcionar em tais casos, seja pela descoberta do que era escuso, seja através de declarações públicas de própria autoria, não há mais de se falar em pré-conceito, mas revela sim, um conceito ou elementos suficientes para tanto. Por certo, revela traços do caráter e com ele a existência ou não de valores morais, em sintonia ou não com a chamada liturgia do cargo.
Quanto se trata, então, de declarações do chefe supremo do Estado, não é de hoje, o Brasil já foi vítima de decepções que não se limitam a regimes de governo e/ou siglas político-partidárias. Ouvimos frases como: “o cheirinho do cavalo é melhor do que o do povo”, em 1978; “o Brasil vai bem, o povo que vai mal”, na hiperinflação de 1985; “vamos acabar com os marajás”, o que terminou em impeachment; “marolinha” na crise dos EUA, em 2008; “gripezinha”, em 2020, referindo-se à recente pandemia de Covid-19…
Fato é que o pacífico povo brasileiro, enquanto se calar, será sempre e somente ouvidos para tais declarações nada republicanas.
A propósito, recentemente, seguindo o script dos políticos profissionais: declaração–mídia–arrependimento–mídia, o presidente Lula se superou ao afirmar que “traficantes são vítimas de usuários também”.
Um improviso desmerecedor de qualquer tribuna ou quiçá palanque, pareceu até mesmo um novo relativismo, antes dissera em relação a democracia, agora, seria ao crime?
Tal declaração, sem qualquer sintonia com o cargo maior da República, revela sem relativismos que talvez…nunca, nunca na história deste país, os valores morais foram tão invertidos; talvez…nunca, nunca na história deste país, acreditar no sábio ditado “o coração está cheio do que a boca fala” foi tão preocupante… ou verdadeiro.
Enfim, talvez…nunca, nunca na história deste país, antes que me condenem, diga-se, sem ferir a soberania nacional, a famosa frase do presidente americano Abraham Lincoln se fez tão atual: “você pode enganar uma pessoa por muito tempo, algumas por algum tempo, mas não consegue enganar todas por todo o tempo”.
Vamos em frente!