No início de fevereiro de 2003, Monte Belo do Sul deixou de ser apenas um pequeno município da Serra Gaúcha para se transformar em cenário de uma produção marcante da teledramaturgia brasileira. Foi ali que a TV Globo gravou os capítulos finais da novela Esperança, obra dirigida por Luiz Fernando Carvalho e protagonizada por nomes como Fernanda Montenegro, Reynaldo Gianecchini e Priscila Fantin. Passadas mais de duas décadas, o episódio segue vivo na memória da comunidade, como um divisor de águas para a cultura e o turismo local.
A escolha do município não foi por acaso. Segundo o então e atual secretário de Cultura e Turismo, Alvaro Manzoni, a produção buscava, na região, um cenário que se assemelhasse à italiana Civita di Bagnoregio, na Toscana, onde haviam sido gravados os primeiros capítulos da novela. “Encontraram em Monte Belo do Sul o lugar ideal. A produção conduziu grande parte do projeto e nós auxiliamos especialmente na figuração e na indicação dos locais para suporte da equipe”, relembra.
Desafio coletivo e mobilização
À época, Manzoni já ocupava a secretaria e recorda que o processo exigiu articulação intensa. A Comunidade Nossa Senhora do Caravaggio foi definida como principal locação, enquanto outras possibilidades chegaram a ser avaliadas, mas descartadas por questões técnicas. Coube ao município organizar a figuração, reunindo integrantes de grupos folclóricos locais e moradores que se encaixavam no perfil buscado pela produção.
A primeira reunião ocorreu na Igreja Matriz, onde foram repassadas orientações e coletadas autorizações de uso de imagem. “Para figurantes, foram selecionados os integrantes dos grupos para dar oportunidade àqueles que sempre se doaram à cultura local, muito embora outros fossem selecionados conforme indicação da produção, que se assemelhavam às características próprias buscadas nos personagens”, destaca.

Apesar do porte da equipe do projeto, poucas adaptações estruturais foram necessárias. A própria equipe trouxe refeitórios e estruturas móveis, enquanto o município indicou famílias que pudessem ceder suas casas para apoio. Entre elas, destacou-se a família Salton, que acolheu os artistas principais, e a família Buratti, que cedeu seus vinhedos como cenário.
Uma casa transformada em camarim
Foi na propriedade da família Salton que parte dos bastidores ganhou contornos inesquecíveis. Leonardo Salton lembra da euforia ao saber que a casa dos pais havia sido escolhida. “A intermediação na escolha do local para a gravação foi feita pela Secretaria de Cultura e Turismo do então Prefeito da época, Sr. Leonir Olímpio Razador, que apresentou mais de uma opção. A nossa família, que sempre acompanhava a novela pelas telas, obviamente ficou eufórica com a possibilidade de receber os artistas, e a notícia de sermos escolhidos pela direção foi motivo de comemoração e muito entusiasmo. Foram levados em conta a bela paisagem, os parreirais antigos, o local reservado e a estrutura da propriedade. Lembro que melhoramos os jardins e entornos da residência, foram feitos ajustes internos na casa e nos preparamos com o intuito de recebê-los com o que a família sempre fez de melhor aos seus visitantes. Na época, morávamos todos juntos, eu, meu pai José, minha mãe Zélia, minha irmã Juciléia, e meu irmão Edson, com sua esposa Cátia e filha Karine, e todos de alguma forma se envolveram nas preparações e nas gravações”, conta.

