Com a chegada do inverno, a tradicional preocupação com resfriados e gripes se intensifica. É quase um consenso popular que as baixas temperaturas são as grandes vilãs, e muitos acreditam que consumir bebidas e alimentos gelados nessa época pode agravar a situação, abrindo as portas para infecções respiratórias. Da mesma forma, há quem jure que uma taça de vinho nos dias frios é um excelente aquecedor. Mas será que essas crenças populares realmente se sustentam em evidências científicas, ou são apenas mais mitos que se perpetuam ao longo das gerações?
O presidente da Sociedade Gaúcha de Gastroenterologia, Dr. Guilherme Sander, destaca que muitas pessoas seguem a crença popular e acham que estão se aquecendo, quando na verdade não estão. É importante desvendar o que realmente acontece com nosso corpo em relação ao frio e à alimentação.

Vinho e outras bebidas alcoólicas: aquecem ou não?
Segundo especialistas, o vinho, tão tradicional em nossa região, não aquece o corpo de fato, mas sim proporciona uma falsa sensação de aquecimento. “O álcool dilata os vasos da face e da mão, e assim dá a sensação de aquecimento. O mesmo ocorre com cachaça e pimenta, eles dão uma sensação momentânea de calor, mas fazem os vasos sanguíneos dilatarem, aumentando a perda de calor do corpo”, explica o Dr. Sander. Isso significa que, após o efeito inicial, o corpo pode acabar perdendo mais calor para o ambiente.

Sorvete no inverno: vilão da dor de garganta?
Outro mito bastante comum é o hábito de tomar sorvete no inverno, com a crença de que isso ocasiona dor de garganta. O Dr. Sander esclarece que “gripes são causadas por vírus, não pelo frio. O sorvete não ‘enfraquece’ sua garganta para o vírus.” Ele ainda complementa: “Essa confusão acontece porque no inverno comemos mais sorvete em lugares fechados, onde os vírus se espalham mais facilmente. Sua garganta volta à temperatura normal em segundos. Obviamente, o importante é evitar o excesso para não resfriar demais todo o corpo”, frisa. Portanto, o sorvete em si não é o problema, mas sim os ambientes fechados e com pouca ventilação onde o consumo pode ser maior.

Apetite no frio: é normal sentir mais fome?
Muitas pessoas se perguntam se é preciso comer mais no frio. A verdade é que você só precisa ingerir mais alimentos se for passar muito tempo exposto a baixas temperaturas. Nesses casos, o corpo realmente gasta mais energia para se manter aquecido. Caso contrário, se você usa aquecedor em casa ou no trabalho, a ingestão de uma maior quantidade de alimentos não é necessária. “A fome aumentada no inverno geralmente é mais por hábito e porque ficamos mais tempo em casa, não por necessidade real do corpo”, pontua o Dr. Sander.

Verdades comprovadas: o que realmente aquece e ajuda
Nem tudo é mito. As atividades físicas, por exemplo, realmente aquecem o corpo. “Quando nos exercitamos, assim como quando trememos de frio, nossos músculos trabalham mais e produzem calor, como um motor de carro em funcionamento. O coração bate mais rápido, levando esse calor para todo o corpo. É por isso que, por outro lado, suamos durante o exercício quando está quente, pois é o corpo tentando se resfriar pois está produzindo muito calor”, relata o médico. Fazer exercícios regularmente, mesmo no inverno, é uma excelente forma de manter o corpo aquecido e a saúde em dia.

Vitamina C e mel: apoio imunológico, não cura milagrosa
Além disso, outro ponto bastante discutido é se a vitamina C evita a gripe. De acordo com o especialista, as frutas cítricas, assim como o mel, podem sim ajudar no sistema imunológico, porém não impedem de pegar gripe. “Pode diminuir um pouco os sintomas e o tempo de duração. O mel tem propriedades antibacterianas, mas seu efeito é limitado. O mais importante ainda é lavar as mãos e se vacinar”, afirma. A vitamina C é um antioxidante importante para a saúde geral, mas não é uma “bala mágica” contra resfriados e gripes. Manter uma alimentação balanceada e rica em nutrientes é sempre a melhor estratégia para fortalecer o sistema imunológico.

Sopas e chás quentes: conforto e hidratação
Quem nunca falou “esfriou, vou fazer uma sopa”? O médico alerta que essa prática é bastante comum e benéfica, mas com uma ressalva importante: “Os alimentos não devem ser ferventes, não ultrapassando os 60 graus ao serem ingeridos para evitar queimaduras na boca e no esôfago. Mas cuidado: não exagere. Mantenha uma alimentação diversificada”, aconselha o Dr. Sander. Sopas e chás quentes são excelentes para aquecer e hidratar o corpo, mas a temperatura deve ser agradável para consumo.
Em resumo, o inverno pede atenção à saúde, mas é fundamental separar o que é crença popular do que é baseado em ciência. Priorizar uma alimentação balanceada, manter-se ativo e seguir as recomendações médicas de prevenção, como a vacinação e a higiene das mãos, são as melhores estratégias para encarar a estação mais fria do ano com saúde.