Empresários da Serra Gaúcha relatam aprendizados técnicos, culturais e de gestão após visitas a universidades, indústrias e centros de pesquisa chineses
A China, país conhecido por suas megacidades e pela velocidade de suas transformações urbanas, foi o destino escolhido por um grupo de empresários e representantes da construção civil da Serra Gaúcha, para uma missão técnica que durou quase duas semanas. A iniciativa, organizada pela Ascon Vinhedos e liderada pelo presidente da entidade, Alan Scomazzon, reuniu 22 participantes e percorreu cidades como Pequim, Shenzhen, Hong Kong, Macau e Guangzhou. Coube ao professor Bernardo Tutikian organizar toda a estrutura técnica e logística da viagem, sendo ele, o diretor de marketing da ASCON Vinhedos
O objetivo foi claro: compreender de perto os avanços chineses em infraestrutura, industrialização e métodos construtivos, além de fortalecer relações institucionais e empresariais. A experiência trouxe não apenas aprendizados técnicos, mas também uma série de percepções culturais e comparativos com a realidade brasileira.

A escolha do destino e a formação do grupo
Scomazzon conta que a proposta de ir à China partiu de um desejo pessoal, que logo encontrou eco na diretoria da Ascon. “Esse é um anseio particular meu. Propus essa viagem porque a China é um destino exótico, que chama atenção pelas construções gigantes e pela infraestrutura maravilhosa. A diretoria aprovou 100%”, declara.
A expectativa superou as previsões iniciais. O grupo foi projetado para ter 12 a 15 integrantes, mas rapidamente alcançou 22 pessoas. “A gente fechou em 48 horas o número de participantes. Isso mostra que acertamos no destino. O pessoal gostou, adorou. Ir sozinho seria complicado, mas em grupo nos tornamos uma fortaleza”, afirma o presidente.
O empresário Elton Gialdi confirma esse entusiasmo inicial. Ele explica que recebeu o convite de Scomazzon e não hesitou em aceitar. “Foi uma bela oportunidade de desmistificar e entender melhor essa dita China, que todo mundo diz que vai mandar no mundo. Eu não podia perder esta oportunidade”, relata.
Organização e primeiras impressões

A viagem foi estruturada em parceria com a Pasqualotto Turismo, de Garibaldi, e com a Abreu, empresa internacional de mais de 150 anos de atuação. Tradutores acompanharam o grupo, garantindo a comunicação do mandarim para o espanhol, inglês e português. “Sempre tínhamos um guia conosco. Em Pequim, era a Silvia, nossa querida amiga. Em Shenzhen, entraram mais pessoas para nos ajudar, principalmente quando falávamos de negócios”, acrescenta Scomazzon.
A saída ocorreu em 23 de agosto, com partida de Bento Gonçalves até Porto Alegre, seguida de conexões em São Paulo e Dubai, até a chegada a Pequim. A recepção surpreendeu os visitantes já nos primeiros dias. “A limpeza e a organização chamaram a atenção, assim como os prédios muito altos e a arquitetura moderna. Pequim é uma cidade extremamente ocidentalizada. Vimos lojas da Adidas, Samsung, Apple, Nike, Bacardi, tudo o que tu imaginas. O público jovem é muito ligado ao estilo americano”, observa Scomazzon.
Gialdi complementa que a viagem, apesar de intensa, foi extremamente enriquecedora. “É uma verdadeira maratona, porque a gente quer fazer tudo em 14 dias, mas foi muito agradável. Os prédios eram maravilhosos e fomos muito bem recebidos, com verdadeiros banquetes em cada visita”, descreve.
Itinerário



Nos primeiros dias, o grupo visitou o Templo da Dinastia Ming, a Casa de Verão do Imperador e a Praça Olímpica, onde estão o “Ninho de Pássaro” e o “Cubo da Água”. Também subiram a Muralha da China, experiência que, segundo Scomazzon, é considerada um marco cultural: “Há um ditado que diz que só é um homem completo quem subiu a muralha”.
A programação técnica incluiu instituições e empresas de ponta:
- CBMA (China Building Materials Academy): referência em pesquisa e desenvolvimento de materiais de construção, especialmente em restauração de prédios residenciais. “Eles reformam, mobiliam e entregam prontos para novos moradores. É impressionante”, relata o presidente da Ascon.
