Família relata desafios, estigmas e a necessidade de informação e acompanhamento em casos de altas habilidades

Um menino de oito anos de Bento Gonçalves foi aceito, em dezembro de 2025, na Mensa, a maior e mais antiga sociedade mundial de alto QI. Otto Daniel Kuhn Albernaz teve o ingresso aprovado após avaliação que confirmou altas habilidades/superdotação, com pontuação compatível com o percentil 98 ou superior, critério exigido pela instituição.

Otto Daniel Kuhn Albernaz, de oito anos, foi aceito na Mensa após avaliação que confirmou altas habilidades/superdotação (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo os pais, Lisandra Kuhn e Ennio Albernaz, os primeiros indícios surgiram quando Otto tinha apenas três anos. De acordo com a família, o menino demonstrava uma habilidade incomum de memorização, domínio avançado da linguagem e curiosidade acentuada por diferentes temas. Um dos episódios que despertou a atenção dos responsáveis ocorreu quando Otto se recordou, com riqueza de detalhes, da decoração de Natal de um shopping visitado três meses antes, descrevendo elementos que já não estavam mais no local.

Ainda de acordo com os pais, nessa mesma fase Otto passou a se destacar em jogos de memória, vencendo adultos com facilidade, e demonstrava interesse constante por novos temas. Aos três anos, conforme o relato da família, conseguiu cantar integralmente uma música. “Notamos pela capacidade extraordinária de memorização, fala perfeita e uma curiosidade intensa. Um marco foi quando ele cantou a música ‘Aquarela’, aos três anos, sem qualquer auxílio visual ou letra em papel. Ele lembrou de cada estrofe sozinho, sem cometer um único erro”, contam.

Desafios no ambiente escolar e diagnóstico

Outro ponto recorrente foi a impulsividade associada à rapidez de raciocínio. Para os pais, a dificuldade de autorregulação se manifesta tanto em casa quanto no contexto escolar. “os estímulos e as respostas dele são muito rápidos, o que torna a autorregulação um desafio diário, tanto em casa quanto na sala de aula”, explicam.

Segundo os pais, em alguns momentos, as atitudes do menino foram compreendidas de forma equivocada, sendo associadas à indisciplina ou à falta de atenção. A família relata que esses entendimentos geraram questionamentos recorrentes sobre sua conduta, diretamente relacionados à condição. “O estigma social também pesou: alguns pais de colegas, por não entenderem a situação, isolaram seus filhos do Otto, alegando que ele não era uma ‘boa companhia’. A superdotação ainda é vista apenas como algo positivo, mas os neurodivergentes precisam de suporte psicológico constante para não sofrerem com essa exclusão”, relatam.

Diante das dificuldades enfrentadas, o pai de Otto, militar e funcionário de um colégio militar de Porto Alegre, buscou orientação junto à seção psicopedagógica da instituição, apresentando os comportamentos observados. A partir dessa escuta, surgiu a indicação de que o menino poderia apresentar altas habilidades, com recomendação para avaliações específicas.

Após a procura por profissionais qualificados, a família submeteu Otto a uma avaliação psicológica e, aos cinco anos, recebeu o laudo confirmando altas habilidades/superdotação. Segundo os pais, a confirmação trouxe uma mudança significativa na forma de interpretar as atitudes do filho. “ Mudou nossa percepção. O que antes líamos como teimosia ou rebeldia, compreendemos agora como o funcionamento biológico do cérebro dele”, contam.

Nova avaliação e ingresso na Mensa

De acordo com os pais, em 2025 foi realizada uma nova testagem, que permitiu identificar áreas específicas em que Otto apresenta maior habilidade. O resultado apontou um QI compatível com os critérios exigidos pela Mensa. Conforme relatam, o laudo foi enviado à instituição e, ainda em dezembro deste, a aceitação foi confirmada.

Segundo a família, o ingresso na Mensa representa um reconhecimento internacional e, principalmente, um ambiente de acolhimento. Para Otto, conforme os pais, a instituição funciona como uma rede de apoio e troca, permitindo o convívio com outras pessoas que compartilham características semelhantes. No Brasil, a Mensa é representada pela Mensa Brasil e tem como objetivo promover o intelecto para o benefício da sociedade.

Ainda segundo os pais, em 2025 Otto já havia lido mais de 50 livros, todos com mais de 200 páginas, mantendo interesse constante por novas leituras.

A importância do acompanhamento e da informação

Otto ao lado dos pais, Lisandra Kuhn e Ennio Albernaz, que destacam a importância do acompanhamento psicológico e da informação sobre altas habilidades (Foto: Arquivo Pessoal)

Os pais alertam para a necessidade de avaliações corretas em crianças com altas habilidades. “Muitos comportamentos se sobrepõem ao TDAH ou ao autismo. O problema é que diagnósticos errados levam a medicações desnecessárias, que podem apagar o brilho e o desenvolvimento da criança”, afirmam.

Segundo a família, o acompanhamento psicológico é indispensável. “O intelecto e a emoção não andam juntos na superdotação. A parte emocional precisa ser cuidada o tempo todo”, destacam. Para os pais, muitas vezes o que é interpretado como ansiedade ou desatenção é, na verdade, a superexcitabilidade emocional típica dessas crianças.

Durante essa trajetória, conforme relatam, a família contou com o apoio do Instituto de Altas Habilidades e Superdotação da Serra Gaúcha (ISA). “O ISA nos mostrou que não estamos sozinhos. A troca com outros pais e profissionais especializados foi essencial para o desenvolvimento do Otto e para o nosso equilíbrio como família”, relatam.

Durante esse processo o ambiente escolar também passou por adaptações para atender às necessidades do menino. A família destaca a importância do diálogo entre escola e profissionais especializados no acompanhamento de crianças com altas habilidades. “A escola Impulso Bento vem nos dando o apoio necessário, nos ouvindo, trabalhando junto com os profissionais que escolhemos para lidar com a situação. Existe um trabalho em conjunto que está sendo muito bem executado por todos os envolvidos.”

Eles também reforçam que o foco não está em resultados ou cobranças. “Acima de qualquer desafio, sentimos uma honra imensa em ter um filho com altas habilidades. Nosso maior objetivo é que ele seja feliz e que seu potencial seja um caminho para a realização pessoal, sem pressão”, concluem.