Com o objetivo de alertar a população sobre os riscos, sintomas e formas de prevenção do câncer de cabeça e pescoço, o mês de julho ganha a cor verde em uma campanha nacional de conscientização. A iniciativa busca ampliar o conhecimento da sociedade sobre a doença, que muitas vezes é descoberta em estágios avançados, comprometendo o tratamento e a qualidade de vida dos pacientes. Especialistas reforçam que o diagnóstico precoce é fundamental para aumentar as chances de cura.
O câncer de cabeça e pescoço é o quinto mais incidente no Brasil, tanto em homens quanto em mulheres, causando cerca de 10 mil mortes ao ano. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), para cada ano do triênio 2023-2025, são esperados no Brasil quase 50 mil casos de cânceres nas cavidades oral, laringe, tireoide e pele melanoma.

Como surgiu
O Julho Verde foi uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP). Essa instituição médica decidiu estabelecer julho como mês de conscientização e combate ao câncer de cabeça e pescoço por conta de uma data comemorativa celebrada internacionalmente: o Dia Mundial de Conscientização e Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço, em 27 de julho.
Essa data foi estabelecida em 2014 durante o Congresso Mundial da Federação Internacional de Sociedades de Oncologia de Cabeça e Pescoço, o que motivou a SBCCP a criar o Julho Verde em 2015. A campanha foi criada a fim de chamar atenção para a doença e promover os objetivos mencionados no texto. Os esforços da Sociedade e da comunidade médica pelo tema fizeram com que a campanha fosse estabelecida oficialmente por meio da Lei Federal 14.328/2022.
Campanha
De acordo com o médico Fernando Bitencourt, cirurgião de Cabeça e Pescoço da Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) do Hospital Geral de Caxias do Sul, a ação é de extrema importância para a conscientização e para reforçar o compromisso com a população. “É uma ação muito importante, promovida por várias sociedades relacionadas ao tratamento do câncer de cabeça e pescoço. Essa doença ainda é bastante desconhecida pela população geral”, salienta.
Segundo ele, é comum atender pacientes que não têm consciência do câncer, e essa falta de informação faz com que a procura por um diagnóstico seja muitas vezes tardia. “Em alguns casos, a gente pega a doença em estágio muito avançado justamente pelo desconhecimento dessas doenças que acometem essa região. Então, é uma ação muito útil e muito válida para aumentar a conscientização da população geral sobre o câncer de cabeça e pescoço”, informa o médico.
Tipos de câncer que fazem parte da cabeça e pescoço
O especialista cita doenças oncológicas e não oncológicas que incluem:
- Tumores da região da boca;
- Cavidade oral;
- Orofaringe;
- Garganta;
- Laringe;
- Hipofaringe;
- Glândulas salivares;
- Pele;
- Seios da face;
- Além de outras situações, como tumores derivados de outros sistemas (ex: sistema vascular, sistema nervoso).
Fatores de risco
O câncer de cabeça e pescoço engloba uma variedade de tumores que afetam diferentes regiões, como boca, garganta, cavidade nasal, laringe, tireoide e pele. Embora alguns tipos estejam fortemente ligados a fatores de risco bem estabelecidos, como o consumo de álcool, tabaco e a exposição solar, outros ainda carecem de uma definição clara sobre suas causas. “Para os tumores do trato aerodigestivo superior, ou seja, que compreende a boca, a região da cavidade nasal, a orofaringe, a garganta e a laringe, o etilismo e o tabagismo são os principais fatores de risco. Para outras regiões, como a pele, o sol é muito importante para a gênese do câncer de pele e também para o câncer de lábio. Para outros tumores, como os de glândulas salivares, tumores vasculares, tumores neurogênicos e tumores de tireoide, não temos fatores de risco muito definidos”, alerta.
