Redes urbanas, sistema viário e acessibilidade aparecem como pontos críticos diante da expansão imobiliária. Ao mesmo tempo, o setor aposta em tecnologia, eficiência energética e inovação para qualificar as edificações e orientar o futuro urbano
O avanço da construção civil em Bento Gonçalves segue moldando não apenas a paisagem urbana, mas também os rumos do desenvolvimento econômico e social do município
Em um cenário de crescimento contínuo, novos empreendimentos residenciais e comerciais se multiplicam, impulsionados pela atratividade da cidade, pelo interesse do mercado imobiliário e pela percepção do imóvel como investimento seguro. Ao mesmo tempo, esse movimento impõe desafios técnicos, urbanos e institucionais que exigem planejamento, diálogo e decisões qualificadas. A avaliação é compartilhada pela Associação das Construtoras de Bento Gonçalves (Ascon) e pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos da Região dos Vinhedos (AEARV), entidades que acompanham de perto o impacto das novas edificações sobre a infraestrutura, a mobilidade, a paisagem e a qualidade de vida da população.

Ritmo positivo e crescimento gradual do setor
Segundo a Ascon, o ritmo atual das construções no município pode ser considerado saudável e consistente. Para o presidente da entidade, Diogo Giacomello, Bento Gonçalves vive um momento favorável, sustentado por fatores econômicos, localização estratégica e qualidade urbana. “A cidade apresenta um ritmo de construções positivo e consistente, impulsionado pelo interesse do mercado e pela atratividade da região”, afirma. Ele ressalta que o crescimento não ocorre de forma desordenada, mas sim de maneira gradual. “Ela possui espaço para continuar evoluindo, com novos empreendimentos surgindo aos poucos, acompanhando o planejamento urbano e as oportunidades de desenvolvimento”, acrescenta.
Na avaliação da AEARV, o crescimento é inevitável e necessário, mas precisa ser compreendido em sua complexidade. A presidente da entidade, Verônica Falcade, destaca que o impacto das novas edificações vai além do aspecto visual. “Bento cresce, e precisa crescer. Mas esse aumento exige ordem, organização e inteligência. Cada nova edificação não altera apenas o visual: ela altera fluxos, escalas e modos de uso da cidade”, observa. Segundo ela, a paisagem urbana é resultado direto das decisões técnicas e políticas tomadas no presente. “A cidade que teremos no futuro é consequência das escolhas que fazemos hoje, tanto no projeto quanto no planejamento urbano”, completa.
Impacto imobiliário
A diretora do Instituto de Planejamento Urbano (IPURB), Melissa Bertoletti, destaca que a expansão da cidade é orientada pelo Plano Diretor, instrumento com horizonte de 20 anos, mas que passa por revisões periódicas para acompanhar as transformações e garantir que o desenvolvimento ocorra de forma planejada. Ela explica que todos os projetos protocolados são submetidos a uma análise de viabilidade técnica, especialmente no que diz respeito às redes de esgoto e ao abastecimento de água. O trabalho é realizado em articulação com as concessionárias de serviços públicos, a fim de assegurar que a infraestrutura existente seja capaz de suportar a demanda gerada pelos novos empreendimentos.
Outro ponto central da fiscalização é o impacto das construções sobre o trânsito e a mobilidade. Em casos de grandes empreendimentos imobiliários, é exigida a apresentação do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), que passa pela avaliação da Secretaria de Gestão e Mobilidade Urbana. “Com base nessa avaliação, podem ser indicadas medidas mitigadoras ou compensatórias, que passam a integrar as condicionantes para a aprovação do empreendimento”, explica a diretora.

Circulação e acessibilidade
A ampliação do transporte público também integra as discussões sobre o avanço das áreas residenciais. Conforme informações da Secretaria de Gestão e Mobilidade Urbana, novos roteiros estão sendo debatidos dentro de um processo licitatório em andamento, com o objetivo de atender regiões em expansão. Melissa ressalta que a mobilidade é tratada de forma ampla, contemplando não apenas a circulação de veículos, mas também as condições para pedestres e pessoas com deficiência. A acessibilidade, segundo ela, é requisito essencial em todos os projetos analisados, com base na legislação e nas normas técnicas vigentes, buscando tornar os espaços urbanos mais inclusivos e funcionais.
