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Bento Gonçalves registrou, até outubro de 2025, um aumento de 17% nos furtos de veículos (subtração de bens sem violência ou ameaça) em comparação com o mesmo período de 2024. Os casos passaram de 54 para 63. Na contramão desse movimento, os roubos (crimes cometidos mediante violência ou grave ameaça) caíram de cinco para três registros, uma redução de 40% em relação aos 10 primeiros meses. Para entender essa discrepância e seus impactos no cotidiano da segurança pública local, a reportagem ouviu o advogado, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, André Roberto Ruver, que analisa fatores estruturais, comportamento criminoso e atuação policial.

Aumento com múltiplas causas

Segundo Ruver, o crescimento dos furtos de veículos não pode ser explicado por uma única variável. Ele destaca que determinados delitos apresentam sazonalidade e são influenciados por fatores que vão desde a demanda de grupos especializados em receptação até oportunidades momentâneas para a prática criminosa. “Quando há maior facilidade para adquirir veículos destinados ao desmanche, clonagem, revenda ou uso em outros crimes, aumenta também o estímulo para furtos e roubos”, explica. Ele observa que o mercado ilegal funciona de forma semelhante ao comércio tradicional: quanto maior a oferta, maior a procura.

Foram 63 furtos de veículos até outubro deste ano

O professor destaca ainda que as variações estatísticas nem sempre permitem apontar qual fator foi o mais determinante. No entanto, reforça que as instituições policiais possuem instrumentos eficazes de resposta, como o georreferenciamento das ocorrências e operações direcionadas. Essas estratégias costumam conter ciclos de criminalidade ao identificar áreas com maior concentração de registros.

Um exemplo citado por Ruver ocorreu em agosto de 2025, quando a Brigada Militar prendeu um grupo responsável por grande parte dos furtos registrados naquele período. “Após serem soltos e voltarem a delinquir, foram presos novamente, a reincidência cessou e os números reduziram. Esse exemplo revela como dinâmicas pontuais podem impactar diretamente as estatísticas criminais”, completa. O grupo realizou 20 furtos apenas em agosto.

Impacto do policiamento ostensivo

Enquanto os furtos aumentaram, os roubos de veículos tiveram redução. Para Ruver, essa queda está diretamente relacionada ao fortalecimento das políticas de segurança implementadas no Rio Grande do Sul, especialmente o Programa RS Seguro, reconhecido pelos resultados positivos na diminuição da violência. “As ações ostensivas da Brigada Militar, aliadas às investigações conduzidas pela Polícia Civil e, sobretudo, à integração entre as instituições, um dos eixos basilares do RS Seguro, têm contribuído significativamente para a queda dos índices, especialmente dos crimes com violência”, afirma.

De acordo com ele, furtos e roubos também se diferenciam pelo perfil de oportunidade: enquanto o roubo exige confronto e envolve maior risco, o furto costuma estar ligado a necessidades imediatas dos infratores, como obtenção de renda para sustentar o consumo de drogas.

Houveram três roubos de veículos no município até o mesmo período

Migração de métodos e adaptação

O contraste entre alta nos furtos e queda nos roubos pode indicar mudanças no comportamento dos criminosos. Ruver concorda com a avaliação que existe tendência de migração para delitos que ofereçam menor risco e maior facilidade de execução, especialmente quando há pressão policial sobre crimes violentos.

Fatores estruturais em análise

Para além da atuação policial, elementos como circulação de veículos, expansão urbana, vulnerabilidade social e variações socioeconômicas também influenciam os números. “Tais fatores são constantemente avaliados por configurarem elementos capazes de aumentar ou reduzir a criminalidade. Contextos socioeconômicos favoráveis, como maior renda e empregabilidade, tendem a contribuir para a queda dos delitos. Em sentido oposto, a vulnerabilidade social costuma criar condições propícias para o incremento de crimes patrimoniais”, ressalta Ruver.

Tecnologia e integração como aliadas

A redução dos roubos, segundo o especialista, também está ligada à eficiência das estratégias de prevenção. O georreferenciamento orienta o reforço policial exatamente onde o risco é maior. “Paralelamente, a investigação qualificada busca responsabilizar os autores, o que impede a continuidade delitiva. Esse trabalho integrado, presença ostensiva, inteligência policial e troca constante de informações, ilustra o funcionamento da política de segurança e explica parte dos resultados positivos”, evidencia.

Embora não haja órgãos dedicados exclusivamente ao estudo dos perfis dos autores dos crimes, o professor afirma que é possível confirmar padrões, como atuação de pequenos grupos, reincidência e forte ligação com a receptação, incluindo revenda de celulares, cobre e outros bens de fácil comercialização.

Como reduzir os índices?

Para Ruver, o enfrentamento aos crimes contra o patrimônio precisa combinar ações imediatas e planejamento de longo prazo. Ele reforça a necessidade de fortalecer programas como o RS Seguro e de promover políticas públicas duradouras. “A eliminação das práticas criminosas envolve não apenas o Estado, mas também a comunidade”, afirma.

O especialista defende estratégias permanentes de prevenção, integração institucional e participação social, capazes de oferecer respostas consistentes e sustentáveis. “A ocorrência de crimes, por si só, já é motivo de preocupação, pois afeta diretamente a sensação de segurança da população. Mais importante do que identificar um padrão específico é reforçar a necessidade de um enfrentamento constante, firme e estruturado. A segurança pública continua sendo, há anos, uma das maiores preocupações dos brasileiros, figurando como tema de destaque nas pesquisas e nos debates públicos, especialmente em períodos eleitorais. É imprescindível que deixe de ser apenas pauta política e se transforme em política de Estado capaz de promover pacificação e harmonia social. A complexidade do tema exige soluções amplas, não existem respostas simples para problemas tão profundos”, finaliza.

A Brigada Militar foi contatada, mas a reportagem não obteve resposta.