Para Bitencourt, saímos da ideia de uma predisposição genética, sendo o principal fator de risco para outros tumores. “Em relação aos tumores da glândula tireoide, tanto benignos quanto malignos, que têm alta incidência na nossa região, são comuns alterações nas glândulas paratireoides, que, na maioria dos casos, não são malignas, mas que igualmente requerem acompanhamento e tratamento por cirurgião de cabeça e pescoço”, menciona.
Desafios para o diagnóstico
Para o médico, os principais desafios do câncer de cabeça e pescoço são, ainda hoje, os diagnósticos precoces. “Por mais que haja informações sendo disseminadas diariamente na internet, ainda existe pouco conhecimento sobre esses tipos de tumor, o que faz com que a prevenção e o diagnóstico precoce tenham um impacto importante, sendo esses os maiores desafios que encontramos no dia a dia em relação ao câncer de cabeça e pescoço”, explica.
Diante desse cenário, campanhas como o Julho Verde ganham relevância, ao contribuir para a conscientização da população, promovendo informação de qualidade e esclarecendo dúvidas sobre os sinais, riscos e formas de prevenção da doença.
Dados
De acordo com o médico, em torno de 80% dos cânceres de pele acontecem na região da cabeça e pescoço. “Ele é responsável por um terço de todos os casos de câncer no Brasil e no mundo, ou seja, mais ou menos 30% de todos os tumores são de pele”, informa. “Esse tumor é tão frequente que nem aparece nas estatísticas, devido à sua frequência muito grande e o tipo mais comum, que é o carcinoma basocelular, tem baixa letalidade”, salienta.
No homem, o câncer de cabeça e pescoço com maior índice é o de cavidade oral, muito relacionado ao hábito de fumar e beber, ficando em 5º lugar. Já nas mulheres, é o de tireoide. “Essas incidências são um pouquinho diferentes, basicamente devido aos fatores de risco”, observa.
O tabagismo é um fator de risco extremamente alarmante, elevando em cerca de 20 vezes a chance de desenvolver câncer de cabeça e pescoço. O alcoolismo, por sua vez, aumenta essa probabilidade em aproximadamente oito vezes. Contudo, o grande perigo surge quando esses dois hábitos se unem, criando um efeito sinérgico. Isso significa que, em vez de uma simples soma, a combinação de fumo e álcool multiplica exponencialmente o risco. Para se ter uma ideia, enquanto alguém que apenas bebe já tem uma chance oito vezes maior de ter a doença, quem fuma e bebe ao mesmo tempo vê essa probabilidade disparar para cerca de 40 vezes mais. Essa é uma relação crucial para entender o aumento drástico do risco de câncer.
Região
A Serra Gaúcha acompanha os índices nacionais, com destaque para o câncer de pele. “A população de origem europeia, ou seja, com pele muito branca, cabelos claros, olhos claros, e também em função da exposição solar desprotegida, historicamente conhecida dos trabalhadores da agricultura”, nota.
O hábito de usar protetor solar é muito recente, com isso, ainda hoje há muitos casos de câncer de pele. “Hoje, um dos maiores movimentos de todos os serviços que trabalham com oncologia de cabeça e pescoço, é que sabemos que o câncer de pele, sim, chama atenção pela sua alta incidência aqui na região, obviamente, talvez um pouco mais alta do que em outros lugares do Brasil, como no Norte e no Nordeste, por exemplo”, observa.
Na maioria dos casos, os tumores de pele são de baixa agressividade, apesar de terem um potencial mórbido dependendo da localização em que nascem, como no nariz, nos lábios, nas pálpebras, de acordo com o médico. “Eles não precisam de um acompanhamento oncológico necessariamente, a não ser os casos de melanoma e alguns casos avançados de carcinomas espinocelulares. Mas o mais comum, que é o carcinoma basocelular, é uma doença de baixa agressividade”, explica.
