Todo ano novo é a mesma coisa: depois da desesperança do prêmio da Mega-Sena e da indecisão sobre a cor da roupa do réveillon, a gente faz (ou refaz) metas, planos e sonhos para este livro novo, com 365 páginas em branco prontas para serem escritas da melhor forma possível.
Doze meses parecem tempo suficiente para viver muita coisa. A virada do ano dá um gás de recomeço, traz uma sensação de paz, silêncio, ordem e organização. A gente cresce e troca a balbúrdia pelo sossego, as redes sociais pelos livros, a bebida pelo exercício físico, a tatuagem pela oração, a vida solitária por uma casa com criança. Faz as malas de volta, pega a estrada, lava as roupas, retorna ao trabalho com a alma descansada e o peito cheio de esperança.
Janeiro chega como uma segunda chance. A gente lista metas: de novo quer emagrecer, começar um curso, guardar dinheiro. Vai à missa (ou promete se encontrar mais com a espiritualidade), faz aquela limpa no guarda-roupa para doação, organiza a casa, compra material escolar para as crianças. E assim começa mais um ano, na esperança de viver com saúde e paz, ignorando um pouco os noticiários que insistem em anunciar mais uma provável guerra, agora envolvendo os norte-americanos.
Só que, passada a empolgação inicial, chega a segunda quinzena de janeiro, esse território nebuloso onde a motivação começa a negociar com a realidade. O boleto aparece antes do ânimo, a dieta já conheceu o pão francês e o tênis novo de corrida descansa no armário como quem diz: “calma, ainda temos o ano inteiro”. As promessas seguem firmes… no modo silencioso.
E a vida, sempre pedagógica, ensina que recomeçar não é um evento com fogos, mas um exercício diário, discreto, feito de pequenas tentativas. Não é preciso mudar tudo de uma vez nem virar outra pessoa até o Carnaval. Às vezes basta ajustar o passo, trocar o excesso pelo essencial, diminuir o barulho de fora para ouvir melhor o que mora dentro.
Janeiro vai passando e fevereiro se anuncia com sua pressa habitual. O trânsito trava, as agendas se enchem, as notificações reaparecem. Mas algo fica. Um hábito que resistiu, um café tomado sem pressa, um “não” dito no momento certo. Pequenas vitórias que não rendem foto, mas sustentam o ano.
Talvez amadurecer seja entender que a vida não se organiza sozinha só porque o calendário virou. Que paz não é ausência de problemas, mas a capacidade de atravessá-los sem se perder. Que felicidade mora menos nas grandes conquistas e mais nas repetições simples: o almoço em família, o trabalho bem feito, a casa bagunçada de gente viva.
Que saibamos encontrar a felicidade dentro de casa, plantar gentileza no nosso quintal e rir de nós mesmos quando falharmos — porque vamos. Que sejamos melhores para que o ano também prospere. São 365 novas oportunidades de recomeço. Um dia de cada vez. A gente já venceu tanta coisa!