Na madrugada de quarta-feira, 6 de agosto de 2025, o youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, lançou um vídeo intitulado “adultização”, no qual denuncia a exposição precoce de crianças e adolescentes a conteúdos e práticas adultos nas redes sociais, desde situações de sexualização até a promoção de crianças como influenciadoras mirins. Em apenas cinco dias, o vídeo já havia ultrapassado quase 30 milhões de visualizações, gerando forte comoção social e acendendo um alerta para a questão crescente nas plataformas digitais.

O impacto foi imediato: parlamentares intensificaram a discussão e, em pouco tempo, surgiram pelo menos 35 novos projetos de lei relacionados à proteção infantojuvenil online, além de outras iniciativas já em tramitação desde 2015. Entre as propostas, destacam-se: A criminalização da sexualização digital de menores; Implementação de mecanismos de verificação etária, filtros preventivos e sistemas de remoção de conteúdo; Responsabilização legal de plataformas, patrocinadores e responsáveis pela exposição inadequada de crianças; Regulação da atuação de influenciadores mirins e da monetização de seus conteúdos.

Plataformas como Meta e Google (via YouTube) afirmaram estar adotando políticas de segurança infantil. O YouTube relatou ter removido mais de 18,8 milhões de vídeos em 2024 por violações relacionadas à proteção de menores, enquanto a Meta reiterou que não tolera conteúdos de exploração infantil. 

Um estudo da TIC Kids Online Brasil (2023) revelou que 88% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos usam redes sociais, e 66% criaram perfis antes dos 12 anos. A mesma pesquisa destacou que, o uso de filtros de beleza e edição de imagem nas redes contribui para padrões idealizados e inalcançáveis, gerando insatisfação corporal, baixa autoestima, ansiedade e depressão, especialmente entre as adolescentes, com cerca de 60% relatando angústia ao comparar sua aparência real com versões retocadas.

Impactos comportamentais e emocionais da adultização digital

A adultização de crianças nas redes sociais vai além da sexualização precoce. A psicóloga e mestre em Psicologia Clínica, Franciele Sassi, explica que o fenômeno envolve uma série de práticas que “estão debaixo do nariz de todos nós, mas foram sendo banalizadas, minimizadas ou naturalizadas devido à frequência com que passaram a ocorrer”, alerta.

Franciele Sassi, Psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica

Ela explica que a exposição precoce a responsabilidades e comportamentos adultos é um dos eixos centrais desse processo. “Estamos falando, em primeiro lugar, da exposição precoce a responsabilidades que não cabem às crianças, como se elas pudessem ser mini empreendedoras ou influenciadoras, promovendo discursos a despeito de produtividade, estilos de vida, finanças, estética – conteúdos adultos que envolvem construção e integração de um senso crítico que a criança não apresenta em totalidade em razão do seu próprio período do desenvolvimento biopsicossocioespiritual”, afirma.

Além disso, padrões consumistas, vestimentas adultas, participação em concursos de beleza e eventos competitivos são práticas que, segundo ela, interferem diretamente na saúde mental: “Isso mexe com a autoestima, com a autoimagem e até com as formas de se relacionar. A criança começa a moldar quem é a partir de expectativas externas, e não do próprio desejo ou interesse”, explica.

Sobre a influência das redes e do marketing digital, ela observa: “A cultura da influência e a lógica de engajamento criam um terreno fértil para encurtar ou distorcer a vivência da infância. Muitas vezes, esse processo é legitimado pelo público e pelas marcas, que monetizam esse tipo de conteúdo”, afirma. 

A especialista explica diferenças na adultização de meninas e meninos. “Nas meninas, há tendência à sexualização e exigência de manter a compostura, o que inibe comportamentos lúdicos e aumenta a vulnerabilidade a assédio, além de gerar pressão por um padrão estético inalcançável. Nos meninos, a adultização está ligada à ostentação, desempenho e necessidade de se mostrar forte, o que pode resultar em masculinidades enrijecidas e maior exposição a comportamentos de risco, como consumo de álcool, drogas e autolesão”, aponta.

