Laura Caroline Pouluk Strozak, 25 anos, natural de Bento Gonçalves, é formada em Engenharia Agronômica, e atua como Analista de Suporte Técnico. No ano passado, em 15 de julho, foi eleita a imperatriz da 20ª edição da Festa Nacional do Vinho (Fenavinho), prevista para ocorrer entre 12 e 22 de junho de 2025. No dia 4 de outubro de 2024, ao lado das damas de honra, Laura foi oficialmente coroada. Em entrevista ao Podcast Paradoxo, ela conta um pouco de sua trajetória, o processo seletivo até ser nomeada imperatriz, sua vida pessoal e as expectativas para o futuro.

Processo seletivo de escolha
Laura está pronta para assumir o papel de representante dessa tradicional celebração da cultura e vitivinicultura de Bento Gonçalves. Com um entusiasmo que transparece em cada palavra, ela compartilha os detalhes do processo seletivo e as emoções que a levaram a almejar esse título. “Foi durante a edição passada da Fenavinho que tudo começou”, conta, lembrando-se de um momento em que observava a corte ao lado da mãe e da prima. “Eu olhei para a corte e falei: ‘Ano que vem, eu vou estar lá, mãe’. E foi ali, com um pouco de vinho embriagando o clima da festa, que eu decidi participar”, revela.

Mas o sonho exigiria dedicação. Após se inscrever com o incentivo de uma amiga, Laura iniciou um intenso período de preparação. “Foram 70 dias muito intensos, com aulas de dicção, oratória, postura e até ensaios de coreografia. Aprendemos a nos portar como embaixatrizes da festa, prontos para representar Bento Gonçalves e o mundo do vinho”, destaca.

Além da preparação técnica, Laura conta que o processo proporcionou desafios emocionantes, como enfrentar entrevistas com sete jurados que estavam interessados não apenas em conhecimentos sobre vinhos, mas também em entender como cada candidata contribuiria para divulgar a cultura local. “Recebemos materiais sobre imigração italiana e análise de vinhos para estudar, mas o foco estava em como aplicar nosso conhecimento e paixão. Para mim, isso sempre foi natural. Fiz curso de serviço de vinho, trabalhei com varejo em vinícolas e, no ensino médio, eu era conhecida como a ‘agro infiltrada na Enologia’ no IF. Sempre gostei de explorar e aprender”, diz.

Ela segue, abordando como foi a relação entre as candidatas durante o processo seletivo, que considerou muito harmoniosa. “Desde o início, sabíamos que seria uma competição, mas conseguimos manter um ambiente leve. Criamos um grupo muito bonito, apoiando umas às outras. A Grazi, que foi nomeada dama de honra, por exemplo, foi uma pessoa com quem eu tive grande afinidade”, diz

Oportunidade para destacar os produtores e cooperativas da região
O comprometimento dela vai além da paixão pela vitivinicultura. Laura demonstra profundo respeito pelos produtores locais, especialmente os pequenos agricultores familiares e mulheres da viticultura. “Os consumidores estão cada vez mais exigentes, e os nossos produtores, mesmo os pequenos, já entenderam isso. Produzem com qualidade e amor, um diferencial que sempre me encantou”, enfatiza.

Laura também destaca a oportunidade de conhecer grandes cooperativas da região, como Miolo e Aurora, durante sua preparação. “Essas visitas foram uma imersão no legado que Bento Gonçalves construiu no mundo do vinho e me fizeram perceber a responsabilidade e o privilégio que é ser a Imperatriz dessa festa”, destaca.

Desafios enfrentados
Sobre os obstáculos, ela menciona momentos inesperados, como aprender a andar de salto fino e o nervosismo ao falar em público. “No início, andar de salto foi um susto, mas logo me adaptei. Já o momento de falar no microfone, com um monte de gente olhando, foi o mais desafiador. Ensaiamos juntas para que todas pudessem dar o seu melhor”, pontua.

