Em um calendário repleto de causas, o mês de novembro ganha um tom de esperança e urgência com a campanha Novembro Dourado. Tradicionalmente dedicado à conscientização e ao combate ao câncer infantojuvenil, este período culmina no dia 23, marcado como o Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil. O mês reforça a importância vital do diagnóstico precoce e da informação para mudar o prognóstico de milhares de crianças e adolescentes.
De acordo com as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a luta contra o câncer infantojuvenil no Brasil é uma causa de crescente urgência. Para o triênio 2023-2025, são esperados 7.930 novos casos anuais em crianças e adolescentes (0 a 19 anos), o que representa um risco alarmante de 134,8 casos a cada milhão de jovens nessa faixa etária.
A doença não afeta o país de maneira uniforme: enquanto as regiões Sul e Sudeste registram as maiores taxas brutas de incidência, a região Norte apresenta os números mais baixos.
De acordo com os dados divulgados pelo INCA entre 2014 e 2018, os cânceres mais presentes entre as meninas são:
- Leucemias e linfomas: 34,6%;
- Tumores sólidos: 39,5%;
- Tumores do sistema nervoso central: 19,5%;
- Neoplasias não especificadas: 6,5%;
Já entre os meninos, os mais comuns são: - Leucemias e linfomas: 44,5%;
- Tumores sólidos: 27,9%;
- Tumores do sistema nervoso central: 21%;
- Neoplasias não especificadas: 6,6%;
De acordo com Ângela Rech Cagol, médica pediatra, o mês é especial para reforçar a prevenção de doenças oncológicas. “Vale lembrar que quanto antes tivermos o diagnóstico, melhor para o tratamento e cura desta criança”, destaca.
Tabu
Muitas pessoas acabam não gostando da palavra ‘câncer’ por associarem muitas vezes a sofrimento e até mesmo à morte. “Quando se trata de crianças e adolescentes esse medo se intensifica, e as pessoas evitam falar sobre o tema. Além disso, existe um baixo conhecimento acerca do assunto, sobre perspectivas de tratamento e cura, que são bem diferentes de quando se fala nisso para adultos. Logo, essas campanhas servem para esclarecimentos e quebra deste ‘tabu’”, determina a médica.
Principais sinais a serem observados
Ângela destaca alguns alertas a serem percebidos nas crianças, como:
- Perda de peso;
- Febre inexplicada;
- Sangramentos;
- Hematomas;
- Inchaços em partes do corpo e presença de ínguas;
- Perda de equilíbrio;
- Tontura;
- Cefaleia;
- Vômitos e queixa de dor em membros ou abdominal.
Além desses, alguns sintomas podem ser confundidos com outras doenças. “Isso pode mascarar o diagnóstico muitas vezes”, pontua a médica.
Fatores de risco
Embora a principal característica do câncer infantojuvenil seja a ausência de fatores de risco identificáveis na maioria dos casos, a medicina alerta para a existência de grupos com maior probabilidade de desenvolver a doença.“Embora a maioria das crianças não tenha nenhum fator de risco identificável, existem alguns grupos com maior probabilidade de desenvolver a doença. Esses fatores geralmente estão relacionados a condições genéticas, doenças prévias ou exposições específicas. Dentre elas, citamos a Síndrome de Down, Neurofibromatose Tipo 1 e Anemia de Fanconi. Também incluem crianças com doenças que causam imunodeficiência, e histórico familiar forte de câncer na infância. Dentre as exposições prévias, citamos crianças que fizeram radioterapia e mães que sofreram irradiação na gestação”, observa.
Diagnóstico
Quando há suspeita de câncer em crianças ou adolescentes, a checagem é construído por meio de uma combinação de avaliação clínica e exames que buscam identificar e localizar a doença. Os mais comuns solicitados são:
- Hemograma completo;
- Bioquímica sanguínea;
- Exames de urina;
- Ultrassonografia (USG);
- Radiografia (Raio-X);
- Tomografia Computadorizada (TC);
- Ressonância Magnética (RM).
A médica salienta que os cânceres infantis são diferentes dos diagnosticados em adultos. “Isso é tanto na origem quanto no comportamento, nos tipos mais comuns e até na resposta ao tratamento”, aponta.
Novidades no tratamento
O cenário do manejo oncológico pediátrico está em constante evolução, apresentando novidades promissoras que acendem a esperança no combate à doença. O foco atual tem se voltado intensamente para a imunoterapia, uma abordagem revolucionária que utiliza o próprio sistema de defesa da criança contra as células malignas. “Temos as imunoterapias (que modificam as células T para que ataquem o câncer) e que já vêm sendo utilizadas nas leucemias. E, no Brasil, o INCA já está desenvolvendo um protocolo para abaratar a produção desse tratamento. Há também avanços em termos de novos protocolos de tratamento quimioterápico, que utilizam quimioterapia convencional associada a imunobiológicos”, aponta Ângela.
Dados regionais
O Rio Grande do Sul, estado com a maior taxa bruta de incidência, projeta aproximadamente 400 novos casos de câncer infantojuvenil por ano, com uma leve predominância entre meninos (210) sobre meninas (190), segundo o INCA.