Recordações afetuosas
Durante os dias 10 e 11 de fevereiro de 2003, a residência virou um grande camarim: quartos ocupados por atores, figurinos espalhados e equipamentos circulando entre os parreirais. “Eles descansavam e se preparavam em nossos quartos, e à noite, ficavam no hotel. Fernanda Montenegro usou o quarto de meus pais, o meu quarto ficou com Priscila Fantin e Reynaldo Gianecchini se acomodou no quarto de meu irmão e minha cunhada. A equipe adaptou um refeitório em frente ao galpão para todos os figurantes e trabalhadores, e meu irmão usava o nosso tuc-tuc para carregar os equipamentos pesados em meio aos parreirais. As crianças da casa (eu, minha irmã e minha sobrinha) atuamos como figurantes junto a muitos outros do município”, relembra.
Segundo ele, a convivência com o elenco foi muito especial. “O maior contato foi com Fernanda e Reynaldo, que se interessaram pela história e vida da família. Tivemos conversas e uma experiência de pessoas simples e valorosas, gente como a gente. O diretor Luiz Fernando Carvalho também foi muito atencioso e paciente, coordenou tudo com muito respeito e proximidade. Priscila chegou bem cansada da viagem, mas no segundo dia já era de casa e estava bem à vontade, devorou os bolos preparados pela minha cunhada Cátia, e quis levar a receita”, frisa.

Data especial para sempre lembrada
Um dos momentos mais emocionantes foi o aniversário de Leonardo, celebrado com parabéns cantados por elenco e equipe. “Ver e ouvir todos cantando pelos meus 10 anos me marcou. Para a família, foi a despedida. Reunidos na cozinha, aconteceram os agradecimentos e fortes palavras sobre a recepção e acolhimento que receberam de nossa família e de Monte Belo. Questionados com insistência sobre como poderiam retribuir financeiramente ou com algo aos dias passados, minha mãe bem emocionada, explanou que tinha o sonho de presentear a casa com um computador, pelos estudos dos filhos e da neta, com a esperança de dias melhores, mas no momento ela não tinha previsão de condições para aquisição. Comovidos com o relato, de imediato, equipe e atores assumiram o compromisso de enviar o computador, e depois de alguns meses, ele chegou em nossa casa, novinho e completo, onde desempenhou um papel importante no nosso dia-a-dia e futuro”, destaca.
Passados mais de 20 anos, o momento é lembrado pela família com muito carinho. “Muitas coisas mudaram de lá para cá, e estamos residindo na cidade, mas as lembranças continuam na casa e em nossas vidas. A propriedade permanece com a família, o computador ainda sobre a escrivaninha da época e no mesmo quarto. Guardamos todas as fotos em um álbum e vários recortes de jornais que noticiaram o acontecido, as agendas com os autógrafos também foram preservadas. Receber os globais em nosso ambiente e movimentar tantas pessoas, vindas de toda a região, certamente despertou ainda mais o nosso sentimento com a arte, com os costumes e tradições de nossos ascendentes italianos, e por toda a história, também relatada na trama da novela. Valorizamos muito nossas belas paisagens e nossa cultura, buscamos sempre manter vivo o saber e o patrimônio deste povo, e nos orgulhamos muito de Monte Belo do Sul, uma pequena cidade de grandes pessoas. Quem faz memória, mantém a sua história!”, finaliza.

Figuração, emoção e descoberta dos bastidores
Entre os muitos moradores que participaram como figurantes, Olices Bruschi, convidado pela gestão municipal na época, destaca o impacto de conhecer de perto artistas que antes só via pela televisão e se surpreender com o rigor das gravações. “A repetição das cenas e a exigência do diretor chamavam a atenção. Não imaginava que fosse dessa forma”, diz. O que mais o marcou foi a simplicidade da Fernanda Montenegro. “Saímos de braços dados, e ela me confessou: já conheceu o mundo inteiro, mas não imaginava encontrar um lugar tão lindo como Monte Belo”, conta.
Marinez Berselli Zanchet, integrante do grupo de teatro Fratelli di Cuore, também foi chamada para a figuração. “Foi emocionante ver quantas pessoas estavam envolvidas em cada cena. Muita gente de outras cidades queria chegar perto”, lembra. Já Bruna Moro Robetti participou ao lado dos pais, Lourdes e Ari Luiz, e recorda cenas dançadas sob os parreirais, ao lado de Fernanda Montenegro e Priscila Fantin.

