A identidade cultural do povo gaúcho, frequentemente reduzida a um punhado de símbolos e costumes, revela-se, sob um olhar mais aprofundado, um complexo e dinâmico mosaico de influências. Em entrevista, o professor e doutor em História Rodrigo Luis dos Santos, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), revela as múltiplas camadas que compõem essa formação, desde seus alicerces históricos até os impactos duradouros das grandes revoluções que marcaram a paisagem política e social do Rio Grande do Sul.
A cultura de um povo plural

A complexidade da cultura gaúcha, segundo o professor Santos, está intrinsecamente ligada à sua formação histórica. Longe de ser um conceito estático, a identidade cultural é uma construção contínua, moldada por um vasto leque de contribuições. “Historicamente, não há como negar que nossa base está vinculada com a vida no campo, em grande medida, e os hábitos vinculados com esse modo de vida mais rural, interiorano, influenciado por aspectos culturais variados, vindos de diferentes grupos. Temos diferentes influência de povos indígenas, como os Guarani, Minuanos, Charruas (esses dois últimos grupos, também chamados de Pampeanos), das populações negras (pois para cá foram trazidas pessoas de diferentes regiões e comunidades étnicas da África, que aqui constituíram também seus aspectos sociais e culturais), assim como de grupos vindos da Europa, que para cá migraram, como espanhóis, portugueses/açorianos, italianos, alemães, poloneses. E hoje temos migrações recentes, que também causam impacto e vão colaborando para mudanças culturais”, lista o professor.

A análise de Santos aprofunda-se na influência de grupos que, juntos, tecem a malha social do estado. Entre os exemplos de contribuição dos povos indígenas esta o hábito do chimarrão. A presença de populações negras, trazidas de diferentes regiões da África, é um fator determinante, embora muitas vezes subestimado. O professor ressalta que o Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com o maior número de locais de manifestação religiosa de matriz afro-brasileira, o que demonstra a forte contribuição negra. Paralelamente, grupos de imigrantes europeus, como espanhóis, portugueses, italianos, alemães e poloneses, trouxeram consigo suas próprias tradições, religiões, culinárias e formas de expressão, que se fundiram ao caldeirão cultural. “E é importante destacar isso, pois é justamente esse mosaico de diferentes origens e aspectos culturais que nos forma enquanto povo e, ao mesmo tempo, mostra que não existe um ‘tipo único’ ou ‘modelo ideal’ do ‘ser gaúcho’. Se pode tentar estabelecer um padrão, mas é algo praticamente impossível, de forma natural, pois a nossa formação humana é diversificada. E isso é fantástico!”, salienta.
A pluralidade, portanto, é a característica definidora da identidade gaúcha. Para o professor, é fundamental reconhecer que não existe um “tipo único” ou um “modelo ideal” de ser gaúcho. Qualquer tentativa de padronização, ele argumenta, é praticamente impossível e desconsidera a riqueza da formação humana. Santos destaca a importância de uma visão esclarecida sobre o passado para compreender o presente: “temos que ter bem claro que nossa formação humana, enquanto sociedade, é complexa, historicamente, e variada, enquanto formada por diversas influências”, esclarece.
Entre o mito e a realidade histórica

A Revolução Farroupilha, frequentemente romantizada como um ideal de liberdade e heroísmo, é uma peça central na construção do imaginário gaúcho. Contudo, o professor Santos conduz a análise para além dos motivos popularmente conhecidos, como a questão do preço do charque e o desejo de separação do Império. Ele aponta para o papel da relação de fronteira com os países platinos, Argentina e Uruguai, e a influência de um perfil político mais caudilhesco, presente tanto entre as forças rebeldes quanto nas lideranças imperiais. “Tanto do lado dos revoltosos, ou seja, dos farrapos, quanto de lideranças imperialistas, havia essa visão mais caudilhesca. Por outro lado, vários farroupilhas, anteriormente, lutaram pelos interesses brasileiros, em conflitos mesmo antes da Independência. O militar Bento Gonçalves, por exemplo, participou das chamadas Campanhas Cisplatinas, entre 1811 e 1812 e depois entre 1816 e 1821, quando fazia parte da Companhia de Ordenanças de Dom Diogo de Souza. Isso, sem contar, depois, na Guerra Cisplatina (1825-1828), que resultou na independência do Uruguai, que entre 1816 e 1828 pertenceu ao Brasil. Como estancieiro, por outro lado, tinha seus próprios interesses, para além dos interesses do Império, por exemplo. Desse modo, as autoridades imperiais viam, com certa desconfiança, o poder desses estancieiros, embora os ‘utilizassem’ quando oportuno. Enfim, haviam jogos de interesses entre todos os envolvidos”, revela sobre o cenário político da época.
