Comemorado em diversos países no dia 31 de outubro, a celebração é hoje amplamente reconhecido por suas fantasias extravagantes, decorações sombrias e pela tradicional prática do “doces ou travessuras”

Por trás da estética lúdica e comercial que caracteriza a data há uma história milenar que remonta às tradições celtas e à espiritualidade ancestral. A professora Camila Turella, docente de língua inglesa no Programa UCS Línguas Estrangeiras, esclarece os aspectos históricos, religiosos e culturais que moldaram o Halloween ao longo dos séculos, além de refletir sobre sua presença crescente no Brasil.

Camila Turella, docente de língua inglesa

Segundo Camila, o Halloween tem origens muito antigas, ligadas diretamente ao festival celta de Samhain, celebrado no final de outubro para marcar o fim do verão e o início do inverno. “Naquela época, acreditava-se que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos se tornava mais fino, permitindo o contato entre ambos. Originalmente, portanto, o Halloween era uma celebração ligada à colheita e ao ciclo da vida e da morte”, explica. A festividade não possuía o caráter festivo que conhecemos hoje, mas sim um tom ritualístico e espiritual, voltado à reverência aos antepassados e à preparação para os meses mais sombrios do ano.

Adaptações e mudanças

Com o avanço do cristianismo na Europa, a celebração passou por um processo de transformação. “Igreja incorporou elementos pagãos e instituiu o Dia de Todos os Santos (All Hallows’ Day) em 1º de novembro, transformando a véspera, All Hallows’ Eve, no que hoje conhecemos como Halloween. Essa transição mostra como as culturas se misturam e se transformam ao longo dos séculos”, observa a professora. 

A influência da Igreja foi significativa, pois ao incorporar elementos do Samhain, atribuiu novos significados religiosos à celebração, tornando-a mais simbólica e menos ritualística. “O Halloween passou a incorporar aspectos de reflexão sobre a morte e a espiritualidade, distanciando-se das práticas originais”, complementa.

Popularização da data

A chegada do Halloween aos Estados Unidos ocorreu no século XIX, com os imigrantes europeus, especialmente irlandeses e escoceses. “Lá, as tradições foram se adaptando à nova realidade cultural: as abóboras substituíram os nabos usados originalmente nas lanternas, e o “trick or treat” (doces ou travessuras) ganhou popularidade. A partir dos EUA, a celebração se espalhou pelo mundo graças à força da cultura americana, especialmente por meio do cinema, da televisão e da música”, afirma Camila. Ela ainda complementa sobre a difusão da data: “O cinema e a cultura pop dos Estados Unidos ajudaram muito a tornar o Halloween famoso em vários países. Filmes, desenhos e séries criaram todo aquele clima de fantasmas, bruxas e abóboras que a gente associa à data. O Halloween virou um grande símbolo da diversão e da imaginação”, esclarece.

No Brasil, o Halloween ainda é visto por muitos como uma celebração importada, mas vem ganhando espaço, especialmente entre os jovens e nas instituições de ensino. A professora destaca que o interesse pela data está diretamente ligado à influência da mídia e das redes sociais, além da curiosidade pelas culturas estrangeiras. “As novas gerações são muito conectadas e acabam absorvendo práticas globais, adaptando-as à nossa realidade local”, observa. Hoje, é comum encontrar festas temáticas, decorações e até versões brasileiras da comemoração, o que demonstra uma apropriação cultural que ressignifica o Halloween dentro do contexto nacional.

Forma de aprendizado

Além de seu apelo comercial e estético, o Halloween tem se mostrado uma ferramenta pedagógica eficaz. No ensino de línguas estrangeiras, por exemplo, a celebração oferece oportunidades de aprendizado contextualizado e envolvente. “Ele permite trabalhar o idioma de forma divertida, além de aproximar os alunos da cultura dos países de língua inglesa. É uma oportunidade de aprender vocabulário, costumes e até aspectos históricos e culturais de maneira envolvente.”, explica Camila. 

