No último sábado, 8 de novembro, o Salão da Comunidade de São Luiz das Antas, no distrito de Tuiuty, foi tomado pela emoção e nostalgia. Moradores e convidados reuniram-se para assistir à estreia do documentário “Patrimônio Vivo”, uma produção dirigida pela historiadora bento-gonçalvense Sabrina de Lima Gressele, que traz à tela as memórias, os sotaques e as histórias de um dos núcleos mais antigos de Bento Gonçalves.
Com cerca de 20 minutos de duração, o curta-metragem retrata a vida cotidiana e o sentimento de pertencimento de uma comunidade fundada entre 1887 e 1897 por imigrantes italianos, que até hoje preserva tradições, fé e vínculos culturais. O projeto foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo, com investimento de R$40 mil, possibilitando que a pesquisa e a história saíssem do papel. “A gente pode ter muitas ideias e projetos, mas sem recursos eles não acontecem. A Lei Paulo Gustavo foi o que tornou esse documentário possível. Além de registrar a memória, conseguimos valorizar o trabalho de todos os profissionais envolvidos”, destaca Sabrina.

Das memórias pessoais à história coletiva
O filme é resultado de uma longa trajetória de pesquisa. Ela conta que estuda São Luiz das Antas desde 2019, quando desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso em História sobre a comunidade e participou da atualização do inventário do patrimônio municipal. “Minha família é desta comunidade, mas nunca tinha imaginado que um dia pesquisaria sobre este lugar. Meus avós eram ferroviários e eu cresci ouvindo histórias. Hoje entendo que essa vivência influenciou muito a escolha da minha profissão”, conta a diretora.
A partir da metodologia da história oral, Sabrina entrevistou moradores e ex-moradores, buscando compreender como o tempo moldou as lembranças, as relações e os significados de espaços que fazem parte do cotidiano da comunidade.
O documentário tem 14 entrevistados, entre homens e mulheres que narram lembranças sobre a escola, o time de futebol, a passagem da Maria Fumaça e as festividades religiosas. As gravações ocorreram em dois dias e envolveram uma equipe de cerca de oito profissionais, entre produção audiovisual, pesquisa e apoio técnico. “A gente está falando de pessoas, de sentimentos. Mesmo tratando o material de forma científica, com metodologia e rigor histórico, procuramos manter a sensibilidade das histórias. São lembranças que emocionam, fazem parte da identidade”, afirma.

Um lugar que se transforma
O título “Patrimônio Vivo” reflete a visão da diretora sobre o caráter dinâmico da memória. “O patrimônio não é algo imóvel. Ele muda com o tempo, ganha novos significados. A antiga escola da comunidade, por exemplo, já foi colégio, sede de time de futebol e hoje é uma moradia. Cada geração vai ter memórias diferentes”, explica Sabrina.
Durante as entrevistas, surgiram temas recorrentes, como a importância da Igreja Católica como espaço de sociabilidade, as festas, o futebol masculino e feminino, muito forte nas décadas de 1980 e 1990, e o sentimento de nostalgia por uma comunidade que se percebia mais unida no passado. “Essas lembranças mostram que a memória também é uma forma de resistência. Ela reafirma o pertencimento e a importância de se preservar as histórias locais”, observa Sabrina.
Reconhecimento e emoção
O evento de lançamento contou com a presença do secretário municipal de Cultura, Evandro Soares, que destacou a importância do registro como parte essencial da identidade bento-gonçalvense. “O documentário reforça a força da nossa história e das pessoas que constroem Bento Gonçalves todos os dias. Cada memória registrada é um patrimônio vivo da cidade”, afirmou o secretário. Também participou o subprefeito de Tuiuty, Tiago Coser, que enalteceu o envolvimento da comunidade e a valorização das tradições locais.
Durante a exibição, o público acompanhou atento às imagens e depoimentos. Ao final, os aplausos e abraços emocionados marcaram o reconhecimento da comunidade pelo trabalho. “Foi uma noite muito especial. Ver os olhos das pessoas vidrados na tela, se reconhecendo na história, foi impagável. Uma moradora me disse que valeu cada segundo do esforço, e isso me emocionou profundamente”, relata Sabrina.
Memória que inspira novas gerações
Após a estreia em São Luiz das Antas, o curta será exibido na EEEF Ângelo Salton, no Museu do Imigrante e no Centro Cultural Tuiuty, com datas ainda a serem definidas. O projeto também incluiu uma ação de educação patrimonial com alunos da Ângelo Salton, incentivando o olhar crítico sobre o patrimônio local. “Quando os alunos entendem que a casa onde vivem, ou o prédio da antiga ferrovia, faz parte da história da cidade, eles passam a olhar o lugar de outra forma. É um exercício de identidade e pertencimento”, defende a diretora.

Com o sucesso do lançamento e o vasto material coletado, Sabrina já pensa em novas produções. “A gente tem muito conteúdo para outros filmes. Quem sabe, no futuro, uma série sobre as vilas ferroviárias de Bento Gonçalves?”, adianta.
Sabrina deixa como mensagem o desejo de preservação. “Gostaria que o público levasse como ensinamento que nossas construções históricas, não só as que estão relacionadas ao documentário, também são vivas e estão relacionadas a muitas memórias, porque a gente sabe que não existe uma identidade única. Que possamos olhar para essas construções e patrimônios com um olhar mais cuidadoso, e não só como se fossem concreto ou madeira. Tem muito mais. As paredes, os trilhos do trem, carregam memórias infinitas, começar a reconhecer e valorizar isso é importante.
No caso de São Luiz, ultrapassa as barreiras desse lugar, porque há muitas pessoas que nunca moraram lá, mas tem um apego muito grande. Que isso sirva também para que os órgãos públicos olhem mais para o nosso interior, para as comunidades das áreas periféricas, porque nelas também há muita história”, finaliza. Sabrina também promoveu o projeto “O meu lugar: as mudanças e continuidades na história de São Luiz das Antas”, com pesquisa, exposição itinerante, encontros e oficinas mensais com a comunidade, como um complemento ao documentário.