- CCECC (China Civil Engineering Construction Corporation): especializada em trens de alta velocidade e obras subterrâneas com tuneladoras (TBM). “Entramos em uma obra de túnel e vimos de perto o tatuzão, equipamento que fura montanhas. Depois, participamos de uma mesa de trabalho com os técnicos”, descreve.
- China State Construction Hailong Technology: companhia focada em construções modulares de larga escala.
- Zhaoqing Sanle: indústria de placas cimentícias, de fibrocimento e de silicato de cálcio.
- Jianhua Technology: fábrica de estacas de concreto, com produção de 600 peças por dia. A empresa também participou da construção da Ponte Hong Kong-Macau, a mais longa ponte marítima do mundo, com 55 km de extensão e custo de US$ 20 bilhões.
Feira CCPA (China Concrete and Cement Products Association): onde foram realizadas palestras técnicas e apresentações internacionais. A Ascon Vinhedos representou o Brasil e apresentou sua atuação para profissionais da China, Vietnã, Coreia do Sul e outros países.
Além disso, o grupo conheceu a Universidade de Macau e interagiu com professores e pesquisadores.
Entre turismo e aprendizado técnico


Os primeiros dias foram dedicados a pontos turísticos emblemáticos, como o Templo da Dinastia Ming, a Casa de Verão do Imperador e a Muralha da China. Mas logo a agenda se voltou para visitas técnicas em instituições de pesquisa, empresas e universidades.
O grupo conheceu o China Building Materials Academy (CBMA), especializado em pesquisa e desenvolvimento de materiais de construção; a China State Construction, gigante da construção modular; e a CCECC, focada em trens de alta velocidade e túneis feitos com tuneladoras. Também participaram da feira de concreto CCPA e visitaram a Universidade de Macau, entre outras instituições.
Cada visita incluía, após as explanações técnicas, uma “mesa de trabalho”. “Todo lugar que tu vais com os chineses, eles montam uma mesa. Há um intercâmbio de informações, eles perguntam o que temos a dizer e também compartilham. Foram muito abertos, podíamos perguntar qualquer coisa, exceto temas políticos, que rapidamente mudavam de assunto”, relata.
Gialdi destaca que o grande diferencial esteve justamente no caráter técnico da programação. “As visitas e a organização que a Ascon e o professor Tutikian prepararam fizeram toda a diferença. Tivemos acesso a como o chinês negocia, como funcionam as empresas e as universidades. Isso vai muito além de uma viagem de turismo, nos trouxe um conhecimento realmente profissional”, afirma.
Ele acrescenta que a forma como os chineses recebem os visitantes impressiona. “O chinês é extremamente bom em campanha, divulgação e protocolo. Eles valorizam o visitante. Quando chegávamos, já havia uma mesa de conversas preparada, com nossos nomes e espaço individual. Em uma das empresas, chegaram a propor sociedade em moldes claros: 60-40, dependendo do local. Eles são muito objetivos e abertos ao negócio”, relata.
Um povo cordial e educado
Além dos aspectos técnicos, chamou atenção do grupo o comportamento da população chinesa. “O povo é muito educado, cordial e correto. Tivemos o caso de um participante que perdeu o celular, e no dia seguinte ele foi devolvido. É incrível a correção deles, não há maldade”, destaca Scomazzon.
Ele acrescenta que a mobilidade também é um ponto forte: “Há muitas motos e carros elétricos, cerca de 40% da frota. O trânsito funciona bem, as pessoas respeitam. As passarelas, subterrâneos e ciclovias são planejados para facilitar a circulação”, diz.
Comparativos entre Brasil e China
Na visão de Scomazzon, a distância entre os dois países em termos de desenvolvimento urbano é significativa. “Eles estão 100 anos na nossa frente, correndo a 100km/h. Nós estamos 100 anos atrás, correndo a 10km/h. E daqui a pouco vamos estar a 9km/h. Mesmo que tivéssemos os recursos financeiros, seria impossível construir em 45 anos uma cidade como Shenzhen no Brasil. Aqui levaria 200 ou 300 anos, por causa da burocracia”, afirma.
Ele também observa a força da pré-fabricação na construção chinesa: “90% do que é consumido na construção na China é pré-fabricado. Produzem na fábrica e levam para a obra. Isso acelera os processos e reduz a necessidade de mão de obra. No Brasil, ainda estamos engatinhando nesse modelo”, aponta.