Ao descrever o momento em que foi anunciada como Imperatriz, Laura não escondeu a emoção. “Eu brinco que precisei ouvir meu segundo nome para acreditar. Sempre fui muito confiante no processo, mas confesso que criei muita expectativa. Quando ouvi meu nome, queria sorrir, mas comecei a chorar. Foi uma mistura de alívio e felicidade”, conta, emocionada.

Laura revela que nunca pensou em desistir, mas admite ter enfrentado resquícios de indecisão. “Houve momentos em que comentários sobre minha descendência me fizeram pensar que talvez eu não tivesse chance, já que não falo italiano, por exemplo. Mas a Fenavinho vai além disso. É sobre representar Bento Gonçalves como uma cidade plural, que acolhe pessoas de diferentes origens. A nossa história é construída com base nessa diversidade, e foi muito bonito aprender isso ao longo do processo”, reflete.

Composição da corte e representatividade
Além de Laura, Graziele Miszevski e Yasmin Luiza de Lima Barbacovi também formam a corte, como damas de honra. Ela menciona os esforços para fortalecer a relação entre as integrantes da corte antes do início oficial das atividades. “A gente já saiu para almoçar juntas, nós três. Compartilhamos coletivamente a expectativa. Eu espero viver um ano, uma edição muito bonita com o trio, que a gente fique muito próximas, porque eu acho que todos os eventos, todos os compromissos vão nos levar a isso”, comenta.

A imperatriz reflete sobre a representatividade e inclusão que a edição trará, com destaque para a presença de Yasmin, integrante da corte e deficiente auditiva. “Sabemos que não vamos promover uma revolução, a gente traz o que está ao nosso alcance, e fazemos isso da melhor maneira possível. Inclusive, tem muitas iniciativas no mundo do vinho para ouvintes e não ouvintes, e para que as pessoas surdas também sejam inseridas nesse contexto”, explica.

Graziele, Laura e Yasmin

Ela ainda compartilha um momento de aprendizado ao tratar sobre inclusão em situações cotidianas. “Outro dia a gente foi almoçar e a gente não sabia como comunicar alguma informação do cardápio. Parece que passa batido para nós no dia a dia, mas é muito importante para essas pessoas”, reflete.
Laura ressalta a importância de sonhar e se expressar, independentemente de barreiras. “A parte de expressão, de comunicação, a Yasmin fez muito bem. A fala dela, inclusive, no momento da escolha do discurso, era muito bonita, e foi criada por ela, por esses e outros fatores que considero nosso trio lindíssimo”, destaca.

Formação e vida pessoal
Formada em Engenharia Agronômica, Laura não atua na área no momento, mas pretende voltar no futuro. “Quero muito me especializar e contribuir com o setor agrícola. É uma área riquíssima, com muito potencial de agregar valor à vida dos agricultores. Porém, nesse momento, estou focada em aproveitar o que o título de Imperatriz pode me proporcionar, tanto em aprendizado quanto em experiências únicas”, complementa.

A imperatriz conta sobre como surgiu o interesse pela Engenharia Agronômica, explicando que sua formação técnica no ensino médio teve papel fundamental. “Ingressei no ensino médio técnico em Agropecuária por oportunidade. Era um ensino de qualidade, e minha mãe me inscreveu. Deu certo e cursei os três anos. Foi uma experiência riquíssima, que me preparou muito para o vestibular. Durante esse tempo, eu achava que faria Veterinária, porque sempre gostei muito de animais, mas, ao vivenciar a parte de cultivo, especialmente das videiras, passei a me apaixonar por isso. Escolhi Agronomia porque abriram a primeira turma no IF da minha cidade, e isso me permitiu continuar morando com meus pais e economizar em custos como deslocamento e mensalidades. Hoje, apesar de pensar em me especializar e explorar novas áreas, não trocaria minha formação. Sou muito feliz com minha escolha”, afirma.

