Nos fizeram acreditar que o sol, fonte de vida, era inimigo da pele e que traria câncer se não houvesse proteção.
Nos fizeram acreditar que o pão, símbolo de partilha, era o vilão da mesa e deveria ser eliminado do cardápio.
Nos fizeram acreditar que falar de política era arrumar briga, quando, na verdade, é debater cidadania.
Nos fizeram acreditar que o leite inflama e precisa ser cortado; que o ovo é inimigo do colesterol; que o salame artesanal, feito com carinho pelo avô, deve ser proibido em nome da saúde.
Nos fizeram acreditar que o ócio é pecado travestido de preguiça, que só o acelerado triunfa.
“Trabalhe enquanto os outros dormem”, repetiam, como se a exaustão fosse medalha de honra.
Nos fizeram acreditar que relações se descartam como embalagens: brigou, separa; divergência, afasta; dor, evita.
Nos convenceram de que amar é simples, mas cultivar amor é perda de tempo.
Nos fizeram acreditar que ser bons pais é oferecer tudo: viagens, brinquedos, festas, experiências sem fim — desde que não haja frustração. Como se frustrar não fosse também aprender.
Nos venderam o sucesso em planilhas motivacionais, em cursos rápidos de “coaching”, em frases prontas ditas por quem não vive o que prega.
Nos fizeram acreditar que a pertença se compra: no remédio manipulado da moda, na roupa da marca, no celular que “envelhece” em dois anos.
Nos disseram que festa de criança precisa de bufê caro, lembrancinha personalizada, fotos instagramáveis — porque bolo simples em casa já não basta.
Nos ensinaram que corpo fora do padrão é feio, que envelhecer é fracasso, que simplicidade é sinônimo de falta.
E nós acreditamos.
Acreditamos tanto que confundimos ter com ser.
Confundimos barulho com alegria, aparência com felicidade, pressa com produtividade.
Passamos a medir valor em curtidas, e não em olhares.
Em conquistas materiais e não em memórias partilhadas.
Esquecemos que a vida é feita de pão quente dividido à mesa, de sol no rosto sem medo, de conversas longas sem relógio.
Esquecemos que política é cuidar do bem comum, que fé é ponte e não muro — e que, mesmo em crenças diferentes, ainda podemos sentar juntos à mesma mesa.
Que filhos precisam mais de pais presentes do que de presentes caros.
Que amigos verdadeiros não exigem performance.
Que o corpo que temos é o corpo que nos sustenta e que o tempo que passa não é derrota: é lapidação.
Talvez seja hora de desobedecer às crenças impostas.
De escolher a simplicidade.
De voltar ao essencial: o que se sente, o que se vive, o que se é.
Dar dois passos para trás pode ser o maior avanço.
Porque, no fim, não nos roubaram os valores.
Eles apenas adormeceram.
Nós os trocamos — sem perceber — por ilusões embaladas para consumo.
E só depende de nós resgatá-los.