Gialdi também faz suas comparações. Ele afirma que o Brasil parece “um adolescente sem rumo”, enquanto a China já atua “como um adulto com pós-doutorado, focado e preparado”. Para ele, o chamado “padrão China” surpreende. “Nós ainda temos uma visão antiga, de um país atrasado e cheio de mazelas. O que vimos foi o contrário: organização, limpeza, infraestrutura fantástica e uma meritocracia muito evidente”, observa.
Ele destaca ainda o impacto da pré-fabricação e da escala produtiva no país. “Na China, ver uma torre de 100 andares parecia banal. O setor da construção tem uma capacidade multiplicada que impressiona. Eles dominam a produção de forma que a gente não consegue imaginar aqui”, comenta.
Relação Brasil-China e oportunidades
A missão técnica também trouxe reflexões sobre a presença chinesa no Brasil. “Quando eles entrarem com tudo, vão tomar conta, porque são muito competitivos. As empresas deles são muito produtivas. No caso do concreto, talvez não compense transportar, mas em vidro, esquadrias, placas especiais, se não tivermos barreiras, eles vão dominar o mercado”, avalia.
Para a Ascon, a visita foi um momento de aprendizado e também de oportunidade. “Como presidente, vejo uma chance de enxergar nossas deficiências e nos preparar para competir. Também é uma forma de criar relações comerciais. Participamos de palestras e apresentamos a Ascon Vinhedos em um evento internacional. Foi uma troca muito rica”, salienta Scomazzon.
Na mesma linha, Gialdi afirma que os chineses têm foco e determinação, algo que o Brasil precisa aprender. “Uma empresa, um país ou até uma casa, quando tem determinação e foco, sabe onde quer chegar. A China é exemplo disso. Investiram pesado em pesquisa e tecnologia e hoje colhem resultados. O Brasil ainda separa demais universidade e indústria, teoria e prática. Esse é um ponto em que precisamos copiar a China”, defende.
Experiências culturais e curiosidades
Além das reuniões técnicas, o grupo vivenciou aspectos culturais únicos, desde os templos milenares até a gastronomia apimentada. “O paladar deles é outro, acostumado à pimenta. Muitas vezes tínhamos que nos esforçar para acompanhar. Eles são muito receptivos, sempre ofereciam refeições após as visitas, acompanhadas do tradicional brinde ‘Ganbei!’, que significa secar o copo”, conta.
Outro ponto marcante foi a troca de presentes. “Nós levamos cachaça e recebemos saquês, brindes e pôsteres. É um momento especial para eles, por mais simples que seja o presente. É uma forma de agradecer pela hospitalidade”, acrescenta.
Para Gialdi, a diversidade da culinária e os hábitos locais também marcaram a viagem. “A culinária é espetacular, ainda que bem distante da nossa, com pouca carne e bastante pimenta. Mas fomos sempre bem recebidos, com refeições fartas e brindes tradicionais. Isso mostra um povo que valoriza muito a hospitalidade”, diz.
Legado e aprendizados
A missão técnica à China deixou marcas profundas nos participantes. Para Scomazzon, foi uma experiência transformadora. “Voltaria para a China, tranquilamente. Gostaria de me aprofundar mais na cultura e conhecer o interior do país, que ainda tem muito a se desenvolver, mas mesmo assim está à frente do nosso. Onde eles estão bem, estão muito melhores do que nós. E onde estão piores, ainda estão melhores”, conclui.
Com aprendizados técnicos, culturais e estratégicos, a viagem reforçou a percepção de que a integração global pode trazer oportunidades para a construção civil brasileira. Ao mesmo tempo, deixou claro o quanto o país precisa avançar em inovação, planejamento urbano e políticas públicas para se aproximar da velocidade de desenvolvimento que a China demonstra.
Gialdi encerra sua avaliação destacando a segurança e a ordem que encontrou na China. “Nós rimos alto, cantamos, bebemos, e mesmo assim nos sentimos extremamente seguros. Nunca houve preocupação com violência. É um país que tem regras claras, ordem e prosperidade. Torço para que o Brasil encontre essa mesma trajetória”, diz.
Ele também parabeniza a Ascon pela iniciativa. “Foi uma viagem de negócios e de conhecimento em altíssimo nível. Isso deve servir de exemplo para muitas outras entidades. Espero estar junto em novas oportunidades, inclusive nos Estados Unidos, para termos um comparativo direto dessa corrida mundial”, conclui.