Santos destaca também a complexidade dos interesses que motivaram o conflito, pois a Revolução não foi uma luta unificada. Havia diferentes visões e linhas de pensamento entre os próprios revolucionários, uma das marcas formadoras do Rio Grande do Sul. “Esse ambiente, unido com as relações estabelecidas com lideranças argentinas e uruguaias, ao mesmo tempo em que existe uma circulação de ideias republicanas, numa configuração que envolve o desejo de maior participação política por parte desse grupo, descontentamento por conta de medidas econômicas e, até mesmo, uma identidade brasileira não fortemente constituída – pois o Rio Grande do Sul, em sua extensão geopolítica atual, só vai ser consolidado com a Conquista das Missões, em 1801 – colaboraram para o cenário onde a Farroupilha se desenvolveu. Mas, é importante destacar, também, que não havia uma unidade plena de ideias entre as forças revolucionárias. Com isso, por exemplo, alguns líderes farrapos eram favoráveis à continuidade da escravidão, como David Canabarro, enquanto outro, como Teixeira Nunes, eram defensores ferozes da abolição. Tanto que, já nos últimos meses da guerra, e 14 de novembro de 1844, temos o episódio do Massacre de Porongos, onde foram dizimados a maioria do Lanceiros Negros, que eram recrutados com a promessa de liberdade”, desmistifica a respeito das figuras históricas.

Desta forma, o professor reconhece que a Revolução Farroupilha, de forma geral – e até superficial – é muito utilizada, relembrada e reforçada, como um momento que marca o gaúcho idealista, que luta contra a falta de liberdade e as injustiças. Ele adverte que essa idealização serve para a criação da figura do “gaúcho heroico”. O historiador provoca a reflexão sobre o que é de fato fundamentado na história e o que é reproduzido como uma “versão romântica” dos fatos, sublinhando que o passado não pode ser mudado, mas as interpretações sobre ele sim. “Esses momentos celebrativos também são importantes para provocar a reflexão. E, reforço: não se trata de desmerecer valores e qualidades, mas de analisarmos como um fato histórico pode ser utilizado de diferentes formas, como elemento para construir identidades, posições políticas e modelos culturais”, esclarece sobre a identidade cultural.
A mais sangrenta luta entre gaúchos

Se a Farroupilha é lembrada, a Revolução Federalista, ocorrida entre 1893 e 1895, é muitas vezes obscurecida na memória coletiva. Para o professor, essa omissão não é acidental; a guerra civil foi um conflito brutal, sem a aura idealista do movimento farrapo, caracterizado pela “crueldade das degolas e uma luta ‘entre irmãos’”. O conflito é fruto da consolidação da República no Brasil e, mais especificamente, da imposição de um modelo político centralizador e autoritário no Rio Grande do Sul.
O cenário era de intensa polarização. “De um lado, nós tínhamos o Partido Republicano Rio-grandense (PRR), cuja liderança maior era Júlio Prates de Castilhos, adepto do pensamento Positivista de Augusto Comte. Dentro da perspectiva de Castilhos, o governo republicano deveria ser centralizado em um Executivo forte e centralizado, com poucos espaços democráticos. Era a política do ‘eu sei o que é o melhor para vocês’. Esse grupo, com a Guerra Civil ou Revolução Federalista, entre 1893 e 1985, vai ser chamado de “Pica-Paus”, por conta das cores do quepe utilizado pelos soldados da Brigada Militar da época”, explica o professor, que lembra também que “Os Pica-paus” serão oficialmente chamados de Chimangos em 1923, usando o lenço branco.
Do outro lado, a oposição, formada por monarquistas e republicanos dissidentes liderados por Gaspar Silveira Martins, fundou o Partido Federalista, que defendia um modelo de governo mais próximo do parlamentarismo. Eles ficaram conhecidos como “Maragatos”. “Esse grupo, em 1892, liderados por Gaspar Silveira Martins, político gaúcho influente e vinculado ao Partido Liberal no Império, funda o Partido Federalista, que defendia praticamente um modelo parlamentarista de governo, tanto em nível federal quanto estadual. Receberiam a alcunha de maragatos, por conta das relações e existência de uruguaios entre seus soldados – cuja ascendência era da região de Maragateria, na Espanha. Estes, usavam o lenço vermelho, colorado”, esclarece.

