Aromas, aproveitamento de resíduos e impacto social mostram como a planta pode impulsionar a bioeconomia gaúcha
A erva-mate, declarada patrimônio cultural do Rio Grande do Sul em 2023, ganha novas dimensões de valorização cultural, científica e econômica. Pesquisas conduzidas pela UFRGS e pela Inovamate, em parceria com entidades públicas e privadas, confirmam características químicas e sensoriais únicas da planta cultivada no Alto Taquari e revelam que os frutos da planta fêmea, antes descartados, podem dar origem a uma cachaça inovadora, sustentável e típica do Estado.
Ciência e tradição lado a lado



A valorização da erva-mate do Alto Taquari passa por dois caminhos complementares. O primeiro deles é o estudo de caracterização demandado pela Associação dos Produtores e Parceiros da Erva-Mate do Alto Taquari (APPEMAT), sob coordenação de Ariana Maia, e em paralelo, como sócia-fundadora da Inovamate, integrante da associação e mestranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela UERGS. Ela é responsável pela área científica da futura Indicação Geográfica (IG) da planta, na modalidade Denominação de Origem.
O trabalho foi realizado ao longo de um ano e meio pelo Laboratório de Química Analítica, Ambiental e Oleoquímica do Instituto de Química e pelo Laboratório de Compostos Fenólicos do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos, ambos da UFRGS, sob coordenação da Dra. Rosângela Assis Jacques e do Dr. Eliseu Rodrigues, com colaboração da pesquisadora Dra. Helen Hackbart.
A análise de compostos voláteis comprovou a singularidade da erva-mate da região. “Identificamos aromas e sabores com notas doces, cítricas e frutadas, que reforçam a suavidade já reconhecida do produto”, afirma Ariana. Para aproximar ciência e consumidor, ela e a pesquisadora Helen Hackbart elaboraram o primeiro mapa de degustação da erva-mate, resultado direto do estudo solicitado pela APPEMAT e desenvolvido em parceria com a UFRGS.
Durante as oficinas realizadas na 48ª Expointer, 11 participantes receberam amostras da erva do Alto Taquari, prepararam seus próprios chimarrões e participaram de uma degustação guiada. No mapa sensorial, foi possível identificar uma ampla gama de notas: refrescantes, cítricas, doces, especiarias, frutadas, florais, vegetais, untuosas e terrosas. “Essa experiência inédita estabeleceu uma ponte inovadora entre a academia e o consumidor, reforçando a autenticidade da erva-mate do Alto Taquari e sua identidade rumo à Indicação Geográfica”, explica Ariana.
Do resíduo ao destilado
A segunda frente de pesquisa, conduzida pela Inovamate, surgiu em 2020 com o objetivo de aproveitar os frutos da planta fêmea, até então descartados pela cadeia produtiva. Em 2021, o projeto foi aprovado pelo CNPq e passou a ser desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na Bahia, sob coordenação da professora Dra. Ana Paula Uetanabaro, com apoio da empresa Solution IPD na elaboração e viabilização da proposta.
O resultado foi o primeiro destilado a partir dos frutos da erva-mate, uma cachaça que alia inovação, sustentabilidade e tradição. “Esse pioneirismo une ciência e cultura, colocando o Rio Grande do Sul em destaque na produção de destilados diferenciados, a partir de um insumo da biodiversidade brasileira e fortemente alinhado à bioeconomia”, afirma Maia.
Segundo ela, a bebida tem potencial para se consolidar como um novo produto típico do Estado. “Até hoje apenas a folha tinha valor econômico direto. O fruto, antes sem destino, passa a ser uma fonte de renda, fortalecendo a cadeia produtiva e criando novas oportunidades para inovação rural sustentável”, destaca.
Próximos passos
O pioneirismo da bebida abre espaço para que ela se consolide como um novo produto típico do Rio Grande do Sul. “Nós, da Inovamate, acreditamos que a cachaça de frutos da erva-mate tem potencial para se firmar como referência do Estado, unindo tradição e inovação. Esse pioneirismo coloca o Rio Grande do Sul em destaque na produção de destilados diferenciados, a partir de um insumo da biodiversidade brasileira e com forte alinhamento à bioeconomia e à sustentabilidade”, afirma Ariana.
A etapa de pesquisa foi concluída com êxito, mas agora a empresa mira o mercado consumidor. “Nossa meta é, a partir do próximo ano, iniciar a escala de produção e apresentar essa bebida inovadora ao público. A Inovamate tem se preparado para garantir que essa ampliação ocorra de forma segura, padronizada e responsável, mantendo a qualidade que caracteriza o projeto desde a fase piloto”, detalha.
Impactos culturais, sociais e ambientais

As descobertas ampliam o olhar sobre a erva-mate como patrimônio vivo do Rio Grande do Sul. “Muitos ainda não sabem que a erva-mate é uma árvore nativa. Ao dar protagonismo também ao fruto, reforçamos sua importância cultural, econômica e ambiental”, destaca a coordenadora.
O impacto vai além da inovação. O aproveitamento dos frutos cria novas fontes de renda para agricultores familiares, diversifica a produção e fortalece toda a cadeia produtiva. Além disso, abre portas para outros usos criativos e sustentáveis dos subprodutos da planta. “A erva-mate é um universo de possibilidades. Transformar o fruto em destilado é apenas o começo. Esse movimento pode inspirar novos negócios, valorizar a biodiversidade e contribuir para a bioeconomia do Estado e do Brasil”, projeta.
Um futuro promissor
Com o avanço das pesquisas científicas e a aproximação da Indicação Geográfica, a erva-mate do Alto Taquari se firma não apenas como símbolo cultural, mas também como protagonista de um movimento que une tradição, ciência e inovação. “A erva-mate é um universo de possibilidades. O pioneirismo da Inovamate em transformar o fruto em destilado abre caminhos para que outros subprodutos também sejam explorados de forma criativa e sustentável, gerando novos negócios, valorizando a biodiversidade e contribuindo para a bioeconomia do Rio Grande do Sul e do Brasil”, reforça Ariana.
Da cuia ao copo, a planta revela todo o potencial de um patrimônio que se reinventa, tornando-se ao mesmo tempo regional e universal.