Especialista em Neuropsicopedagogia, Lauren Copat Poletto detalha porque o contato com histórias nesse período fortalece vínculos e amplia a empatia

A leitura tem se consolidado como uma das ferramentas mais eficientes para o desenvolvimento emocional das crianças. Longe de ser apenas um hábito escolar, o contato com histórias, especialmente as ficcionais, influencia diretamente na capacidade de compreender sentimentos, enxergar diferentes perspectivas e desenvolver empatia. Instituições culturais brasileiras e pesquisas acadêmicas recentes reforçam essa relação, cada vez mais percebida por profissionais da educação e da psicopedagogia.

O que dizem os estudos

Uma revisão integrativa publicada pela revista Psicologia: Teoria e Prática analisou 21 pesquisas sobre leitura ficcional e conclui que narrativas literárias favorecem tanto a empatia cognitiva, ligada à capacidade de compreender o ponto de vista de outra pessoa, quanto a empatia afetiva, relacionada à sensibilidade aos sentimentos do outro. O estudo também destaca que, especialmente a partir do quarto ano do Ensino Fundamental, crianças que leem regularmente ampliam o vocabulário emocional e conseguem nomear emoções complexas com mais facilidade. A mesma revisão aponta ainda uma lacuna: há poucos estudos brasileiros na área, reforçando a necessidade de pesquisas nacionais mais aprofundadas.

Outra pesquisa relevante é a conduzida pela Universidade de Brasília, que investigou a metodologia LuDiCa, baseada na leitura dialógica. Os resultados demonstram que crianças que participam de rodas de leitura discutindo sentimentos de personagens passam a apresentar maior cooperação, respeito às diferenças e comportamentos empáticos entre colegas. As conclusões reforçam que a leitura funciona como uma simulação segura do mundo emocional: ao vivenciar sentimentos através dos personagens, a criança aprende a reconhecer os seus próprios e os dos outros.

Esses achados dialogam com iniciativas de incentivo à leitura mantidas pela Biblioteca Nacional, que investe em ações para democratizar o acesso ao livro e fortalecer o contato das crianças com diferentes narrativas, um caminho reconhecido pela instituição como essencial para formação sensível e cidadã.

A força da literatura no cotidiano

Essa relação entre leitura e desenvolvimento emocional também é percebida no trabalho de quem atua diretamente com crianças. Entre esses profissionais está a pedagoga e psicopedagoga Lauren Copat Poletto, especialista em Neuropsicopedagogia, que observa diariamente os efeitos das histórias na formação afetiva.

Lauren explica que, no dia a dia, a leitura funciona como uma porta de entrada para vivências emocionais essenciais. Ela afirma que “o livro é a porta de acesso a novos conhecimentos e coloca as crianças diante de situações, experiências e vivências”, declara. Para ela, o impacto emocional surge de maneira natural: “a leitura apresenta como lidar com sentimentos, situações diárias e conflitos de forma sutil, leve e muitas vezes divertida”, acrescenta.

Empatia nasce do contato com diferentes histórias

A psicopedagoga reforça que a empatia surge justamente da exposição a novas narrativas. “Por meio dos livros, as crianças têm acesso a outros exemplos de vida, entendem sobre respeito e empatia, conhecem diferentes contextos e compreendem o outro de forma lúdica”, explica. Essa percepção soma-se ao que apontam as pesquisas: quanto mais variado o repertório literário, maior a capacidade de reconhecer emoções no outro.

Ela destaca que todo tipo de literatura infantil é válido, tanto obras produzidas para trabalhar emoções quanto histórias aparentemente despretensiosas. Para ela, qualquer narrativa pode ser ferramenta de identificação emocional quando bem mediada.

O papel de pais e professores

Lauren Copat Poletto, pedagoga e Psicopedagoga, com especialização em Neuropsicopedagogia

Segundo Lauren, família e escola exercem papéis complementares na formação emocional das crianças. “Os pais criam um ambiente afetivo de leitura, com boas memórias e sentimentos positivos em relação aos livros”, afirma. Na escola, a relação se aprofunda: “lá, essa relação se fortalece com o acesso e a exploração de livros em momentos e atividades pensadas para evoluir esse processo”, complementa.

Essa mediação consistente, destacada também pelos estudos acadêmicos, é determinante para transformar a leitura em instrumento emocional e social. O que as pesquisas identificam em dados, a psicopedagoga observa cotidianamente.

Como a empatia aparece no cotidiano

Lauren explica que os efeitos se manifestam nas relações diárias. “As atitudes das crianças mostram aquilo que elas aprendem emocionalmente. No convívio com outros jovens, especialmente na escola, isso se torna visível”, relata. Ela reforça que esses comportamentos variam conforme a individualidade, mas que o impacto da leitura é indiscutível.

A leitura coletiva, amplamente valorizada por pesquisadores, também ganha destaque em sua prática. “Individualmente precisa acontecer, mas a leitura em grupo é uma estratégia com efeitos positivos, como auxiliar na interpretação, incentivar e desenvolvê-la em voz alta”, observa.

Lauren também alerta para os prejuízos emocionais da ausência de leitura na infância. “A ausência priva a criança desse contato lúdico e saudável com o mundo ao seu redor. É um recurso a menos na construção do sujeito e deixa lacunas emocionais”, afirma.

Histórias ajudam a enfrentar sentimentos difíceis

Ela destaca que os livros são poderosos instrumentos para lidar com emoções complexas. “Os personagens geram identificação; a criança conhece e entende os sentimentos pela história contada. Esses sentimentos são trabalhados de forma mais leve e lúdica”, explica.
Sobre quando começar, Lauren reforça que não existe idade mínima rígida: “A partir do momento em que a criança entende uma contação, já é possível trabalhar empatia e sentimentos, com adaptações conforme a idade”, observa.

Em sua mensagem final, a especialista reforça a importância da presença afetiva dos adultos. “Incentivar é muito mais do que apresentar livros; é oferecer um espaço seguro para sentir, pensar e se expressar”, afirma. Ela conclui dizendo que “ao ler com eles, fortalecemos os vínculos, ampliamos repertórios e ajudamos a construir uma base emocional sólida, feita de empatia, imaginação e segurança afetiva”, finaliza.