Além das questões de saneamento e do sistema viário, o IPURB avalia contrapartidas relacionadas à criação de áreas verdes e espaços públicos. A preservação da identidade cultural de Bento Gonçalves também é considerada nas análises. O Estudo de Impacto de Vizinhança inclui item específico para avaliar possíveis interferências na paisagem e na tradição local. Segundo Melissa, o instituto busca conciliar a modernização tecnológica com a valorização dos aspectos históricos e culturais. “O IPURB entende que a cidade busca um equilíbrio entre modernização e preservação da identidade urbana, integrando novos empreendimentos à paisagem e aos valores históricos e culturais do município”, conclui.
Valorização do atemporal
No que diz respeito às características arquitetônicas dos novos empreendimentos, a Ascon identifica uma predominância de projetos contemporâneos, sem adesão a estilos extremos. Para Giacomello, o mercado local busca equilíbrio e bom senso. “O que se observa é uma busca pelo equilíbrio estético, funcionalidade e durabilidade. Não há uma polarização entre o futurista e o clássico. O que se valoriza são projetos atemporais, que se adaptem bem ao entorno urbano e mantenham boa aceitação ao longo do tempo”, explica.
Verônica reforça que a discussão arquitetônica precisa ir além da aparência dos edifícios. “Hoje, a questão central não é identificar uma tendência arquitetônica dominante, mas discutir qualidade arquitetônica”, afirma. Segundo ela, em um contexto de pressões de mercado e velocidade de produção, a boa arquitetura se diferencia pelo conteúdo técnico e urbano. “Projetos contemporâneos são mais frequentes, mas isso, por si só, não garante qualidade. Ela está na capacidade do edifício de dialogar com a cidade, organizar seus espaços e permanecer relevante ao longo do tempo”, pontua.

Infraestrutura urbana limita e orienta o crescimento
A questão é apontada como um dos principais gargalos do crescimento imobiliário em Bento Gonçalves.“Os principais desafios estão ligados à rede de esgoto, ao abastecimento de água, à energia elétrica e à capacidade das vias urbanas, principalmente nas áreas de expansão”, destaca Giacomello. Ele observa que os bairros já consolidados contam com estrutura mais robusta, enquanto os novos vetores de crescimento exigem investimentos elevados. “Isso demanda planejamento cuidadoso, ainda mais considerando as características do solo da região serrana”, ressalta.
Na análise técnica da AEARV, o problema está relacionado a decisões históricas. “As redes de infraestrutura foram pensadas para outra escala urbana. Hoje, elas precisam acompanhar um crescimento mais intenso”, avalia Verônica. Segundo ela, quando esse alinhamento não ocorre, surgem desequilíbrios. “Quando as decisões não são tomadas no tempo certo, a infraestrutura passa a reagir ao crescimento, em vez de orientá-lo”, explica.
Acessibilidade incorporada como critério técnico
A acessibilidade universal também tem ganhado maior atenção nos projetos mais recentes. Para a Ascon, o tema deixou de ser apenas uma exigência legal e passou a integrar o planejamento desde as primeiras etapas. “As construtoras estão cada vez mais atentas às exigências normativas. Hoje, a acessibilidade já faz parte da concepção dos projetos, com soluções que incluem acessos adequados, elevadores, áreas comuns adaptadas e unidades pensadas para atender diferentes perfis de moradores”, afirma Giacomello.
Verônica destaca que a acessibilidade precisa ser entendida como um sistema contínuo. “A acessibilidade universal tem sido incorporada de forma mais consistente desde a etapa de concepção dos projetos, com foco na organização dos fluxos e na clareza dos percursos”, observa. No entanto, ela ressalta que o desafio ultrapassa os limites dos empreendimentos. “A efetividade da acessibilidade depende muito da continuidade fora do lote, especialmente nas calçadas, que seguem como um elemento crítico da experiência urbana”, alerta.

