Promovida pelo Clube de Mães, a festa em honra à Santa Madre Paulina destaca a fé e o trabalho coletivo. Dias de mutirão para preparar lasanhas, piem e tortas frias resultam em almoço símbolo da comunidade

Santa Madre Paulina, primeira santa brasileira, nasceu na Itália em 1865 e imigrou para o Brasil ainda jovem, fixando-se em Santa Catarina. Fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, dedicou sua vida ao cuidado dos pobres, doentes e crianças, tornando-se símbolo de solidariedade e esperança. Canonizada em 2002 pelo Papa João Paulo II, é lembrada como exemplo de serviço e amor ao próximo.

Inspirada nesse legado, a comunidade da Linha Paulina, em Bento Gonçalves, realizou neste domingo a tradicional festa em sua honra, reunindo mais de 600 pessoas em um encontro marcado pela fé, gastronomia típica e união comunitária. O evento, promovido pelo Clube de Mães Reunidas, reforça tanto a devoção quanto o espírito de solidariedade que sustenta a vida local.

A equipe responsável pelo coral e liturgia contou com Marli Buco, Gelso Locateli, Carla Zortéa, Ivonete Gugel, Denise Zaccaron, Valdir Piva, Ivanir Zortéa, Sérgio Moret, João Paulo DallOglio, Laura DallOglio 

A devoção que atravessa gerações

As atividades começaram pela manhã com a celebração da missa, presidida pelo padre Ademar Pelegrini, da Paróquia São Roque. Na homilia, o sacerdote destacou o legado da santa e a atualidade de sua mensagem. “É tão importante perceber que Madre Paulina tocou a vida de tantas crianças, doentes e trabalhadores. Seu testemunho de fé inspira ainda hoje, principalmente na dignidade da vida e na esperança dos que lutam no dia a dia”, declara o padre.

O sacerdote também reforça o significado da celebração para a comunidade. “Os devotos não vêm apenas pedir, mas agradecer. É um momento de esperança, de encontro com a família e confiança em Deus”, acrescenta.

Entre os devotos, histórias de fé e gratidão se multiplicam. Maria Helena Moro e Deisi Minozzo, que atuam como ministras da Eucaristia há 18 anos, ressaltam a emoção em participar. “É muito gratificante servir e sentir a presença de Jesus vivo na comunidade. Cada sorriso dos fiéis ao receber a comunhão é uma prova dessa fé compartilhada”, afirma Maria Helena. Deisi complementa: “Santa Paulina é especial para nós. Já ouvimos relatos de curas e graças alcançadas por sua intercessão”, diz.

Tradição gastronômica e trabalho coletivo

Responsável pela cozinha, Anita Marcolin é uma das figuras centrais da festa. Aos 75 anos, ela acumula mais de meio século de dedicação à comunidade e guarda na memória a evolução de cada edição. “Começamos na quinta-feira, com um grupo de mulheres mais experientes que ensina as mais novas. Na sexta montamos todas as lasanhas e seguimos até o domingo, que é sempre muito corrido”, relata.

A lasanha, servida em diferentes versões, tornou-se símbolo do almoço comunitário. “As pessoas já compram ingresso perguntando se tem lasanha. Muitos vêm de fora só por causa dela. Aqui na Paulina já se sabe: é onde você come uma boa lasanha”, comenta Anita, com orgulho. Além dela, o piem também é destaque do cardápio.

Ao lado de 17 cozinheiras, Anita ressalta o espírito de união do grupo. “Cada uma tem seu serviço. Não é por causa minha que a cozinha funciona, é por todas nós”, explica. Para ela, a festa vai além da gastronomia: “Eu não faço para mim, nem só para os festeiros ou para a diretoria. Faço para a comunidade inteira. Ainda estamos unidos e seguimos tocando o barco para frente”, destaca.

Testemunha da transformação da Linha Paulina, Anita lembra que no início havia apenas um salão pequeno e uma cozinha simples. “Hoje temos um patrimônio grande, construído pouco a pouco, sempre com a ajuda da comunidade. Todo mundo sempre esteve de acordo e participou”, diz.