A guerra civil, que durou 31 meses, teve como estopim a insatisfação com a Constituição Estadual de 1891, escrita majoritariamente por Castilhos, e com sua eleição para presidente do estado e a implementação de um modelo ditatorial. O professor Santos detalha que a “guerra entre os gaúchos” resultou em mais de 10 mil mortos, com a prática da degola sendo utilizada em larga escala pelos dois lados(com cerca de 2 mil decapitados), demonstrando o ódio e a vingança que se misturavam às motivações políticas. A vitória dos “Pica-Paus” consolidou o modelo de poder Castilhista-Borgista, que controlaria a política gaúcha por quatro décadas. “A Federalista se dá em um momento de consolidação de regime, ou seja, de implantação e sustentação da República no Brasil, além de tentar consolidar, no poder, uma forma de pensamento e ação políticas, através do Partido Republicano Rio-grandense, do Positivismo e do que chamamos de modelo Castilhista-Borgista de fazer política, com características mais centralizadoras e autoritárias. E, esse modelo, posteriormente, também será levado por Getúlio Vargas ao nível federal, quando assume o poder como presidente. Isso, tanto no período entre 1930 e 1937, mas, especialmente, entre 1937 e 1945, durante o regime ditatorial do Estado Novo. Vargas, em grande monta, é fruto da influência do Castilhismo-Borgismo”, sublinha o professor sobre o impacto da revolução no âmbito nacional.
A Revolução de 1923: o último conflito civil do Rio Grande Do Sul
O conflito de 1923, embora menos conhecido que a Farroupilha, teve desdobramentos diretos na política brasileira. As causas do enfrentamento entre os “chimangos” de Borges de Medeiros e os “maragatos” de Assis Brasil têm grande semelhança com a Revolução Federalista: o descontentamento com o modelo de poder centralizador e a efervescência política que perdurava desde o conflito anterior. A eleição estadual de 1922 foi o estopim, com a oposição alegando fraude após a vitória de Borges de Medeiros para seu terceiro mandato consecutivo. “Em nível federal, o candidato da situação, escolhido pelo acordo entre São Paulo e Minas Gerais, o famoso “Pacto Café com Leite”, era o mineiro Artur Bernardes. Naquele momento, os republicanos, no Rio Grande do Sul, não apoiaram Bernardes, mas se uniram com a Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, apoiando um candidato de oposição, Nilo Peçanha, que já havia sido vice-presidente do Brasil, entre 1906 e 1909 e, com a morte do então presidente, Afonso Pena, assumiu a presidência entre 1909 e 1910. A vitória foi de Artur Bernardes”, elucida o professor sobre a situação politica nacional.

Santos descreve a guerra como um embate entre as “lanças dos maragatos” e as “metralhadoras dos chimangos”. A violência foi tamanha que, segundo ele, a guerra civil, que durou quase um ano, resultou em aproximadamente mil mortes. A prática da degola ainda era recorrente, refletindo o ódio persistente entre as facções. A região da Serra Gaúcha, incluindo Bento Gonçalves, não foi palco de grandes batalhas, mas a guerra interferiu na vida das comunidades, causando medo e levando à fuga de famílias.
O fim do conflito foi selado com o Pacto de Pedras Altas, assinado em dezembro de 1923. O acordo, mediado por Assis Brasil, trouxe mudanças significativas, como a proibição da reeleição para cargos executivos estaduais e municipais. Essa medida, no entender de Santos, abriu espaço para novos nomes na política gaúcha. A consequência mais notável, no entanto, foi a ascensão de Getúlio Vargas, que havia atuado na Comissão de Apuração Eleitoral em 1922 e foi indicado por Borges de Medeiros para sua sucessão. Vargas foi eleito em 1927 e, a partir daí, seu caminho para o poder federal foi traçado. “Getúlio acabou se tornando um nome de conciliação – embora as perseguições e conflitos locais entre chimangos e maragatos continuassem existindo. O vice de Vargas foi João Neves da Fontoura. O secretário do Interior foi Oswaldo Aranha. Uma das consequências da Revolução de 1923 foi estabelecer, tanto entre republicanos quanto entre os federalistas, que em 1928 iriam se filiar ao Partido Libertador, de Assis Brasil e Raul Pilla, fundado naquele ano, lideranças que, posteriormente, ocupariam espaço significativo na esfera política nacional”, relembra.