Por fim, a professora ressalta a importância de conhecer as tradições culturais de outros países como forma de ampliar a compreensão do mundo e cultivar o respeito à diversidade. “Ao estudar diferentes celebrações, aprendemos sobre valores, histórias e modos de vida distintos, o que amplia nossa formação humana e cultural”, afirma. 

O conhecimento cultural integrado a data amplia o escopo de conhecimento estudantil não só dos EUA mas também da Europa, já que a data passou por uma ressignificação. Camila destaca que a celebração oferece uma oportunidade de diálogo entre culturas, permitindo que os alunos e a comunidade reflitam sobre o passado, o presente e as transformações que moldam as práticas sociais.” Ao estudar diferentes celebrações, aprendemos sobre valores, histórias e modos de vida distintos, o que amplia nossa formação humana e cultural. No caso do Halloween, compreender suas origens e significados contribui não apenas para o aprendizado da língua inglesa, mas também para uma apreciação mais profunda da cultura que a envolve”, finaliza.

O Sabbat 

O Samhain era observado tradicionalmente na noite de 31 de outubro, marcando a passagem do ano celta. A sua importância ultrapassava a organização agrícola para se inserir em um contexto espiritual profundo: os celtas acreditavam que, neste período, o véu entre o mundo físico e o espiritual se tornava extremamente tênue, permitindo que espíritos e entidades sobrenaturais, incluindo os ancestrais falecidos, pudessem vagar livremente pela Terra. Este contato com o “Outro Mundo” tornava o Samhain um momento de grande reverência, mas também de cautela.

Cerimônias e rituais ancestrais

Os rituais centrais do Samhain eram realizados nas regiões habitadas pelos celtas, abrangendo áreas que hoje correspondem a países como Irlanda, Escócia e Grã-Bretanha. As cerimônias eram presididas pelos druidas, os sacerdotes celtas, que atuavam como mediadores entre o povo e o plano espiritual.

Um dos costumes mais significativos envolvia a iluminação de grandes fogueiras. As lareiras domésticas eram apagadas e reacesas a partir de uma fogueira sagrada comum, simbolizando a união da comunidade e a proteção contra espíritos malignos. Além disso, as fogueiras serviam para guiar os espíritos benevolentes dos ancestrais que retornavam para visitar seus lares. Oferendas de alimentos e bebidas eram deixadas do lado de fora das casas para apaziguar os espíritos errantes e honrar os antepassados.

Outra prática comum era a adivinhação, aproveitando a suposta maior capacidade psíquica do período. Rituais como apanhar maçãs com a boca eram realizados para obter vislumbres do futuro, integrando a esfera mágica à vida cotidiana. O receio de encontrar entidades malignas fez surgir o costume de usar máscaras e trajes assustadores – as primeiras “fantasias” – como forma de evitar o reconhecimento ou de se misturar aos espíritos que perambulavam.

O legado de Samhain na atualidade

Atualmente, as representações do Samhain são variadas. O Halloween, com suas abóboras esculpidas (substituindo o nabo original), a prática de “doces ou travessuras” e o uso de fantasias, é a manifestação mais evidente e globalizada, embora com um significado predominantemente festivo e comercial.

Entretanto, o Samhain ainda é celebrado por grupos que buscam resgatar as tradições pagãs e neopagãs, como os seguidores da Wicca, que o consideram um dos mais importantes festivais da Roda do Ano Celta. Nesses círculos, a data de 31 de outubro no hemisfério norte e 30 de abril no hemisfério Sul, é vista como um momento de profunda introspecção, honra aos ancestrais e reflexão sobre o ciclo de morte e renascimento. Em locais como a Irlanda e a Escócia, e mesmo em cidades globais, festivais culturais tentam recriar ou homenagear a atmosfera mística e comunitária do antigo Ano Novo celta.