Ela retoma a fala sobre os desafios de assumir o papel de Imperatriz, destacando a forma como conseguiu equilibrar os compromissos da Fenavinho com sua vida profissional. “Fui agraciada no início do ano passado, troquei de emprego para uma empresa que valoriza muito o colaborador. Embora eu não esteja trabalhando na minha área de formação no momento, estou extremamente feliz. A flexibilidade que me ofereceram para participar dos compromissos da Fenavinho me deixou segura de que consigo conciliar tudo sem prejuízos à minha estabilidade”, explica.

Hobbies e passatempos
Laura compartilha sua conexão com o tradicionalismo. “Desde pequena, dancei em CTGs. Minha família ainda mora em Carlos Barbosa, onde fui prenda duas vezes. Quando entrei no Instituto Federal, tive a oportunidade de participar do DTG Cultura Sem Fronteira, onde conseguimos conciliar a vivência tradicionalista com os estudos. Isso me marcou muito”, lembra.

Laura comenta sobre seus afazeres e como mantém uma rotina dinâmica. “Meu trabalho é home office, mas uma vez por semana faço questão de ir presencialmente para estar com colegas. Adoro socializar, encontrar amigos, visitar minha família, e sou apaixonada por esportes. Estou sempre tentando manter a academia em dia, gosto de jogar vôlei e estou fazendo curso de inglês”, conta.

Importância em representar a comunidade
Sobre o impacto de ser coroada Imperatriz da Fenavinho, Laura descreve os primeiros momentos após a escolha. “O pós-escolha ainda é muito recente, mas já é um momento muito especial. Quando alguém me chama de Imperatriz, ainda fico pensando: ‘Sou eu mesmo?’. É uma experiência nova, mas muito boa. Receber o carinho de quem torceu por mim e ver as pessoas que agora estão conhecendo a nossa corte é incrível. Sabemos que nem todos se identificarão com o nosso trabalho, mas estamos empenhadas em fazer com que todos se sintam representados pela nossa dedicação e paixão”, clama.

O peso da Fenavinho
Sobre o que torna a Fenavinho especial para os moradores de Bento Gonçalves, Laura destaca o vínculo com a comunidade. “A Fenavinho é a representação máxima do que temos de melhor. É o casamento perfeito entre o que Bento oferece em termos de inovação, negócios e, claro, a cultura do vinho. A festa une a oportunidade de explorar vinícolas, degustar novos sabores e aproveitar momentos em família em um ambiente descontraído e acolhedor. Além disso, ela é uma vitrine para mostrar a nossa realidade e o que Bento tem de bonito e gostoso para pessoas de fora da cidade”, aponta.

Laura também acredita no potencial de crescimento da Fenavinho. “Temos muito espaço para crescer. Sempre há novos produtores entrando no mercado, desde os pequenos até os grandes. A festa é uma excelente plataforma para abraçá-los. Além disso, superar desafios das edições passadas e garantir acessos melhores para visitantes de fora são passos importantes para atrair mais pessoas de outros estados e até de outros países. Quanto mais expressiva a cidade e seus produtos se tornam, maior o alcance da Fenavinho”, diz.

Projeção para a edição de 2025
Ela detalha sobre suas inspirações e expectativas para a Fenavinho de 2025. “Inspirei-me muito na última corte, que foi extremamente carismática e responsável. Quero manter esse nível de entrega, mas também trazer o meu jeitinho Laura de ser. Desejo que nossa corte seja lembrada pelo carinho, pela simpatia e por abrir portas para que mais pessoas entrem no mundo do vinho, que é tão democrático. Espero representar fielmente o que a Fenavinho significa e honrar a torcida que acreditou em mim. Minha missão é fazer desta edição algo memorável para Bento e para todos que participarem”, reforça.