Bento Gonçalves: uma imposição estratégica
A cidade de Bento Gonçalves, que carrega em seu nome a figura mais proeminente da Revolução Farroupilha, foi emancipada em 11 de outubro de 1890, recebendo a nova denominação por um ato político. O professor esclarece que a localidade, antes conhecida como Colônia Dona Isabel, em homenagem à Princesa Isabel, foi rebatizada em uma estratégia político-pedagógica do novo regime republicano. “Era preciso consolidar o novo regime, dos mais diversos modos. E a denominação de localidades, substituindo nomes ligados ao Império, por outros, mais próximos dos ideias republicanos, era uma estratégia político-pedagógica. Foi uma escolha mais imposta, vindo de cima, não diretamente da própria comunidade”, pontua o historiador.
Essa imposição, segundo ele, pode explicar por que outros aspectos da história e da identidade local, como o legado da imigração italiana, parecem ser mais valorizados do que a memória daquele que empresta o nome ao município. A própria emancipação ocorreu em um período de grande instabilidade política, logo após a proclamação da República. Embora Bento Gonçalves tenha sido um republicano e o primeiro presidente da República Rio-Grandense, a forma como seu nome foi atribuído à cidade pode ter, paradoxalmente, contribuído para um certo distanciamento da população em relação à sua figura histórica.
A identidade em mutação

As grandes revoluções gaúchas, cada uma a seu modo, deixaram marcas profundas na sociedade e na cultura do estado. O professor ressalta que a Revolução de 1923, apesar de seus desdobramentos na política nacional, muitas vezes não recebe o destaque merecido. Ele menciona a existência de registros, como exemplares de jornais e álbuns fotográficos da época, que permanecem em acervos, mas a memória oral de alguns locais, como São Francisco de Assis, ainda é um tema sensível. “A lembrança e a memória do que ocorreu naquele dia, onde membros da própria comunidade lutaram entre si, se tenta apagar, ao não se abordar, localmente o assunto”, afirma. Santos contrasta esse silêncio com a edificação de um monumento de pacificação na praça central da cidade, um símbolo que representa o desejo de “olhar para a frente”, mas que, paradoxalmente, não permite a completa elaboração do passado.
Para o historiador, a importância de preservar a memória desses episódios reside na oportunidade de olhá-los com uma compreensão mais atenta e crítica. “Essas, em boa medida, são mais individuais, dependem da bagagem de experiências e da visão de mundo que cada um de nós possui”, afirma.
O Dia do Gaúcho, data que celebra a herança cultural do estado, levanta questionamentos complexos, especialmente para as novas gerações. O professor, ao ser interpelado sobre o que a data representa hoje, evita uma resposta definitiva. “Cada geração vai constituindo seus próprios valores como forma de enxergar a realidade. Afirmar o que representa, seria até uma certa ousadia de minha parte. Mas, posso contribuir com o que acredito que, o Dia do Gaúcho, possa fornecer de reflexão: analisar como se deu nosso processo de formação histórica, social e cultural; perceber quem são os grupos humanos que contribuíram e contribuem com nossa formação e como foram e são retratados e valorizados; refletir sobre a identidade como uma forma de construção, não algo que vem pronto – mas que muitas vezes se tenta impor”, orienta.
Rodrigo Luis dos Santos
É justamente esse mosaico de diferentes origens e aspectos culturais que nos forma enquanto povo e, ao mesmo tempo, mostra que não existe um ‘tipo único’ ou ‘modelo ideal’ do ‘ser gaúcho’
Professor e doutor em História
O historiador aborda o desafio de equilibrar as tradições com a inclusão e a diversidade cultural. Para ele, a solução está na consciência de que a formação do povo gaúcho é, por sua própria natureza, historicamente diversa. O reconhecimento da contribuição de diferentes grupos humanos pode, e deve, levar a uma maior abertura e respeito. “Não é algo totalmente novo, pois historicamente somos constituídos por diversidade. Embora, alguns grupos e culturas sejam mais valorizados e respeitados que outros”, conclui Santos.
Outros fatos históricos esclarecidos pelo professor
Jornal Semanário: A República Rio-Grandense foi um projeto viável ou uma utopia política?