O câncer de pele tem o risco muito baixo de metástases, o que faz com que o paciente tenha um acompanhamento um pouco diferente dos demais. “Na maioria das vezes, será pelo dermatologista, para fazer o acompanhamento da pele, monitorando o risco da doença voltar ou de surgir uma nova doença, um novo tumor semelhante, uma vez que o fator de risco principal para o câncer de pele, que é o sol, é contínuo. Então, temos que monitorar esses pacientes pelo resto da vida, nesses casos, pensando no surgimento de novos tumores”, complementa.
Tratamento
O processo é realizado a partir do diagnóstico de cada paciente. “Quanto mais precoce for esse diagnóstico, menos agressivo será o tratamento. Assim, muitas vezes conseguimos oferecer tratamentos com baixa morbidade, ou seja, com baixa agressividade ao paciente”, pontua.
Esses fatores se dão por diversos motivos. Por exemplo, se o tumor for diagnosticado no começo, o tratamento será sempre proporcional à doença. “Quanto mais avançada a doença, maior será a necessidade de tratamento. Assim, essa resposta não é única; ela depende do momento em que fazemos o diagnóstico”, enfatiza.
Diagnóstico
Para ele, a detecção precoce é a chave do sucesso para qualquer tratamento na área da saúde. “Quanto menor for o tumor, menores serão as taxas de metástase e menos mórbidos serão os tratamentos. Assim, o diagnóstico precoce é a peça angular do tratamento do câncer de cabeça e pescoço”, salienta.
Isso faz com que as taxas de cura e os resultados dos tratamentos sejam cada vez mais altos. “Com menos danos ao paciente em relação ao tratamento em si, seja ele cirúrgico, quimioterapia ou radioterapia”, pontua.
Diante disso, é essencial que as pessoas prestem atenção nos sinais, menores que sejam, pois podem salvar vidas. De acordo com o médico, qualquer ferida que não cicatriza em pelo menos três semanas, especialmente na região da boca, garganta e pele, justifica o alerta e a procura por um médico especialista na área de cabeça e pescoço.
Além disso, é importante observar também o aumento de volume na região do rosto e pescoço. “Um abaulamento na região da mandíbula, uma saliência que aparece no pescoço, a famosa bolinha que aparece no pescoço, pode ser a evidência de um problema primário da região do pescoço, ou até mesmo uma evidência de metástase. Ou seja, uma raiz do câncer que está em algum lugar ali, por exemplo, na boca, na garganta, na laringe, ou até mesmo na pele, pode estar relacionado a uma metástase”, afirma o médico.
Alerta-se para a dificuldade de deglutição, pois há áreas que não podem ser enxergadas a olho nu, principalmente nas regiões mais internas do pescoço, como a laringe, a hipofaringe e algumas partes da orofaringe. “Qualquer dificuldade para deglutir, qualquer dor, engasgos frequentes e alterações da voz são muito importantes. Por exemplo, se a pessoa começa com um quadro de rouquidão que não melhora em até três semanas, principalmente se for tabagista ou etilista, isso deve chamar a atenção de uma forma mais importante”, destaca.
Prevenção
Prevenir o câncer de cabeça e pescoço é um compromisso diário que passa, primordialmente, pela adoção de hábitos saudáveis e pela atenção aos sinais do corpo. A melhor defesa começa com a eliminação do tabagismo e a moderação no consumo de álcool, os maiores vilões. Além destes, participar do processo de vacinação contra o HPV é essencial. “Essa vacinação só é válida para aqueles pacientes que nunca tiveram contato com o vírus, ou seja, na sua maioria são crianças e adolescentes”, revela o especialista.
O médico pontua que muitos adultos já são colonizados pelo HPV, porém isso não significa que eles terão câncer de cabeça e pescoço. “O sexo desprotegido pode levar a uma contaminação pelo HPV e também aumentar o risco potencial de câncer”, completa. Ele acredita que com as campanhas de vacinação, a longo prazo, haverá uma redução do índice de tumores atrelados a essa questão. “Devemos estimular a população em geral, principalmente pais e mães, a conduzir a criança ou o adolescente até as unidades de saúde para fazer e completar o esquema vacinal contra o HPV”, conclui o médico.