Por muito tempo, amar foi entendido como destino. Casar, formar família, permanecer junto “até que a morte os separasse” fazia parte de um roteiro social pouco questionado, especialmente no Ocidente. Hoje, porém, esse script vem sendo reescrito. Novas formas de relacionamento ganham visibilidade, provocam debates e expõem tensões entre tradição e mudança. Para a psicóloga Pâmela de Freitas Machado, esse movimento não é repentino nem superficial: ele reflete transformações históricas, sociais, culturais e subjetivas profundas.
Segundo a especialista, um dos principais motores dessa mudança é a redefinição do papel da mulher na sociedade. “Na medida em que nós passamos a poder exercer outros papéis, que não apenas o de esposa, o relacionamento deixa de ser visto como um fim inevitável e passa a ser uma possibilidade de escolha”, explica. Essa mudança altera a base sobre a qual os vínculos afetivos se constroem: não mais a obrigação ou a determinação social, mas a busca por satisfação, desejo e sentido.
Mudanças
A ideia de que estar com alguém é uma escolha, e não uma imposição, transforma radicalmente a forma como as relações se organizam. Pâmela lembra que, até poucas décadas atrás, especialmente durante a ditadura militar no Brasil, havia pouco espaço para questionar modelos tradicionais. A partir do fim do regime e do fortalecimento de movimentos sociais, sobretudo os ligados às mulheres, à diversidade sexual e aos direitos civis, os relacionamentos passaram a ser pensados de forma mais livre e crítica. “Eu quero me relacionar não porque tenho que me relacionar, mas porque isso me gera satisfação”, resume. Essa lógica desloca o amor do campo da obrigação para o campo da escolha constante, que pode ser revista, renegociada e ressignificada ao longo do tempo.
Vínculos em debate
Nesse cenário, a monogamia deixa de ser encarada como algo instintivo. Para a psicóloga, trata-se de um acordo moral e social, fortemente influenciado pelo cristianismo e pela colonização europeia. “A monogamia não é algo dado biologicamente. É um acordo social que, durante muito tempo, não foi questionado”, afirma. Mais especificamente, é um modelo de relacionamento onde há exclusividade afetiva e/ou sexual com apenas um parceiro, seja por toda a vida ou em períodos sucessivos, contrastando com a poligamia ou o poliamor. Em outras culturas, especialmente orientais, existem, outras formas de organização afetiva e familiar.

Isso não significa, porém, que a monogamia esteja com os dias contados. Pelo contrário. Pâmela observa uma ambivalência típica das sociedades contemporâneas: ao mesmo tempo em que surgem novas configurações afetivas, há um fortalecimento de rituais tradicionais, como casamentos formais e celebrações clássicas. “As formas morais não desaparecem; elas se transformam, encontram outras roupagens. Além disso, há muito tabu em torno do sexo que influencia diretamente nos relacionamentos, já que o sexo é pensado num primeiro momento para reprodução, tendo uma mudança ao longo dos anos no seu entendimento como satisfação sexual”, avalia.
Relacionamentos abertos, poliamor e limites emocionais
Entre as novas configurações que mais despertam curiosidade, e controvérsia, estão os relacionamentos abertos e o poliamor. Embora ganhem espaço no debate público, ainda são experiências restritas a determinados grupos e contextos. No Rio Grande do Sul, especialmente no interior, Pâmela considera essas práticas distantes de uma realidade mais ampla, em razão de uma cultura mais conservadora e do receio da exposição social.
No relacionamento aberto, os parceiros estabelecem, em comum acordo, a possibilidade de se envolver sexual ou afetivamente com outras pessoas. Ao contrário do imaginário que associa esse modelo à infidelidade, trata-se de uma escolha baseada no consentimento e no diálogo. As regras são definidas conforme os limites de cada casal, e o vínculo principal permanece sustentado pelo compromisso, pela confiança e pelo afeto. Para muitos, essa configuração permite vivenciar desejos individuais sem romper a relação central.
Já o poliamor diz respeito à vivência de mais de um relacionamento amoroso ao mesmo tempo, sempre com o conhecimento e a aceitação de todos os envolvidos. Diferentemente do relacionamento aberto, o foco não está apenas na liberdade sexual, mas na construção de laços afetivos múltiplos e profundos. Essas relações podem se organizar em redes, nas quais os parceiros compartilham convivência, responsabilidades e momentos de intimidade emocional.
Mesmo quando há desejo consciente de abrir a relação, os desafios emocionais são grandes. “Uma coisa é o acordo racional que o casal faz; outra é lidar com o envolvimento emocional que surge na prática”, explica. Sentimentos como ciúme, competição e insegurança costumam emergir, revelando o quanto o amor romântico, marcado pela ideia de posse e controle, ainda atravessa os sujeitos, muitas vezes de forma inconsciente.

Para a psicanálise, dentro da abordagem com a qual a psicóloga trabalha, não existe um “perfil mais ou menos monogâmico”. O que existe são sujeitos formados dentro de uma sociedade que naturalizou certos padrões. Romper com eles exige mais do que vontade: requer autoconhecimento, diálogo e disposição para lidar com frustrações e limites. “Além disso, depois de abrir a relação, é preciso ter vários acordos muito bem amarrados e saber lidar com as situações que podem ocorrer. Uma coisa é fantasiar, outra é vivenciar na prática”, evidencia.
