O diretor-geral da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), John Barker, concluiu sua agenda no Brasil nesta sexta-feira, 22, em Bento Gonçalves. Ele participou de uma coletiva de imprensa no Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do RS (Consevits), onde apresentou um panorama do setor vitivinícola mundial e compartilhou suas impressões sobre a produção brasileira e o potencial do país no cenário internacional.
Segundo Barker, o setor da vinha e do vinho tem muitos interesses em comum. “É muito importante que a OIV seja um lugar onde governantes e especialistas se juntem para desenvolver ações e soluções para os interesses que temos em comum”, explicou. Ele também destacou os desafios pela frente, como “a mudança climática e o mercado internacional”.

O papel da OIV
Barker explicou que a OIV é uma organização intergovernamental que trabalha em conjunto com os governos. “O foco da organização é científico e técnico. Então, nós trabalhamos em questões científicas e tentamos ficar longe do lado político”, disse ele. Ele esclareceu que a OIV atua em todos os produtos “relacionados com o futuro da uva”, como vinho, uva de mesa, suco e vinagre. “Quando uma decisão é tomada, ela é por consenso. Significa que 51% das pessoas tomaram essa decisão e que ela tem um respaldo bastante forte”, argumenta.
Ele explicou ainda que a OIV possui sede na França e conta atualmente com 51 Estados-Membros. “Eles são responsáveis por 90% da área vitícola global, 88% da produção mundial de vinhos e 75% do consumo mundial”, enfatizou.
Segundo ele, mais de 500 especialistas de diferentes países se reúnem em grupos de trabalho para discutir e aprovar resoluções por consenso em quatro áreas principais: viticultura e uvas de mesa, enologia e métodos de análise, aspectos legais e econômicos, e saúde e segurança do consumidor. Ele completou: “Eles trabalham, inclusive, para aperfeiçoar. Eles provêm informação. Quando vocês recebem ou veem estatísticas, normalmente essas estatísticas vêm dos estudos da OIV”.

Um século de transformações
No ano passado, a OIV completou 100 anos, o que para o diretor “Foi um ano de transformação”. “Nós tomamos a oportunidade deste ano centenário para realmente pensar sobre o futuro da indústria da uva e o futuro da OIV”, destacou. Além disso, foi um ano em que criaram um novo plano estratégico para focar em alguns dos problemas e desafios do setor do vinho e de produtos alcoólicos na sociedade. “Estamos pensando em mudança climática e sustentabilidade, em novos consumidores e mudanças das preferências deles. Também estamos pensando no mercado global e a incerteza do comércio”, explicou.

Potencial brasileiro no cenário mundial
Para o diretor, o Brasil reúne excelentes condições para ampliar sua presença no mercado internacional de vinhos e derivados da uva. “A diversidade de terroirs, a inovação tecnológica e o espírito empreendedor do setor são diferenciais importantes. Os produtos brasileiros têm um enorme potencial”, destaca.
Fernanda Spindolla, que coordena a Subcomissão de Métodos de Análise da OIV, reforça essa percepção. Segundo ela, o Brasil tem avançado de forma significativa nas áreas vitivinícolas e apresenta uma grande diversidade de produtos. “A OIV vê esse crescimento com muito bons olhos. Desde 2018, a delegação brasileira conseguiu inserir a abordagem do suco de uva na Organização Internacional da Vinha e do Vinho e já conquistamos mudanças importantes em padrões internacionais, como no Codex Alimentarius”, ressaltou.
Para Fernanda, a visita do diretor representa uma aproximação importante da OIV com o setor vitivinícola brasileiro. “Esse olhar técnico e científico, em diálogo com o setor público e privado, reforça o potencial que temos para avançar ainda mais, especialmente na exportação de vinhos, espumantes e sucos de uva. Pelas impressões que ele compartilhou, ficou claro o quanto se surpreendeu com a qualidade do que produzimos e com a diversidade entre os diferentes estados produtores”, comemora.
Fernanda destaca ainda o cenário promissor da vitivinicultura brasileira e reforça a importância de valorizar a produção nacional. “Hoje, nós temos 17 estados produzindo vinhos e derivados, em três climas diferentes. Temos colheitas de inverno e, em algumas regiões, até duas ou três safras por ano. Isso nos deixa muito positivos e esperançosos quanto às oportunidades de abertura de mercado que temos pela frente”, ressalta.