Laura destaca como pretende atrair a participação dos jovens nas atividades da Fenavinho, destacando a importância do marketing e da integração comunitária. “Eu acho que divulgação é a alma do negócio. Enquanto rosto da festa, a gente também é propaganda. Antes mesmo do processo seletivo, eu já estava me envolvendo, participando de jogos coloniais, que são experiências incríveis e totalmente abertas à comunidade. A Fenavinho já tem eventos que promovem esse engajamento, como o Sparkling, o Natal nos Vinhedos, e várias outras atividades que envolvem todas as idades. Estou animada para descobrir mais e trazer ideias novas”, afirma.

Conselho para os mais jovens
Laura enfatiza a importância de se inspirar e aproveitar o aprendizado pessoal. “Eu também me inscrevi porque me inspirei em outras pessoas. Então, para quem tem o desejo, digo que vale muito a pena. Participar é uma experiência de crescimento pessoal enorme. Eu aprendi muito sobre mim mesma, enfrentei medos e tabus, e descobri um potencial que nem sabia que tinha. O processo é enriquecedor e faz a gente evoluir de uma forma que vai além do título”, diz.

O apoio familiar no processo
A imperatriz compartilha como o apoio da família foi fundamental durante todo o processo. “Eu ficava um pouco off deles, porque os finais de semana eram intensos, mas descobri que estavam sempre por trás fazendo campanha. Meu pai e minha mãe vibraram muito no dia da escolha. É indescritível olhar as fotos e ver o quanto eles estavam orgulhosos. Meu irmão até fez campanha no IF com os colegas dele. Saber que eles acreditavam no meu potencial fez toda a diferença. É um orgulho para mim e para eles”, relata.

Expectativas para o futuro
Laura projeta como espera estar nos próximos cinco anos e admite que os planos podem mudar inesperadamente. “Eu acho que a gente espera estar preparado, né? Mas, como exatamente, eu já pensei muitas vezes e isso mudou do nada. Por exemplo, na minha formação, eu não estou trabalhando na minha área. Eu podia estar fazendo qualquer outra coisa, mas agora sou Imperatriz da Fenavinho. Planejo estar estudando novamente, porque ainda quero e gosto muito disso”, explica.

Ela revela que durante a pandemia perdeu o gosto por estudar, mas que recentemente retomou esse desejo, considerando até mesmo uma pós-graduação. “Antes da pandemia, eu gostava muito e jurava que ia terminar a faculdade, fazer mestrado e doutorado. Cheguei a trabalhar na iniciação científica e era o que eu queria. Só que durante a pandemia, eu murchei, queria apenas me livrar dos estudos. Agora já tenho vontade de voltar de novo. Então, espero estar finalizando alguma formação, alguma pós-graduação. Sobre trabalho, é incerto, mas sou muito feliz com o que escolhi hoje”, reflete.

Laura também compartilha seus sonhos pessoais. “Em cinco anos, pretendo estar casada e com filhos. Sempre brinquei com as meninas do grupo que eu seria mãe primeiro. Antes, eu dizia que seria aos 28, mas coloquei a mão na consciência e falei: ‘Acho que depois dos 30, de repente’. Eu sou muito família, gosto desse clima. Então, além de me especializar e melhorar no meu profissional, quero constituir a minha própria família”, planeja.

Considerações finais
Encerrando a entrevista, Laura deixa um recado emocionado para quem confiou na nova corte. “Quero agradecer a todos que acreditaram em nós – em mim, na Grazi e na Yasmin – e depositaram esse voto de confiança. Vamos representar Bento Gonçalves. Que possam enxergar em nós uma referência positiva de tudo que a Fenavinho e nossa cidade representam no contexto nacional. Nossa festa é democrática, e o mundo do vinho deve ser cada vez mais acessível”, clama.

Laura finaliza convidando a comunidade a participar ativamente dos eventos. “Venham à edição da Fenavinho do ano que vem e outros eventos promovidos em nossa comunidade. Participem, tirem fotos com a gente, vamos adorar! Que juntos possamos levar o nome da nossa cidade ainda mais longe, movimentar a economia e mostrar a qualidade e a criatividade dos nossos produtores e empresários. É importante para a Fenavinho, para Bento Gonçalves e para toda a nossa região”, encerra.