Uma circunstância que pode acontecer é a competição. “Se a pessoa saiu com alguém e o outro não, pode haver conflitos e necessidade de controle. Um do casal pode achar que está em desvantagem em relação ao outro, já que muitos entram nesse tipo de relacionamento achando que tudo vai ser igual ao que era antes”, explica.
O impacto do digital nos vínculos
Se as formas de amar mudam, os meios de se relacionar também. O mundo digital, segundo Pâmela, é hoje inseparável da vida afetiva. Aplicativos, redes sociais e mensagens instantâneas não apenas facilitam encontros, mas moldam a comunicação dentro dos relacionamentos. “Hoje, até casais que moram juntos se comunicam pelo WhatsApp. Isso também constitui a linguagem do casal”, observa.
Esse atravessamento do virtual traz ganhos e perdas. “Se, por um lado, amplia possibilidades de contato, por outro pode empobrecer a presença e a comunicação “olho no olho”. Não à toa, a queixa mais comum nos consultórios é a dificuldade de comunicação, muitas vezes apenas a ponta de um iceberg que envolve expectativas não ditas, acordos inconscientes e conflitos mais profundos”, enfatiza a psicóloga.
Preconceito e liberdade
A busca por terapia de casal também vem mudando, especialmente após a pandemia. Aos poucos, a ideia de que ela é apenas o último passo antes da separação perde força. “Não separa nem une um casal. Ela mostra a dinâmica de funcionamento daquele vínculo. O que acontece é que os que chegam já estão num cenário onde era a opção mais clara. Já poliamores em grupo não constumam buscar a terapia, pela exposição e pelo fato de romper com uma moralidade prescrita”, explica Pâmela. Isso vale para casais monogâmicos, relacionamentos abertos ou até configurações menos comuns, como trisais.
Na psicologia, não importa o que profissional pensa se é certo ou errado esse tipo de relação. “Não cabe julgar, mas sim ser um facilitador ao trabalhar para que as pessoas tragam para a consciência aquilo do campo inconsciente. O papel é entender o funcionamento e que seja uma ferramenta de escolha”, indica.
Há ainda terapeutas que vão dizer que a monogamia tem um prazo de validade, mas Pâmela acredita ser difícil essa realidade se tornar real. “Por uma perspectiva histórica e moral, e baseado também no pós-estruturalismo, com autores como o próprio Foucault vai dizer que a gente cristaliza formas morais de viver. A monogamia não tende a acabar. Ao mesmo tempo que temos transformações sociais importantes que trazem a diversidade, há um aumento no número de casamentos. Dessa forma, estamos sempre diante de uma ambivalência quando falamos de um funcionamento social”, ressalta.
O preconceito social pesa, principalmente para quem foge dos modelos tradicionais. A psicóloga lembra que essas pessoas enfrentam desafios adicionais, tanto dentro da relação quanto na interação com a família e a sociedade. Nesse contexto, o papel do profissional não é julgar nem validar escolhas, mas ajudar a tornar consciente aquilo que muitas vezes opera no campo do inconsciente. “Quanto mais a pessoa entende como funciona, mais liberdade de escolha ela tem. Cada um tem que compreender o que não abre mão em um relacionamento, dos seus limites e do outro”, resume.
A ferramenta principal, segundo ela, é trazer aquilo que está inconsciente, o que os indivíduos da relação não percebem dentro de sua comunicação. “O óbvio também precisa ser dito”, finaliza.
Outras formas de relacionamento:
Relações não monogâmicas éticas:
A não monogamia ética funciona como um conceito abrangente para diferentes formas de relacionamento que não seguem a exclusividade tradicional. Nesse grupo estão incluídos tanto os relacionamentos abertos quanto o poliamor, entre outras possibilidades. O princípio central é a transparência: honestidade, consentimento e comunicação constante orientam as escolhas. A proposta é questionar a ideia de que amor e compromisso precisam ser exclusivos, sugerindo que eles podem coexistir de maneiras diversas.
Relacionamento de companheirismo:
Conhecido também como parceria de vida ou amizade colorida, esse tipo de relação envolve duas pessoas que decidem dividir o cotidiano e, em alguns casos, o mesmo espaço, sem que haja necessariamente envolvimento sexual ou romântico. O que sustenta a relação é o vínculo emocional, a cooperação e o apoio mútuo. É uma alternativa para quem não se reconhece nos modelos tradicionais, mas busca estabilidade, cuidado e conexão duradoura.
Relacionamento à distância:
Embora não seja um modelo novo, o relacionamento à distância ganhou novos contornos com o avanço da tecnologia. Ferramentas digitais tornaram possível manter contato frequente e fortalecer laços mesmo com a separação geográfica. Ainda assim, trata-se de uma experiência que exige confiança, comunicação constante e comprometimento, já que a ausência física impõe desafios adicionais à construção da intimidade.