A instabilidade política, a poluição do ar e a alta desigualdade social podem acelerar o envelhecimento do cérebro, aponta um estudo internacional publicado na revista científica Nature Medicine. A pesquisa, desenvolvida por 41 cientistas, entre eles dois brasileiros apoiados pelo Instituto Serrapilheira, uma organização privada sem fins lucrativos, analisou dados de 161.981 participantes em 40 países, incluindo o Brasil.
Utilizando modelos de inteligência artificial (IA) e técnicas de modelagem epidemiológica, os pesquisadores conseguiram avaliar as chamadas “diferenças de idade biocomportamentais” (BBAGs), um conceito que mede o descompasso entre a idade cronológica de uma pessoa e a idade estimada com base em fatores como saúde, cognição, nível educacional, funcionalidade e riscos associados à saúde cardiometabólica ou deficiências sensoriais.
De acordo com a pesquisadora docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Mestrado Profissional e professora responsável pelo Programa UCS Sênior, Verônica Bohm, até mesmo uma refeição básica é considerada cara. “A gente sabe que uma alimentação saudável contribui para o envelhecimento saudável. Mas até que ponto é uma escolha nossa o que comemos?”, questiona. “Comer de forma saudável nos dias atuais é caro. Requer tempo para preparar. Comer comida sem agrotóxico é caro”, aponta.

Qualidade de vida
Não se pode falar de desigualdade social sem falar sobre qualidade de vida. A desigualdade social afeta a qualidade de vida de diversas formas, criando barreiras que impedem o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, moradia e segurança. Isso impacta negativamente o bem-estar mental e a capacidade de se alimentar adequadamente. No Brasil, essas disparidades são ainda mais evidentes e se traduzem em altos índices de pobreza, fome, violência e poucas chances de ascensão social.
Verônica explica que, até mesmo dentro do estado, a expectativa de vida é desigual. “As cidades aqui da região Norte e Nordeste têm expectativa de vida superior à da região Sul e da fronteira Oeste. Estamos no mesmo estado, mas temos condições e infraestrutura muito distintas”, explica.
Dados
Segundo os pesquisadores, um envelhecimento populacional acelerado pode estar ligado a diversos fatores sociais e políticos. Entre eles, destacam-se:
- Problemas econômicos e sociais: baixa renda, má qualidade do ar e desigualdade de gênero;
- Contextos de vulnerabilidade: questões migratórias;
- Limitações políticas: falta de representação política, liberdade partidária restrita, direitos de voto limitados e democracias frágeis.
Diante disso, Verônica defende a importância de políticas públicas para o envelhecimento com qualidade. “Saneamento básico e educação de qualidade são fundamentais, bem como acesso à saúde. Também quando falamos de saúde, às vezes as pessoas pensam muito em UBS (Unidade Básica de Saúde), no exame que eu tenho que fazer, mas temos que pensar na qualidade das calçadas”, relata.
Em muitos centros urbanos, a infraestrutura deficiente representa um risco significativo para a população, especialmente para os idosos. A pesquisadora destaca como um problema aparentemente simples, como uma calçada inadequada, pode desencadear uma série de eventos com consequências graves. “Estamos falando de uma queda. Quando falamos de uma queda de calçada, estamos falando de uma fratura de fêmur, de quadril. Essas quedas aumentam muito a probabilidade de óbito em idosos”, ressalta a gravidade da situação. A solução, portanto, exige uma abordagem mais ampla, com intervenções macroestruturais e políticas públicas que abordem as desigualdades e garantam a segurança e a qualidade de vida para todos.
Uma das grandes preocupações sobre o envelhecimento populacional é a relação com o mercado de trabalho. A fala de Verônica destaca um problema sério: “Tem muitas empresas que não olham o currículo de pessoas com mais de 35 anos”. Essa forma de discriminação etária, que a pesquisadora aponta, dificulta a reinserção profissional e a manutenção de uma vida digna, com acesso a uma alimentação e um estilo de vida adequados.
Para garantir um envelhecimento digno, é fundamental que as pessoas mais velhas tenham seu espaço reconhecido na sociedade. “Todos somos cidadãos, e temos direitos e deveres”, afirma. Ela ressalta a importância de se lutar por melhorias, destacando que “é legítimo reivindicarmos melhores condições de tudo”.
De acordo com Verônica, a chave para um envelhecimento de qualidade é manter-se ativo. “Um dos pontos que vale a pena apontar é que participem de eventos na comunidade, na sua igreja. Isso é importante para a estimulação cognitiva, conversar com pessoas diferentes, com segurança, evidentemente, mas desempenhar diferentes papéis. É poder estar ajudando na sua comunidade, não ficar só em casa com as mesmas pessoas, falando sobre as mesmas coisas”, afirma.
“Muitas vezes, são os amigos que salvam as pessoas, e a forma como a desigualdade pode afetar o bem-estar de um idoso é grande”, essa rede de apoio pode ser protetora em caso de violência, pontua.
Políticas públicas
Em Bento Gonçalves, políticas públicas voltadas para os idosos buscam garantir seus direitos e bem-estar em diversas frentes, como saúde, assistência social e participação na comunidade. Para isso, o município conta com iniciativas como o Conselho Municipal do Idoso (COMUI) e o Espaço de Saúde do Idoso, além de outros programas e ações específicas para essa faixa etária.
UCS Sênior
O programa, disponibilizado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), é voltado para pessoas com mais de 50 anos que queiram praticar atividades diferentes no seu dia a dia. “O pré-requisito é ter 50 anos de idade e vontade de aprender e se divertir”, garante a responsável.
Verônica explica que as atividades são distintas: “Temos atividades físicas: dança, pilates, meditação, ioga, ginástica funcional e recreativa, hidroginástica, natação, enfim. Temos atividades que empolgam mais as pessoas cognitivamente, inclusive estimulação cognitiva que acontece em Bento, inteligência emocional, atividades de literatura, ciência poética, escrita e produção de textos”, relata.
O programa existe há 34 anos e atualmente tem mais de mil inscritos. Para participar, é necessário realizar a inscrição, sendo possível fazer uma aula teste para escolher a atividade desejada. “As nossas aulas são de agosto para dezembro. Eventualmente, temos oficinas de um mês, que são mais curtas”, conclui.