“Saí de Garibaldi e dei com a cara no rio: sem ponte e sem balsa”, diz caminhoneiro morador de São Valentim do Sul
Enquanto usuários esperam há mais de um ano pela reconstrução da ponte de Santa Bárbara, a cratera na ERS-431, aberta desde as enchentes de maio de 2024, segue cedendo e agravando a situação de comunidades na Serra Gaúcha. Nesta terça-feira (1º), moradores e caminhoneiros relataram o impacto direto do descaso com a malha viária e a dependência da balsa — única alternativa à ponte destruída em setembro de 2023.

Falta de infraestrutura deixa caminhoneiro preso na rota
Lauri Antônio Gracioli, caminhoneiro há 44 anos e morador de São Valentim do Sul, se deparou com a balsa inoperante ao retornar de viagem e reclamou da ausência de qualquer aviso oficial. “Eu cheguei de viagem do Pará, não tive informação nenhuma de que a balsa não estava funcionando. É uma falta de comunicação e descaso com a população. E a ponte eu só acredito vendo. O ex-prefeito de São Valentim disse que em um ano e meio nós íamos passar em cima da ponte — já passou não sei quanto tempo. Eu saí de Garibaldi e dei com a cara no rio, sem ponte e sem balsa. A balsa está trancada pelo lado de lá. E se tivessem me comunicado, eu não teria descido. Sou morador de São Valentim do Sul e estou há 40 dias fora de casa, e não vou poder chegar em casa. Vou ter que dormir aqui, porque a ponte de Cotiporã não libera o tamanho do meu caminhão. Como que eu vou passar com a carreta? Vou voltar para Bento, para descer por Roca Sales?”, questiona.
Na manhã desta quarta-feira, 2 de julho, a balsa voltou a operar. O serviço estava suspenso desde o final de semana, em razão das fortes chuvas que elevaram o nível do rio e tornaram a correnteza mais intensa, comprometendo a segurança da navegação.
A empresa responsável pela operação da balsa, informou que a travessia é retomada apenas quando há condições seguras. Segundo o responsável técnico Celso Heberle, a comunicação é feita por meio de informativos encaminhados a grupos com usuários.
“Nós temos um informativo, que enviamos para os grupos. Mas é uma comunicação certa. Nós não fazemos previsão, porque o rio não tem previsão. O rio é só vendo, se subiu ou se desceu. Tudo, com segurança”, explicou.
Usuários interessados em receber atualizações sobre o funcionamento da travessia podem acessar o grupo de WhatsApp da empresa por meio deste link: clique aqui para entrar no grupo.
O Executivo de São Valentim do Sul não respondeu aos questionamentos enviados sobre o funcionamento da travessia nem explicou como a comunicação oficial com os usuários é realizada.
Morador cobra promessas e denuncia abandono
Itajiba Soares Lopes, que participou da mobilização em abril deste ano cobrando a reconstrução da ponte de Santa Bárbara, também criticou a lentidão nas obras e a precariedade da infraestrutura da região.
“Na minha opinião foi um descaso total das autoridades, do governador e do secretário Costella. A gente chegou a se reunir em São Valentim e ele nos prometeu uma coisa e não cumpriu. Tem trechos da rodovia que ainda estão em péssimas condições, já se passou mais de um ano. Em vários lugares já foram feitas pontes, refeitas estradas, e nós aqui, praticamente abandonados: comunidade de Santa Bárbara, São Valentim do Sul, pessoal que depende desta ponte”, afirma.
Ele reforça que os desvios são longos e perigosos:
“A ponte de Cotiporã quebra um galho, mas agora quando dá uma enchente, fica embaixo d’água. Nós já fizemos dois protestos. Já teve resultado, mas, se precisar, vamos trancar tudo de novo, porque não tem condições. Se eles não olharem para essa região, fica muito difícil”, conclui Itajiba.

Obras prometidas
Segundo o deputado estadual Guilherme Pasin (Progressistas), a fase de estudos para a reconstrução da ponte de Santa Bárbara foi concluída, e a autorização do projeto deveria ter ocorrido na sexta-feira, 27 de junho. A previsão é de que as obras comecem até o final da primeira semana de julho. A Casa Civil do Estado foi questionada sobre o início efetivo das obras, mas não respondeu até o momento.
Já sobre a ERS-431, o Daer informou que foram destinados R$ 3,4 milhões à região para serviços emergenciais, além de R$ 101 milhões em investimentos no trecho de 22,85 km entre Bento Gonçalves e São Valentim do Sul, incluindo recuperação do pavimento, contenções e reforço de cabeceiras de pontes. A empresa responsável está atuando com serviços preliminares, como tapa-buracos e roçadas. “Estudos geológicos, sondagens e projetos de contenções estão sendo elaborados para qualificar a rodovia”, diz a nota.
Pasin também protocolou um pedido de intervenção emergencial no trecho onde está a cratera, apontando que a falha coloca em risco a trafegabilidade, o escoamento da produção regional e a segurança dos motoristas.