Mudanças cerebrais observadas não indicam risco à saúde, afirma endocrinologista
Um estudo recente publicado na revista Nature Medicine trouxe novas luzes sobre o funcionamento da tirzepatida, princípio ativo do medicamento Mounjaro. A pesquisa, conduzida por especialistas da Universidade da Pensilvânia, identificou pela primeira vez, em seres humanos, como o fármaco interfere na atividade de áreas do cérebro ligadas ao prazer e ao impulso de comer. Os cientistas observaram alterações significativas no núcleo accumbens, região central do sistema de recompensa e motivação, indicando que o remédio não atua apenas no controle metabólico, mas também na forma como o cérebro processa estímulos relacionados à comida.
De acordo com a médica endocrinologista Fernanda Victorazzi Lain, professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a tirzepatida parece reduzir o tempo em que a pessoa pensa em comida mesmo sem estar com fome, fenômeno conhecido como “food noise”. Isso ocorre porque o medicamento diminui a atividade do núcleo accumbens, área responsável por processar sensações de recompensa e prazer. Trata-se de uma experiência comum entre pessoas que lutam contra a fome emocional e o comer impulsivo, e que tem ganhado destaque à medida que novos tratamentos demonstram impacto direto nesses processos cerebrais. “Os pesquisadores acreditam que o Mounjaro ‘acalma’ a parte do cérebro que exagera a vontade de comer (o centro de recompensa) e, ao mesmo tempo, aumenta os sinais de saciedade”, menciona. A médica destaca ainda que o medicamento “ajusta o cérebro para que a comida não pareça tão ‘urgente’ ou tão irresistível”.
Como o estudo foi realizado
Três pacientes com obesidade severa e episódios de comer compulsivo participaram do estudo. Todos tinham eletrodos implantados no núcleo accumbens, conectados a um neuroestimulador, um pequeno dispositivo semelhante a um marca-passo cerebral, usado em testes clínicos para tratar comportamentos alimentares desregulados. Esses eletrodos permitiram registrar, em tempo real, as oscilações elétricas que surgem quando o desejo por comida aumenta.
Nos dois primeiros participantes, os pesquisadores aplicaram estímulos elétricos diretamente no núcleo accumbens, na tentativa de “reprogramar” o circuito responsável pelo impulso alimentar. O objetivo era reduzir o comportamento compulsivo e observar como o cérebro reagia à intervenção.
O terceiro caso, porém, apresentou um achado inédito. A paciente já fazia uso de tirzepatida, e apenas o medicamento foi suficiente para alterar o padrão de atividade elétrica da região estudada. Sem qualquer estímulo externo, o remédio modificou a dinâmica neural relacionada ao desejo por comida, algo nunca registrado antes em humanos.
A médica salienta, entretanto, que a pesquisa é um estudo de caso. “Não podemos generalizar para todos os usuários de Mounjaro. Nesse caso em questão, cerca de cinco meses depois, mesmo mantendo uso de tirzepatida, a paciente voltou a relatar episódios de ‘food noise”. Por isso, o acompanhamento médico especializado, contínuo e individualizado é importante durante o uso desses medicamentos”, destaca.
Riscos
Segundo a médica, as mudanças nos sinais cerebrais observadas no estudo não representam perigos conhecido à saúde. “Não há evidências robustas atuais de que tirzepatida cause lesão neurológica, neurodegeneração ou toxicidade cerebral”, observa. Ela reforça: “Os estudos disponíveis não apontam para danos estruturais ao cérebro”.
Próximos passos
A equipe responsável pela pesquisa pretende agora investigar se o mesmo padrão de atividade elétrica se repete em outros distúrbios compulsivos, como vícios ou comportamentos repetitivos. Os cientistas também querem avaliar se diferentes doses ou combinações de medicamentos podem prolongar ou potencializar o efeito observado no cérebro.
Enquanto novas etapas do estudo avançam, os achados reforçam uma compreensão que a ciência começa a consolidar: o ato de comer é tão cerebral quanto metabólico. A relação com a comida não depende apenas de hormônios e do funcionamento do organismo, mas também de circuitos neurais que regulam prazer, impulso e saciedade.
Assim, comportamentos antes interpretados como simples falta de força de vontade podem, na verdade, estar profundamente ligados a padrões elétricos do cérebro. E, pela primeira vez, medicamentos modernos parecem capazes de modular esses circuitos, abrindo caminho para novos entendimentos e, possivelmente, novos tratamentos para a obesidade e o comer compulsivo.
Sobre as implicações da pesquisa para futuras estratégias de tratamento, a especialista ressalta que os resultados ainda devem ser interpretados com cautela. Trata-se de um estudo de caso, o que significa que, por si só, não altera condutas clínicas. “É um trabalho que levanta hipóteses importantes, mas ainda preliminares”, finaliza. Para que esses achados possam influenciar novas abordagens terapêuticas, serão necessários análises maiores, com mais participantes e acompanhamento mais amplo.
Aprovação no Brasil
O Mounjaro foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em setembro de 2023 para o tratamento de diabetes tipo 2, tornando-se uma nova opção de terapia injetável semanal para o controle glicêmico. Posteriormente, em junho de 2025, a agência ampliou a indicação do medicamento para incluir o tratamento do sobrepeso e da obesidade, em associação à dieta hipocalórica e à prática regular de atividade física.
Características do food noise
- Pensar em comida muitas vezes ao dia, sem fome real;
- Desejo constante de beliscar;
- Foco exagerado em sabores, cheiros ou lembranças de comida;
- Dificuldade de esquecer a vontade mesmo após comer;
- Impulso de comer por ansiedade, tédio ou emoção.