Sustentabilidade e eficiência energética ganham espaço
A preocupação com o tema consolidou-se como uma exigência do mercado imobiliário. Para a Ascon, essas práticas já não são vistas como diferenciais, mas como parte essencial dos empreendimentos. “A sustentabilidade deixou de ser um diferencial e passou a ser uma exigência do mercado. São soluções que reduzem custos operacionais e qualificam o empreendimento ao longo de toda a sua vida útil”, afirma Giacomello.
Para a AEARV, a sustentabilidade tem sido incorporada de maneira técnica e silenciosa. “Ela entra menos como discurso e mais como critério de projeto”, explica Verônica. “Decisões sobre implantação, orientação solar, ventilação e escolha de materiais influenciam diretamente o desempenho do edifício. Quando bem incorporadas, essas soluções qualificam a arquitetura sem precisar ser anunciadas”, afirma.
Público diversificado
O mercado imobiliário local segue aquecido, impulsionado tanto pela demanda habitacional quanto pelo interesse de investidores. “O mercado imobiliário de Bento Gonçalves pode ser considerado aquecido, especialmente quando analisamos o interesse de investidores e compradores que veem o imóvel como um investimento seguro”, avalia Giacomello. Ele projeta um cenário positivo para os próximos anos, desde que haja avanços em infraestrutura e planejamento urbano.
O perfil dos compradores é diversificado. Há famílias em busca de qualidade de vida, investidores atentos à valorização imobiliária e jovens profissionais interessados em empreendimentos mais compactos e bem localizados. Para Verônica, essa diversidade reforça a necessidade de projetos tecnicamente bem resolvidos. “Cada perfil impõe demandas diferentes, e isso exige clareza técnica, compatibilização de projetos e responsabilidade urbana”, observa.
Mobilidade urbana e diálogo institucional
A integração dos novos empreendimentos com o sistema viário é apontada como um dos pontos mais sensíveis do crescimento. “As construtoras buscam soluções internas para minimizar impactos, mas esse é um tema que exige planejamento urbano integrado”, afirma Giacomello. Segundo ele, mobilidade, transporte público e uso do solo precisam ser pensados de forma conjunta.
A relação com o poder público é considerada fundamental nesse processo. “Existe diálogo e uma abertura importante para a construção conjunta de soluções. O avanço do setor passa, necessariamente, por um relacionamento técnico, colaborativo e contínuo com o Poder Público”, ressalta o presidente da Ascon.
Verônica destaca o papel da AEARV como ponte entre os profissionais técnicos e os órgãos públicos. “O diálogo com o IPURB e a prefeitura acontece de forma contínua. A participação dos engenheiros e arquitetos é essencial para qualificar o debate e criar senso de comunidade em torno das decisões”, afirma.
Tecnologia, inovação e compromisso com o futuro
O setor da construção civil em Bento Gonçalves também tem investido em inovação tecnológica. Novos métodos construtivos, maior industrialização dos processos, automação predial e sistemas mais eficientes vêm sendo incorporados gradualmente. “Há investimentos em tecnologias de gestão de obras, projetos mais eficientes e soluções que aumentam a qualidade e a durabilidade das edificações”, afirma Giacomello. Para ele, a inovação contribui para reduzir desperdícios e aumentar o controle de custos.
Na avaliação da AEARV, inovação não significa futurismo. “Inovação tecnológica, aqui, significa produtividade, qualidade e melhor desempenho na construção”, afirma Verônica. Segundo ela, a adoção ainda é gradual, muitas vezes, por causa das barreiras culturais, mas o potencial é evidente.
Ao final, as entidades reforçam que a construção civil segue sendo um pilar fundamental do desenvolvimento urbano. “O compromisso da Ascon é atuar de forma técnica, responsável e colaborativa, contribuindo para que o crescimento de Bento Gonçalves ocorra de maneira planejada, sustentável e alinhada às necessidades da população”, conclui Giacomello.
Para Verônica, o futuro da cidade depende da qualificação contínua das decisões técnicas. “Bento Gonçalves pode se tornar referência regional em arquitetura e urbanismo, mas isso exige estudo, atualização profissional e capacidade de orientar projetos com critério e responsabilidade. Referência se constrói quando o conhecimento acompanha o desenvolvimento e passa a direcionar as escolhas da cidade”, finaliza.