Rodrigo Luis dos Santos: Se pensarmos na realidade dos países vizinhos no período, como Uruguai e Argentina, era possível que o projeto republicano no Rio Grande do Sul tivesse condições de viabilidade. Mas, do ponto de vista de estrutura política, justamente essas disparidades existentes entre os próprios revolucionários tornava difícil a consolidação de um país independente aqui. Pois, uma questão era declarar e consolidar a independência; outra era a implantação e governabilidade dessa república, assim como pensar quais modelos de economia e políticas de desenvolvimento seriam adotadas, assim como o próprio processo eleitoral: seria mais democrático ou se mostraria autoritário e fraudulento, como ocorria em vários países da América do Sul naquele contexto? São mais perguntas que podemos fazer do que, de fato, respostas totalmente fechadas.
JS: Como esses episódios são lembrados hoje? Há registros, monumentos ou tradições que mantêm viva essa memória?
R: É interessante, pois a Revolução (ou Guerra Civil) de 1923, embora tenha tido desdobramentos que repercutiram, alguns anos depois, nos rumos do próprio Brasil, muitas vezes não recebe um destaque maior – mesmo sendo a mais recente das três grandes guerras civis que ocorreram no Rio Grande do Sul. Mas existem registros, seja por meio de documentos, cartas ou da imprensa da época, cujos exemplares existem em acervos de museus, arquivos e outras instituições do estado, inclusive com muitos deles digitalizados e disponíveis para consulta online na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Assim como existem registros fotográficos, como o “Álbum dos Bandoleiros da Revolução de 1923”, um material impresso com imagens e textos abordando as principais lideranças e momentos, contados pela visão da oposição, ou seja, pelos federalistas/libertadores ou, como os conhecemos mais, os maragatos. Em algumas cidades do Rio Grande do Sul, onde ocorreram batalhas, existem marcas que ainda permanecem daquela época, mas não como monumentos de fato, assim como relatos orais que passam de geração em geração, especialmente mais para o interior, como na região da Campanha ou ao Norte do Estado, onde se concentraram mais batalhas. Há cidades, por exemplo, onde as marcas da Revolução de 1923 são mais profundas, inclusive na formação daquela comunidade, sendo um assunto ainda complexo, que não é “agradável” de ser mencionado, como é o caso de São Francisco de Assis, onde ocorreu o principal conflito em área urbana daquela guerra. Em 2 de outubro daquele ano, a cidade foi tomada pelos maragatos, iniciando um violento tiroteio na praça central da cidade, com um número, estimado, de quase 120 mortos, tanto de chimangos quanto de maragatos. Árvores da praça e do seu entorno ainda guardam marcas de balas ali usadas, mas a lembrança e a memória do que ocorreu naquele dia, onde membros da própria comunidade lutaram entre si, se tenta apagar, ao não se abordar, localmente o assunto. Embora, tenha sido edificado, na praça central, um monumento, representando duas mãos se cumprimentando, como um símbolo de pacificação e de “olhar para a frente”, esquecendo os conflitos – mesmo sendo uma obra alusiva ao que ocorrera naqueles idos de 1923. Mas, ao falarmos em locais que fazem parte da história e memória da Revolução de 1923, não há como deixar esquecido o Castelo de Pedras Altas, onde os maragatos, representados, especialmente, por seu líder, civil, Joaquim Francisco de Assis Brasil, assinou o acordo de pacificação, o Tratado de Pedras Altas, em 13 de dezembro de 1923, sendo a assinatura, por parte dos republicanos ou chimangos, assinada no dia seguinte, no Palácio do Governo – o nome Palácio Piratini seria dado apenas em 1955, durante o governo de Ildo Meneghetti, homenageando à primeira capital da República Rio-grandense, durante a Guerra Civil Farroupilha –, em Porto Alegre, por Borges de Medeiros.
JS: Qual a importância de preservar a memória histórica dos movimentos revolucionários gaúchos?
R: É importante tanto pelos fatos históricos em si, mas também, em minha percepção, pela oportunidade que temos de olhar e analisar esses fatos, com uma compreensão mais atenta e crítica sobre eles e suas consequências. Acho que essa é uma importância significativa. Como historiador, perdi um pouco essa visão mais “romantizada” desses movimentos… mas sempre, também do ponto de vista humanístico, podemos tirar lições. E essas, em boa medida, são mais individuais, dependem da bagagem de experiências e da visão de mudo que cada um de nós possui.