Devota de Santa Paulina e de outros santos, ela recorda um episódio marcante de fé em sua vida. “Quando meu marido sofreu um infarto, eu me ajoelhei e pedi a Deus e Nossa Senhora que me ajudassem. Depois daquele dia, nunca mais tive medo. Sinto que recebi coragem”, revela.
A história da devoção também está ligada à memória das mulheres que fundaram o clube. Ela recorda a viagem feita a Nova Trento para buscar a imagem. “Éramos quatro mulheres, hoje só eu continuo participando. Nunca esquecemos daquelas que já se foram”, afirma com emoção.

União comunitária e solidariedade

O processo de organização da festa envolve mutirões que começam dias antes. “Desde quinta-feira estamos trabalhando, fazendo lasanhas, tortas frias e o pien. É um esforço de todos”, explica Denise Zaccaron, integrante da comissão organizadora do Clube de Mães Reunidas.

Dione Zaccaron, Denise Zaccaron e Anair Dall’Onder, integrantes da equipe organizadora da festa em Honra a Santa Paulina, na Linha Paulina

A celebração em honra a Santa Madre Paulina só acontece graças ao empenho do grupo, que está ativo há 35 anos na comunidade. A tradição, segundo Denise, vem de gerações. “O clube começou com as senhorinhas mais velhas, lembro da minha avó participando. Em 2002, algumas integrantes foram a Nova Trento e trouxeram a imagem de Madre Paulina para cá. Na época, ela ainda nem era santa. Desde então, a imagem ficou na praça e todos os anos, em setembro, realizamos a festa em sua honra”, relata.

A origem do Clube remonta à iniciativa da Associação Rio-Grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER/RS, que incentivou a criação de grupos de mães na região. Na Linha Paulina, os encontros passaram a acontecer no primeiro domingo do mês, inicialmente com chás para arrecadar recursos destinados a viagens. Além disso, a EMATER oferecia cursos de culinária e outras formações solicitadas pelas sócias. “Não era só passeio, o clube sempre trabalhou também em favor da comunidade”, recorda Denise.

Foi justamente essa mobilização que trouxe a imagem de Madre Paulina à localidade. Na época, a diretoria era formada por Lurdes Zanqueta, Issolina Scarton, Neiva Beal e Anita Marcolin, que guarda lembranças vivas daquela viagem a Nova Trento. “Foi emocionante. Trouxemos a imagem com muita devoção, e ver hoje o quanto ela representa para a comunidade é motivo de alegria”, comenta.
Desde então, a festa se consolidou como um dos momentos mais aguardados do ano. Em cada edição, o público comparece em peso, neste ano, os ingressos se esgotaram rapidamente. “Foram cerca de 600 pessoas, sem contar as crianças, que sempre aumentam um pouco esse número. É muito gratificante ver tanta gente participando”, afirma Denise.

A celebração, contudo, não se resume apenas à devoção ou à gastronomia. Ela também fortalece os laços sociais e garante recursos para manter viva a vida comunitária. Parte da arrecadação é destinada ao próprio Clube de Mães, que investe em melhorias para o espaço coletivo e ações de apoio a famílias. “O clube sempre destina recursos para a comunidade, seja na compra de utensílios ou na ajuda a pessoas carentes”, ressalta Denise.

Para ela, o segredo está na união. “Nos reunimos todos os primeiros domingos do mês para tomar chá e trocar ideias. Ali já vamos organizando a festa, motivando voluntários e pensando em como melhorar. É assim que conseguimos manter viva essa tradição”, finaliza.

Um patrimônio de fé

A Festa de Santa Madre Paulina da Linha Paulina reafirma o papel das tradições religiosas como ponto de encontro e continuidade cultural. Entre a devoção, a mesa farta e a solidariedade, a celebração mostra que a fé se traduz em trabalho coletivo e cuidado mútuo. Como resume o padre Pelegrini: “Cada santo tem uma história, um valor e uma marca de amor e serviço. Santa Paulina deixou essa herança para os jovens, para as famílias, para os trabalhadores e para os doentes. É isso que a comunidade vive e testemunha hoje”, conclui.