Marco cultural e projeção turística
A presença da Globo provocou comoção geral na cidade. Para Alvaro Manzoni, ver moradores locais integrando uma produção nacional teve um significado simbólico profundo. “Acredito que esta foi uma das melhores experiências que o Município e sua gente tiveram, juntamente com o filme Saneamento Básico e mais recentemente com o programa Avisa Lá Que Eu Vou. Todavia, a produção com artistas como Fernanda Montenegro, Reynaldo Gianecchini e Priscila Fantin foi a primeira e estar compondo este momento foi extremamente importante, já que fomos escolhidos diante de tantos cenários exuberantes que temos na Região Serrana do Estado e mais do que isto, representar o RS, valorizando as pessoas e as paisagens”, afirma.
O impacto cultural foi imediato e duradouro. A exibição dos dois últimos capítulos em uma sessão pública na praça reuniu figurantes, famílias e a comunidade, consolidando o momento como um marco histórico. “Serviu como um modelo, provando que realmente temos uma identidade, que embora sendo brasileiros, possuímos esta origem de um povo que migrou pobre e conseguiu superar os desafios da época”, ressalta o secretário.

Peças de figurino deixadas pela produção passaram a integrar desfiles alegóricos, como os da Festa de Abertura da Vindima. Depois de Esperança, o município ainda recebeu gravações de O Filme da Minha Vida, O Último Jogo e um especial do influenciador digital Elzinga, que muito tem repercutido nas redes sociais.
Do ponto de vista turístico, Manzoni acredita que os frutos continuam sendo colhidos. “Temos um ditado muito comum, que diz que quem semeia um dia colhe, e isto nos norteia a sempre apoiar estas iniciativas, já que estas produções entram diretamente na casa das pessoas e de uma forma ou outra a localidade é lembrada e o movimento no turismo é automático. Entendemos que toda e qualquer iniciativa desta natureza deve ser apoiada, pois é um investimento onde o município tem custo baixo e retorno satisfatório”, avalia.
Memória viva e legado
Mais de 20 anos depois, o episódio segue presente no imaginário coletivo de Monte Belo do Sul. Fotografias, recortes de jornais, figurinos e histórias contadas de geração em geração mantêm viva a lembrança. Para a gestão pública, a principal lição foi a certeza do potencial do município como polo de turismo cultural. “Sem dúvida hoje as realidades são outras e a forma de fazer e buscar as condições melhoraram, tanto tecnologicamente quanto em experiências, tanto é que o Avisa Lá Que Eu Vou contou com 27 integrantes da equipe em quatro dias de filmagens e todo o itinerário foi conduzido pela Secretaria. Não devemos ter medo de investir em cultura, pois é ela que nos traz a base de nossa história. Enquanto muitos dizem que é despesa, entendemos que o esforço em favor de valorizar e divulgar nossas localidades é investimento sadio, que faz bem para a saúde do corpo e da alma. Devemos nos esforçar ao máximo para buscarmos o que é de direito, já que existem mecanismos da busca de recursos, tanto financeiros como de divulgação, basta que nos doemos em favor de ações que valorizem nossa memória e nossas tradições”, pondera Manzoni.
Ao olhar para o passado, Monte Belo do Sul reafirma sua identidade construída ao longo de mais de 150 anos de imigração italiana. “Devemos promover a história através da manutenção de grupos de canto, música, dança e teatro, bem como eventos de experiência, tratando-os como ícones importantes de valorização de talentos. Este tipo de produção audiovisual é fundamental para a cultura contemporânea por atuar como um espelho da sociedade e um motor de transformação social. Filmes, novelas de época, documentários e séries registram costumes, dialetos e eventos históricos, consolidando a identidade de um povo, sendo que além disso, essas produções não apenas entretem, mas moldam a percepção pública e garantem que a diversidade cultural de uma localidade seja exportada e reconhecida globalmente”, conclui Manzoni.