Entre os principais impactos, ela lista: “Distorção da autoimagem, maturidade emocional incoerente com a idade, fragilidade nas fronteiras psíquicas e dependência da validação externa. Quando a criança aprende que só tem valor pelo olhar do outro, fica vulnerável e sem lugar próprio no mundo. Isso é roubar a identidade infantil”, destaca.

A psicóloga também ressalta a importância de limites claros: “Limites são o que nos dão segurança e noção de certo e errado. Sem eles, a criança ocupa qualquer lugar — muitas vezes lugares que não são seguros. Criança não deve fazer coisas de adultos — se esses lugares não forem organizados, eles extrapolam e transbordam, gerando marcas e traumas para a vida,” observa.

Para enfrentar o problema, ela defende uma educação digital que envolva famílias, escolas e políticas públicas. “Pais e responsáveis precisam monitorar conteúdos e estabelecer horários para o uso das telas. As escolas devem promover conversas abertas sobre sexualidade, padrões de beleza e pressões sociais.” A psicóloga também sugere campanhas de conscientização, leis mais rígidas e fiscalização ativa de plataformas digitais. “A proteção da infância é um dever coletivo. Não é só sobre controlar a internet, é sobre devolver à criança o direito de viver plenamente sua infância”, conclui.

O olhar jurídico: responsabilidade das plataformas e educação digital

A professora de Direito Digital da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Patrícia Montemezzo, avalia que a adultização no ambiente digital vai além do conteúdo sexualizado. Segundo ela, a publicidade de determinados produtos também exerce papel significativo nesse processo.

Patrícia Montemezzo, professora da UCS e mestre em Direito

“Há campanhas voltadas especialmente para o público feminino, envolvendo maquiagem, roupas, acessórios e produtos de marca. Muitas vezes, vemos meninas pequenas entendendo mais de maquiagem do que os próprios pais e utilizando produtos que podem, inclusive, prejudicar a saúde. Pesquisas indicam que algumas substâncias presentes em cosméticos afetam a questão hormonal e podem antecipar a menarca”, explica.

Patrícia destaca que os algoritmos das plataformas digitais reforçam esse cenário ao recomendar repetidamente o mesmo tipo de conteúdo consumido pela criança ou adolescente, criando “bolhas informacionais”. “Sem um senso crítico desenvolvido, eles passam a naturalizar comportamentos, linguagens, padrões de consumo e tendências de moda. Isso molda a forma de pensar e influencia diretamente a liberdade de escolha, pois o usuário deixa de ter contato com conteúdos divergentes”, afirma.

Outro ponto levantado pela professora é a influência de realidades artificiais criadas por influenciadores. “A vida exibida nas redes muitas vezes é construída para monetizar. Crianças e adolescentes passam a acreditar que aquele padrão de vida é ideal e desejável, o que é muito negativo, não só no aspecto da pedofilia, que é gravíssimo, mas em outros abusos e impactos”, alerta.

Para ela, a solução passa pela educação digital e midiática. “Não adianta proibir totalmente o uso das redes sociais. Vivemos em um mundo digitalizado, no qual até o acesso a serviços públicos exige domínio tecnológico. O caminho é fiscalizar, monitorar e ensinar crianças e adolescentes, e também pais e responsáveis, a analisar criticamente o que recebem”, defende.

Patrícia também vê a necessidade de maior responsabilização das plataformas. “Conteúdos de pedofilia e exploração sexual, mesmo quando não explícitos, muitas vezes geram lucro para as redes. É preciso impor obrigações para identificação e retirada desse material. Não se trata de censura, mas de combater crimes”, afirma.

A advogada ainda considera importante criar barreiras tecnológicas para impedir que menores abram contas em redes sociais e reforça o papel da família. “Os pais e responsáveis respondem pelos atos de crianças e adolescentes e, portanto, têm o direito e o dever de monitorar o acesso. Limitar o uso de celulares nas escolas também contribui para reduzir a exposição e ajuda no ambiente escolar”, conclui.