Com o passar das gerações, muitas plantas ultrapassaram o simples papel de ornamentar lares e jardins, ganhando significados místicos e simbólicos no imaginário popular. Conhecidas como plantas de superstição, elas são cercadas por crenças que atribuem poderes de proteção, sorte, prosperidade e afastamento de energias negativas. Da tradicional arruda e guiné, usadas para espantar o “mau-olhado”, ao manjericão e espada-de-São-Jorge, tidas como guardiãs do lar, essas espécies seguem presentes nas casas e nos costumes de quem acredita que a natureza também pode influenciar o destino.
De acordo com a Mãe de Santo, Lisiane Pires, na sua tradição, trabalha-se com muitas plantas sagradas. “Cada uma com sua força e fundamento”, destaca. As principais são: manjericão, arruda, guiné, alecrim, abre-caminho, levante, espada-de-São-Jorge, orô, mamona e folhas de comigo-ninguém-pode.

Papel das plantas
A aplicação das ervas em rituais é o ponto central para a ativação dessa energia sagrada. Lisiane detalha que o uso de uma erva em um banho de descarga, no amaci (banho sagrado de iniciação), no mieró (água ritualística com ervas), em uma defumação ou em um assentamento, visa a um único objetivo: “trazer equilíbrio espiritual, proteção e renovação do axé”. O axé, força vital e poder espiritual, é, portanto, diretamente impactado pela sabedoria e potência contida nas folhas e caules.
Apesar das diferenças nos rituais e nas classificações de ervas entre as nações (como Candomblé) e as linhas (como Umbanda), o princípio que unifica todas as práticas é o profundo respeito pela natureza. “Toda folha tem dono, toda planta tem palavra e energia”, explica. Este entendimento eleva a planta ao status de ser vivo e consciente, um pilar fundamental e inegociável da religiosidade afro-brasileira.
Ela detalha a sacralidade que envolve o processo de colheita das ervas em algumas tradições de terreiro. Para muitos praticantes, a interação com o reino vegetal transcende a mera extração, transformando-se em um ato de profunda reverência. Segundo Lisiane, “algumas pessoas acreditam que as plantas devem ser colhidas com cântico, reza, respeitando a energia do Orixá que está na planta”. Este procedimento garante que a força e o axé da folha sejam ativados e mantidos em sua plenitude para o uso ritualístico.
Indicações
No universo das plantas de poder, há um grupo reconhecido por sua eficácia na criação de um escudo protetor contra energias densas. Lisiane aponta a importância de um quarteto de ervas conhecidas por sua força: “Para proteção, usamos muito arruda, guiné, comigo-ninguém-pode e espada-de-São-Jorge”. Tais espécies são frequentemente usadas em banhos de limpeza, defumações ou até mesmo cultivadas em vasos próximos a entradas de casas, atuando como verdadeiros guardiões espirituais.
Para além da defesa, o reino vegetal também é vastamente empregado para atrair o fluxo de boas energias e a prosperidade material. Lisiane destaca um conjunto de plantas voltadas para este propósito: “para prosperidade, o abre-caminho, louro, manjericão e girassol, dinheirinho em penca”. Essas ervas e flores são utilizadas em rituais que visam a abertura de novos ciclos, a fartura e a manutenção da estabilidade financeira, sendo símbolos de sorte e abundância.
A cura e a manutenção da saúde, tanto física quanto espiritual, são funções primordiais das plantas no contexto religioso. A Mãe de Santo lista uma série de ervas associadas ao bem-estar e ao reequilíbrio energético: “Para saúde, o alecrim, camomila, marcela, levante, hortelã, boldo, e erva-doce e outras”. Essa seleção abrange desde ervas calmantes até aquelas que promovem o ânimo e a desintoxicação espiritual.
Embora existam classificações gerais, ela faz uma ressalva crucial que sublinha a complexidade e a individualidade do tratamento espiritual. O uso das plantas não é uma receita universal, mas sim uma prática profundamente adaptada: “Mas sempre lembrando que a planta certa depende da energia da pessoa e da orientação espiritual, porque o que ajuda um, pode não servir para outro”, aconselha.

Tradição
A Mãe de Santo atribui a longevidade das crenças, apesar dos desafios da modernidade, à “resistência do nosso povo”. Ela observa que a fé e os rituais não desapareceram com o tempo. “Mesmo com o tempo, com a modernidade, ainda há quem acenda uma vela, prepare um banho, faça uma oração com folhas na mão”, afirma. Estes atos, aparentemente simples, representam a continuidade de um conhecimento ancestral e a preservação do sagrado no cotidiano.

A busca pelas plantas protetoras
Questionada sobre as motivações atuais para a busca pelas plantas de poder, ela reconhece uma dualidade na sociedade contemporânea. Identificando que existem aqueles que se aproximam das ervas por razões estéticas ou curiosidade: “Alguns buscam por estética, porque acham bonito ter uma espada de São Jorge na porta, por exemplo”. Curiosamente, ela ressalta que, mesmo neste movimento superficial, a força da planta se manifesta: “Mesmo sem saber, estão se protegendo”, diz.
No outro extremo, pontua o grupo que busca as plantas por uma motivação espiritual profunda: “Outros buscam por fé, por sentir o chamado das ervas e o poder da natureza”, destaca.
A Mãe de Santo explica que com uma sabedoria que resume a importância da intenção e do aprendizado no caminho espiritual. Ela compartilha um ensinamento fundamental que repassa aos seus filhos religiosos: “Quem planta com fé, colhe axé”, observa.

Conselho
Para aqueles que buscam compreender a fundo a íntima relação entre as plantas e a espiritualidade, a religiosa oferece uma mensagem centrada no respeito e na escuta. “Respeite a natureza e aprenda a ouvir o silêncio das folhas. Cada planta tem uma história, uma energia e uma missão. Não é só pegar e usar, é sentir, pedir licença e agradecer. A espiritualidade não está apenas nas oferendas, mas no gesto de respeito que temos com o que é vivo. Quando você se conecta de verdade com a natureza, ela te ensina sobre o equilíbrio, a cura e a fé”, finaliza.