Temas prioritários para o Brasil
Entre os temas que o Brasil pretende levar à OIV estão pautas próprias da realidade vitivinícola nacional, além de demandas do Mercosul que podem impactar diretamente a produção e a regulamentação do setor. Fernanda explica que há espaço para ampliar a participação brasileira nessas discussões e cita dois exemplos relevantes: a vitivinicultura de inverno e a inclusão de novas categorias de espumante. “Cabe a nós, como setor, entendermos as nossas próprias demandas. Nós temos espaços para apresentar na OIV temas que são nossos. Por exemplo, a vitivinicultura de inverno, a colheita de inverno, é um tema que nunca foi abordado na OIV”, pondera.
Entre os exemplos, Fernanda cita a vitivinicultura de inverno, prática ainda pouco conhecida no cenário internacional e que pode colocar o Brasil em posição de destaque dentro da OIV. “Nós levamos trabalhos de pesquisa científica já fazem dois anos, mas é um tema que nunca foi apresentado. Então, quem sabe o Brasil poderia apresentar para outros países que têm dificuldade de produzir em zonas muito secas, de temperaturas mais intensas, a gente sirva de referência. Então, esse tipo de tema é um assunto interessante”, destaca.
Outra pauta relevante envolve uma demanda conjunta do bloco do Mercosul. “Incluir as previsões de espumante extra-bruto e nature nas referências da OIV, que ainda não contemplam essas categorias. Esse tema é um pouco mais delicado, pois depende de uma harmonização com a União Europeia, mas é algo que podemos voltar a trabalhar em um futuro próximo”, conclui a pesquisadora.
Para o presidente da Consevitis-RS, Luciano Rebellato, a visita de Barker representa uma oportunidade de fortalecer vínculos e abrir novos caminhos para a colaboração científica e técnica. “Estamos convictos de que esse encontro trará desdobramentos positivos para toda a cadeia produtiva, desde a ampliação da presença brasileira em fóruns técnicos da entidade até a construção de novas parcerias voltadas à pesquisa, à inovação e à valorização do vinho brasileiro”, destaca.

Dados e tendências globais
Na coletiva, Barker apresentou também alguns dados importantes. “Quando analisamos o setor vitivinícola global, é importante entender não apenas os números de produção, mas também os fatores que influenciam o cultivo da uva, desde políticas agrícolas até tendências de mercado”, ele esclarece. “A uva é a segunda fruta mais importante em termos de área cultivada. No entanto, há uma tendência de redução dessa área ao longo do tempo. Esse fenômeno está fortemente ligado ao alinhamento entre oferta e demanda no mercado global, assim como as políticas da União Europeia, que visam reduzir o tamanho das áreas cultivadas. Vale destacar que a UE ainda representa 46% da área global destinada à produção de vinhos”.
Ele ainda comenta que na safra de 2023/2024 o número de colheitas de vinhos diminuiu. “O motivo disso realmente está relacionado com a mudança climática, porque em ambas as áreas, nós tivemos, no hemisfério Norte e Sul, um número de impactos climáticos. Não apenas chuva, mas também, como vocês bem sabem, chuvas e inundações”, explica.
Segundo o diretor, o consumo de suco de uva é o menor desde 1961, por diversos fatores. “Eu acho que há uma questão econômica. Mas também há mudanças sociais subjacentes na forma como as pessoas compram o suco. Sim, as pessoas estão mais preocupadas com a saúde, mas as pessoas também gastam mais tempo com seus celulares, ou com outros produtos, então há vários fatores”, conclui.

Panorama Atual do Setor Vitivinícola

Tendências Globais (2024)
Área de vinhedos:
7,1 milhões de hectares em 2024
Produção mundial:
226 mhl = 22,6 bilhões de litros em 2024
Consumo mundial:
214 mhl = 21,4 bilhões de litros em 2024
Comércio internacional:
•Volume exportado: 99,8 mhl = 9,98 bilhões de litros
•Valor: 36 bilhões de euros (-0,3% sobre 2023)
•Preço médio: 3,60 €/litro, ainda 30% acima do período pré-pandemia.
Brasil em Números (2024)
22° maior vinhedo do mundo
Distribuição: Uvas de mesa (53%), Vinhos (24%), Suco de uva (23%)
Área de vinhedos:
75.800 hectares (2023)
As enchentes de maio de 2024 no RS destruíram cerca de 500 hectares.
14° maior produtor de vinhos:
Produção entre 3 e 4 mhl = 300 a 400 milhões de litros
Consumo de vinho:
Média histórica: 3 a 3,5 mhl = 300 a 350 milhões de litros (média histórica)
Pico na pandemia (2020-2021): 4 mhl = 400 milhões de litros
Brancos e espumante em alta:
Uvas brancas representam 30% da produção de vinhos.
Espumantes:
9° maior produtor: 602 mil hl = 60,2 milhões de litros (2024)
8° maior consumidor: 669 mil hl = 66,9 milhões de litros (2024)
Suco de uva:
Produção: 3 mhl = 300 milhões de litros (média recente)
Uvas de mesa:
6° maior produtor do mundo, com 950 mil toneladas em 2024
Apenas 6% da produção é exportada (59 mil toneladas)