Pesquisa conduzida pela UBS Central e pelo curso de Enfermagem da UNIFTEC traça o panorama local dos pacientes e reforça a relevância da integração entre ensino, pesquisa e serviço na atenção primária à saúde

Um estudo desenvolvido pela Unidade Básica de Saúde (UBS) Central de Bento Gonçalves, em parceria com o curso de Enfermagem do Centro Universitário UNIFTEC BG e a Secretaria Municipal de Saúde, traça o perfil atualizado da população ostomizada (pessoas que passaram por cirurgia para criar uma abertura artificial no corpo, permitindo a eliminação de resíduos quando órgãos como intestino ou bexiga não funcionam normalmente) acompanhada pelo Sistema Único de Saúde (SUS)

A iniciativa faz parte do projeto de intervenção do acadêmico Douglas Betim, sob supervisão da professora Núbia Beche Lopes, e tem como propósito unir ensino, pesquisa e serviço para qualificar o cuidado e dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pela enfermeira Terezinha Basso Goldschmidt, responsável pelo serviço de ostomia na UBS Central.

Segundo Núbia, a proposta nasceu a partir do acompanhamento contínuo realizado na unidade e da necessidade de atualizar o perfil epidemiológico das pessoas ostomizadas do município. Ela acrescenta que a motivação também tem caráter pessoal. “Tanto eu quanto o Douglas tivemos experiências na família com pessoas ostomizadas, o que nos fez compreender a importância da conscientização e do acolhimento”, relata.

Perfil dos pacientes atendidos

Coordenadora do curso de enfermagem, profª Núbia Beche Lopes

O levantamento, concluído em setembro de 2025, identificou 109 pacientes em acompanhamento ativo. A maioria é composta por idosos (65%), totalizando 71 pessoas com mais de 60 anos. Entre os adultos (20 a 59 anos) estão 36 pacientes, e dois têm menos de 20 anos. O estudo também revela a predominância do sexo masculino, que representa cerca de 68% dos atendidos.

Em relação ao tipo de ostomia, 76 pacientes utilizam colostomia, 19 ileostomia e 14 urostomia. Para a enfermeira Terezinha Basso Goldschmidt, cada caso exige uma abordagem individualizada. “Cada paciente ostomizado possui uma trajetória de superação, e o acompanhamento multiprofissional é essencial para que possam retomar sua rotina com dignidade e segurança”, afirma.
Ela ressalta que o cuidado deve ser contínuo e ajustado às necessidades de cada pessoa. “Cada situação demanda um tipo específico de material e orientações, conforme as condições clínicas e o processo de adaptação de cada paciente”, explica.

O serviço da UBS Central é referência no atendimento a pessoas ostomizadas em Bento Gonçalves, oferecendo consultas, orientações, curativos, concessão de dispositivos coletores e acompanhamento regular conforme protocolos do SUS. Núbia destaca que esse trabalho é decisivo para garantir qualidade de vida. “O atendimento coordenado pela enfermeira Terezinha é fundamental para reduzir internações, orientar o autocuidado e apoiar o processo de adaptação à ostomia. O serviço garante acolhimento e fornecimento de insumos adequados para que os usuários retomem suas atividades com dignidade”, reforça.

O papel essencial do SUS e da equipe de enfermagem

Acadêmico do curso de enfermagem da Uniftec, Douglas Betim

A professora também chama atenção para o custo elevado dos materiais e a importância do suporte público. “O SUS fornece um número limitado de bolsas e dispositivos conforme as necessidades de cada paciente, mas todo o processo de liberação é burocrático e demorado, e cabe à enfermeira Terezinha organizar essa parte com o Estado. Quando o paciente precisa adquirir mais unidades, o custo é muito alto, uma única bolsa pode custar entre R$ 120 e R$ 130. Por isso, o serviço público voltado aos colostomizados precisa ser valorizado, pois garante acesso e dignidade a quem não teria condições de arcar com esses produtos”, explica.

O acadêmico Douglas Betim complementa que o projeto também tem caráter transformador. “A parceria entre o UNIFTEC e a UBS aproxima o conhecimento científico das necessidades reais da comunidade. Cada aluno vivencia situações concretas e contribui diretamente para a melhoria dos serviços públicos”, observa.

Ensino, pesquisa e compromisso social

Além do levantamento, o curso de Enfermagem também prepara outras intervenções que conectam ensino e responsabilidade social. “A importância da tríade serviços, pesquisa e ensino é fundamental. O curso de Enfermagem do UNIFTEC Bento Gonçalves tem o compromisso com a responsabilidade social, através de intervenções como essa sobre ostomizados. Outros sete alunos do estágio curricular e diversas turmas das práticas disciplinares estão preparando trabalhos maravilhosos em várias Unidades de Saúde de Bento”, relata a coordenadora.

O estudo será apresentado durante a Mostra da Saúde, que ocorre no dia 11 de novembro, evento que reúne alunos, professores e profissionais da rede pública de saúde. Núbia lembra que a Mostra, criada há muitos anos, nasceu justamente para integrar o ensino e a prática nas unidades básicas.
Para ela, a realização desse tipo de levantamento é um marco no município. “Até então, não havia dados consolidados sobre idade, sexo e tipo de ostomia. Este estudo representa um ponto de partida para monitoramento contínuo e melhor planejamento das ações em saúde”, destaca.

O projeto também busca desmistificar o tema da ostomia, ainda cercado por preconceitos e desinformação. “Muitas pessoas desconhecem o que é uma ostomia e como ela permite ao paciente viver com qualidade. Ainda existe tabu, medo e vergonha associados ao dispositivo. Por isso, informação e acolhimento são fundamentais”, ressalta Núbia.

O serviço de ostomia do SUS em Bento Gonçalves é coordenado pela enfermeira Terezinha Basso Goldschmidt e conta com a colaboração da enfermeira Rafaela Protto, do Hospital Tacchini, que orienta os pacientes desde o pós-cirúrgico.

Betim reforça que, além das estatísticas, o levantamento revela histórias de superação. “Cada pessoa ostomizada carrega uma trajetória única. Quando a sociedade enxerga essas pessoas com empatia, contribui diretamente para sua inclusão e bem-estar”, conclui.