A literatura infantil é uma ferramenta poderosa e essencial no desenvolvimento de uma criança. Desde os primeiros anos de vida, os livros abrem portas para mundos de imaginação e conhecimento, contribuindo de forma significativa para a formação de indivíduos mais criativos, empáticos e críticos.
O contato com a leitura desde cedo estimula o cérebro em um período crucial de crescimento, aprimorando o vocabulário, a linguagem e a capacidade de comunicação. Além disso, ao se deparar com diferentes personagens e narrativas, a criança aprende a lidar com emoções, a entender a diversidade e a desenvolver a empatia, colocando-se no lugar do outro.
Para a psicopedagoga Marcia Aparecida Migliavacca, o hábito de desenvolver a leitura desde a infância traz inúmeros benefícios para a sua formação:
- Melhora o desenvolvimento cognitivo e linguístico: maior concentração nos afazeres diários e principalmente em idade escolar, facilitando assim o seu processo de alfabetização, bem como melhora a concentração, o raciocínio, haverá maior compreensão do que é dito para ela e desenvolverá um vocabulário rico;
- Apresentará maior criatividade e imaginação: a leitura é a entrada para ela desejar ser o que quiser, expande a capacidade criativa e imaginativa da criança;
- Desenvolve a inteligência socioemocional: através de histórias, principalmente, histórias que alegram o coração, que façam viajar pelos caminhos da fantasia e que ensinem a compreender e lembrar sobre aspectos valiosos da vida como: amor, autoestima, confiança, coragem, diálogo, paciência, amizade, generosidade, disciplina, alegria, tolerância, responsabilidade, solidariedade, respeito, entre tantos outros valores;
- Compreensão do mundo: a leitura permite que a criança construa conceitos, aprenda a argumentar e, com isso, desenvolver uma postura crítica perante os fatos do dia a dia;
- Formação de hábitos: ao ser introduzida desde cedo, a leitura torna-se parte da rotina, sendo algo prazeroso e de interesse da própria criança.
Para a escritora de livros infantis, Marta Sassi, a literatura é um espaço de descobertas. “Ajuda a criança a reconhecer sentimentos, compreender o outro e a exercitar a empatia. Como lembra Abramovich (1997), ‘é ouvindo histórias que se pode sentir, imaginar, pensar, refletir, conhecer e reconhecer o mundo’”, cita.
Quando começar a leitura
Marcia explica que, desde a gestação, os pais já podem inserir a leitura na rotina. “Ler para o bebê ainda no ventre fortalece a conexão. O vínculo vai sendo familiarizado com a voz”, destaca.
A partir do nascimento, até por volta dos dois anos, a psicopedagoga orienta que os pais comecem a ler livros interativos e curtos. Entre os três e cinco anos, o interessante é procurar leituras compartilhadas com livros que envolvam a imaginação da criança. “Uma dica é utilizar, também, livros que apresentem somente imagens e, juntos, pais e filhos, vão desenvolvendo a história, dando ‘asas à imaginação’”, observa.
A alfabetização formal ocorre mais tarde, por volta dos seis anos, de acordo com a profissional. “O ‘letramento’ pode iniciar antes, com o objetivo de desenvolver o prazer pela leitura”, recomenda.
Ela observa que as crianças aprendem pelo exemplo e, com isso, é fundamental que os pais sejam um “modelo de incentivo”. Demonstrar a elas o seu próprio gosto pela leitura é muito importante. Elas precisam ver os pais lendo para que tenham a percepção de algo prazeroso e natural. “Também é importante que os pais leiam para a criança, desde bebê, em voz alta”, orienta.
A escritora revela que quando a leitura está presente no cotidiano da criança, torna-se algo natural e duradouro. “Criar momentos de leitura compartilhada, divertida ou para o deleite é um caminho simples e poderoso. Se fortalece e consolida através do exemplo”, estimula.
Marcia orienta que quando a leitura é realizada em família é uma forma de compartilhar momentos. “Fortalece o laço afetivo entre eles, com prazer, conexão, aconchego e tranquilidade”, explica.
Além disso, segundo ela, essas memórias ficarão para sempre guardadas com a criança. “Este momento também pode servir para os pais abordarem com seus filhos assuntos ou sentimentos que necessitem de maior diálogo, pois através da leitura pode-se criar um ambiente de confiança, facilitando a compreensão e o engajamento, tornando as crianças mais participativas e compreensivas”, menciona Marcia.
Desafios e soluções
O fato de as telas estarem cada vez mais presentes no dia a dia das crianças é um obstáculo. “Comece mostrando ao seu filho(a) que o hábito da leitura é um momento prazeroso do seu dia; permita que a criança o veja lendo. As crianças são observadoras por natureza e tendem a imitar o comportamento dos adultos. Dedicar um tempo para ler na presença dos filhos estabelece um exemplo positivo”, diz Marcia.
Apesar disso, a leitura digital pode ser uma grande aliada nesse processo. “Existem plataformas com obras literárias interativas, e a leitura digital acaba sendo, também, uma alternativa para estimular a leitura. Lembrando que a Sociedade Pediátrica não recomenda o uso de telas para crianças menores de dois anos, pois crianças de dois anos estão em rápido desenvolvimento neural e precisam de vivências ricas, nas quais possam brincar, explorar, interagir com o mundo e se comunicar. Para crianças de 2 a 5 anos, o uso de telas é no máximo de uma hora diária, com intervalos e sob a supervisão de um adulto. Para crianças de 6 a 10 anos, é de uma hora e no máximo duas horas diárias, com intervalos e sob a supervisão de um adulto”, relata a psicopedagoga.
O encanto da literatura
Marta Sassi, escritora de livros infantis, descreve seu amor pela literatura. “Desde pequena, vivi o encanto das histórias. Lembro de narrativas que me acompanhavam nas brincadeiras de casinha ou no preparo de um bolo com amigas. Essa e outras experiências que vivenciei me fizeram compreender o quanto a literatura transforma a infância e fizeram surgir o desejo de escrever e ilustrar”, lembra.
As histórias infantis podem acolher a criança em diferentes momentos e fases, até mesmo quando ela está descobrindo suas emoções. “As histórias acolhem, oferecem novas perspectivas e mostram que não estamos sozinhos diante de emoções difíceis, como o medo ou a perda. Oferecem palavras e imagens que ajudam a nomear as dores, as diferenças e a compreender o seu entorno”, menciona a escritora.
A literatura infantil, diferente de outras leituras, é realizada exclusivamente pensada na criança. “Ela fala diretamente à sensibilidade da criança, combinando ludicidade e profundidade. Não apenas informa, mas encanta e desperta para o vasto repertório da imaginação”, enfatiza Marta. Além disso, ela explica que a parte lúdica, como os desenhos, tem um papel tão importante quanto o texto para a criança. “A ilustração amplia sentidos, dialoga com o texto e permite que a criança “leia” também com os olhos, possibilitando o acesso para o universo da história”, observa.